A emergência de novas condições e tendências no mundo e na América Latina
Na segunda década do século XXI, assistimos ao ascenso vertiginoso de novas potências econômicas como China, Índia, África do Sul, Rússia e Brasil, fenômeno que está mudando o panorama de poder mundial unipolar prevalecente desde a desintegração da União Soivética na última década do século XX.
O peso crescente da China e as repercussões de seu êxito econômico e social aglutinaram a essas potências, cuja participação na economia mundial se aproximará no [ano de] 2030 aos 40%, se constituindo num novo eixo de poder que rechaça o ordenamento unilateral e à margem do direito internacional que, em forma de sanções, os Estados Unidos impõem aos que não comungam com seus interesses. A atual conjuntura internacional é, portanto, favorável à mudança pois já não existe uma hegemonia onde só impere “a lei do porrete” através de sanções e golpes de Estado, senão que floresce um mundo multipolar que gera alternativas e possibilidades de novas alianças.
Neste contexto, Brasil e México, entre outros, vêm jogando um papel relevante na ampliação dos direitos do conjunto das nações da América Latina e têm implementado políticas significativas na perspectiva de recuperar e fortalecer sua soberania econômica e política; no entanto, tais medidas seguem sendo frágeis e incompletas por carecerem de uma base social de apoio que responda às mudanças, assim como de inclusão social através da educação e de outros mecanismos de promoção e organização social.
Evidentemente, todo este esforço de capacitação organizacional deverá ser executado seguindo os princípios epistemológicos e os procedimentos técnicos, recuperados e sistematizados em metodologias de capacitação de massas, entre as quais se destacam a educação popular de Paulo Freire e a do Laboratório Organizacional [LO], criado e desenvolvido pelo sociólogo brasileiro Clodomir Santos de Morais e que já foi aplicado com êxito em diferentes países de quatro continentes [Carmen e Sobrado, 2000]. Esta última, ademais de apresentar resultados destacados em diversas formas de organização popular, gera poder real, elevando a consciência e as possibilidades de incidência e participação das comunidades na vida econômica e política. O êxito do LO se fundamenta em seu enfoque baseado na autonomia efetiva dos grupos e não na tutela clientelista dos assistencialistas.
Neste sentido, cabe destacar que a autonomia do sujeito é exigida pela natureza do mesmo processo de capacitação que demanda, para ser efetivo, da relação sem interferência com o objeto, neste caso, a organização social, em cujo manejo os participantes buscam se habilitar. Toda esta abordagem metodológica está alinhada, de forma congruente, com os princípios da educação para adultos, ou andragogia, e a teoria da atividade objetivada de Lev Vigotski.
Em virtude do antes dito, o objetivo final da capacitação é conseguir uma descolonização organizada e consciente, que não só se limite à independência política e econômica senão que também abarque uma emancipação cultural e epistemológica, permitindo aos povos da América Latina recuperarem sua identidade e autodeterminação em todos os aspectos da vida social.
(*) Por Miguel Sobrado C. Tradução > Joaquim Lisboa Neto
Biblioteca Campesina, Santa Maria/Bahia, 11julho2024
A FUTURE for the EXCLUDED editado por Zed Books – London / New York; UM FUTURO para los EXCLUIDOS – EUNA-Editorial Universidad Nacional – Heredia, Costa Rica; UM FUTURO para os EXCLUÍDOS – EDUFRO – Porto Velho/RO e IATTERMUND – Brasília/DF. Tradução > Joaquim Lisboa Neto
(*) Joaquim Lisboa Neto, colunista do Jornal Brasil Popular, coordenador na Biblioteca Campesina, em Santa Maria da Vitória, Bahia; ativista político de esquerda, militante em prol da soberania nacional.
