Do longo depoimento que Bolsonaro prestou na sexta-feira à Polícia Federal, sobre seu envolvimento nas ações anti-brasileiras do filho Eduardo nos Estados Unidos, pouco se soube além do fato de que Bolsonaro confirmou ter mandado 2 milhões de reais para Eduardo, para financiar seu sustento nos Estados Unidos. Mas à saída criou uma nova expectativa, a do depoimento que vai prestar nesta semana, na terça ou quarta-feira, ao Supremo Tribunal Federal e ao Ministro Alexandre de Moraes, sobre o próprio envolvimento nas tentativas de golpe que culminaram com os ataques de 8 de janeiro de 2023 ao Congresso, ao Supremo e ao Palácio do Planalto.
Bolsonaro, falando aos jornalistas na saída da Polícia Federal, sugeriu que seus adeptos acompanhassem pela televisão esse depoimento, dando a entender que nele contaria a verdadeira história daqueles dias. Mas vai ser difícil contestar algumas provas e alguns depoimentos já recolhidos pelo Supremo. Por exemplo, o depoimento do tenente-coronel Mauro Cid, que fez delação premiada contra Bolsonaro.
Por ser uma delação premiada, esse depoimento é automaticamente suspeito. Mas há um outro, totalmente insuspeito, que é o do brigadeiro Carlos de Almeida Batista, comandante da Aeronáutica no tempo de Bolsonaro, que conta, no depoimento liberado para a divulgação dias antes, que foi convocado em um determinado dia de dezembro para uma reunião no Palácio do Planalto com Bolsonaro. Chegando lá, estavam também na sala o General Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, e o general Paulo Sergio Nogueira, então ministro da Defesa. Imediatamente, segundo o Brigadeiro, o general Paulo Sergio pediu que ele lesse um documento que estava em cima da mesa. Batista então, pressupondo do que se tratava, perguntou ao general: “por acaso esse documento prevê a não assunção do presidente eleito à chefia do governo?” Ou seja, perguntou se a posse de Lula seria impedida de algum modo. O General Paulo Sergio respondeu “sim!” Nesse momento, Batista respondeu “então não vou nem pegar nesse documento” e saiu da sala sem mais qualquer declaração. Vai ser difícil a Bolsonaro contestar essa narrativa dos acontecimentos.
Mas talvez ele queira aproveitar sua ida ao Supremo para, de certo modo, estimular a candidatura de sua mulher, Michelle, à presidência da República. Com o suspense que ele pode criar, até sobre a possibilidade de ser preso preventivamente ou não, estará promovendo a candidatura de Michelle, que na última pesquisa da Quest teve 39% dos votos contra 41% do Lula. Bom número, até para Bolsonaro atrapalhar a candidatura de Tarcisio de Freitas, que está fazendo concorrência a candidatura agora posta de Michelle.
(*) Por José Augusto Ribeiro – jornalista e escritor, é colunista do Jornal Brasil Popular com a coluna semanal “De olho no mundo”. Publicou a trilogia A Era Vargas (2001); De Tiradentes a Tancredo, uma história das Constituições do Brasil (1987); Nossos Direitos na Nova Constituição (1988); e Curitiba, a Revolução Ecológica (1993); A História da Petrobrás (2023). Em 1979, realizou, com Neila Tavares, o curta-metragem Agosto 24, sobre a morte do presidente Vargas.
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