Como parte das comemorações do 123º aniversário do genial romancista, e aplicando a feliz fórmula de Emiliano José, publicando pequenos trechos pinçados de textos longos a fim de dar fôlego aos que nos honram com o acesso a este face.
A partir de agora presentearemos leitoras e leitores com a carta que se segue escrita por um monstro sagrado da esquerda latino-americana caribenha pra um igualmente monstro sagrado da literatura brasileira.
Ambos tiveram nossa Santa Maria como berço, os dois foram presos no mesmo 1º de abril de 64, conterrâneos que merecem todas as Honras e Glórias, principalmente das gentes que nasceram e residem nesta, a mesma aldeia desses ícones.
No meu ponto de vista não se trata o documento de mera carta mas sim de um verdadeiro tratado sociológico, antropológico, adentrando Morais por veredas labirínticas destrinchando fibra por fibra este sertão, estes Vales do Corrente e do Velho Chico.
Joaquim Lisboa Neto (*)
CARTA A OSÓRIO ALVES DE CASTRO [1]
CLODOMIR MORAIS
San José [Costa Rica], 2/6/1971
Caro Conterrâneo Osório:
Por fim, depois de muitos anos, a carta que eu sonhava receber: a sua carta.
Há tempos que lhe busco como os que procuram coisas perdidas com a ajuda de São Lunguim –quero dizer, gritando a todo pulmão.
A bem dizer, desde 1948. Nezinho Afonso me havia dado notícias do paradeiro de Pedro Coelho e filho e de você também.
O conversero era de que esses santa-marienses viajavam no Volga em um momento em que eu buscava a canoa. Mexi, virei, corri mundo e cadê vocês?
Nada!
Derriei pros lados de Osvaldo Cruz e Adamantina, arredado de Bauru um bom pedaço de chão, e nada!
Buscava o pintor Teté [Mozart, também escultor em madeira, sobrinho do carranqueiro Guarany-n.t.], o intelectual Osório e o político-jornalista tabaréu, Pedro.
Buscava o que de melhor havia produzido o nosso povoado. Perdi de rumo.
Nada!
Faltavam-me os feitiços de velho Benigno ou as rezas de rosário e lamparina de Siá Rôla e Siá Rimita para um encontro mais rápido. Quandé fé nos cruzamos por essas travessias.
Vamos ver!
Se não me engano, Herculano Pires, seu prefaciador, trabalhava nos Diários Associados da rua 7 de Abril em 1949. Prédio novo, museu, jornal. Redação com móveis de aço e jornalistas lordes. Com ele estive várias vezes e através dele consegui trabalhar em O TEMPO de Hugo Borghi.
Já por volta de 1956, em um Congresso Nacional de Municípios, no Rio, me encontrei com vários amigos seus. Eles me deram o seu perfil de gigante [pois, oriundo de muito mais baixo, os havia superado em altura].
Me falaram da histórica alfaiataria [Rex], o “Senado” de Marília, que valia por uma academia ou por um instituto de ciências sociais. Marília deve a Santa Maria da Vitória muito mais do que eu imaginava.
Meti cartas e cartões no correio, e nada! Diacho! Quem sabe, as cartas zanzavam, zanzavam e não lhe encontravam. De vera!
No ano seguinte, já de há muito enfermo do novo mal do século, fui me curar na Meca europeia. Outros amigos comuns, e meti cartas e cartões no correio. Nada!
‘Tá danado! – imaginei –, socou onde nem o diabo encontra. A valência é que eu acreditava que você ainda existia e por isso buscava a “prova do nosfora”.
CARTA A OSÓRIO ALVES DE CASTRO [2]
CLODOMIR MORAIS
San José [Costa Rica], 2/6/71
Em 1962, com o adjutório de tia Bilú de Claudemiro, localizei Pedro Coelho. Fui e lhe presenteei o tesouro que Zé da Tribuna havia perdido. É que eu temia perdê-lo no meu particular Barulho da Rua do Fogo.
A zuada, você deve ter escutado, foi grande: chuva de pedras, corisco, consumição de pecados, apirreios.
Terminei como o finado Josias França, “na boca do leão”, folgante no inverno e necessitante na seca. Não me arrependi, pois tudo eu pensava capitalizar para o nosso pobre e anônimo povoado. Sabia que quem planta ridimunho colhe trovoadas. Enfim, passarim que come pedra sabe o cu que tem. Montei de novo no meu burro e retirei pros “gerais”. Espero as águas.
Cadê que eu sabia que você era irmão de Dissouza! Hum! Vê como cheguei perto! O encontro com Pedro Coelho e com ele foi tão rápido que mal deu tempo ao cafezinho.
Perdi a melhor ocasião de conhecê-lo pessoalmente porque nesse mesmo ano eu havia distribuído vinte exemplares do PORTO CALENDÁRIO, comprados na Av. São João, em frente ao Paissandu.
Moço! Fiquei louco pelo livro. Varrido. Era só do que eu falava. Vôte! Li e reli, no corrido e no salteado dos remetidos. É troço para cinema. Cinema arte-ciência.
Falou meu povo, o rio, o Domingão, o cheiro de rapadura e a zuada do riacho. De divera. É foto e mundo coloridos de uma singular ecologia social. Nada de debuxo. É foto, fotografia. Retrato. Vale por uma tonelada de ensaios sociológicos.
CARTA A OSÓRIO ALVES DE CASTRO [3]
CLODOMIR MORAIS
San José [Costa Rica], 2/6/71
Meu saudoso pai leu PORTO CALENDÁRIO [que título encantador: nele você conseguiu a síntese maravilhosa de espaço e tempo] em duas noites e, vai não vai, suspirava: — Home! Como é que ele gravou tudo isso? Assunta!
O livro [vários exemplares] correu de mão em mão a Santa Maria. Foi um fuzuê danado. Entre o maravilhoso da ficção e dos fatos reais o povo dormiu consciente de que a cidade renascia.
E eu repetia aos amigos: Santa Maria não renasceu com Brasília e sim com Osório de Castro.
De 62 pra cá, nas correrias da vida, perdi meu livro de cabeceira. Batuquei, batuquei com a cabeça e o juízo e por fim encontrei o caminho, o conterrâneo e o livro. Pena que a desgraça do correio me tomou cinco meses, dado muitas viagens pelos Continentes e a mudança de residência.
Diacho!
Ademais de vinte anos, perdi ainda cinco meses de cobiçado diálogo. Tentando recuperar o tempo perdido [sem complexos proustianos] respondo imediatamente sua carta.
Osório amigo, li bem o Grande Sertão: Veredas e outras obras de Guimarães Rosa. São novidades, reconheço. Porém o Grande Sertão o encontro um tanto artificial pelo grande trabalho artesanal de criação linguística.
Conheço bem o dialeto em que ainda hoje sobrevive a “cultura geraliana”; dialeto que prescinde de fabricações propositadas para traçar a visão ontológica do nosso tabaréu. Por isso não confundo o seu livro com o Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa.
CARTA A OSÓRIO ALVES DE CASTRO [4]
CLODOMIR MORAIS
San José [Costa Rica], 2/6/71
Me azedo quando alguns insistem em situar no Urucuia o epicentro do fenômeno cultural dos “gerais” são-franciscanos. Ah! Quanta ignorância!
O linguajar ou os falares seiscentistas ainda prevalecem no quadrilátero formado pelo São Francisco Ocidental e seus divisores de água com o Tocantins, o Paraná e o Parnaíba, são uma infraestrutura [instrumento de comunicação ou de informática] que pôde manter vivos os traços culturais dos ciclos nordestinos do couro e da mineração. Não há que confundir [o batismo da série e do estilo com o nome de Urucuia cria essa confusão] a cultura da Antiga Comarca do São Francisco com a dos mineiros.
O encurralamento da cultura nordestina seiscentista naquele “Quadrilátero dos Gerais” se deve notadamente a uma medida política da Regência. Dado as Revoluções republicanistas de Olinda e Recife, Pernambuco foi severamente punido.
Não bastava fuzilar Frei Caneca, Padre Roma, Padre Mororó e Padre Miguelinho [matar padres foi um nunca acabar].
O medo que D. João VI tinha de aventureiros que pudessem arrebatar a Coroa portuguesa se transmitiu ao filho. Um dos aventureiros daquela quadra seria Abreu e Lima [o “Che” brasileiro], que ingressou como soldado voluntário nas hostes de Bolívar e alcançou o grau de general.
Desgostoso por ver incompleta ou deformada a revolução bolivariana, abandonou Caracas e foi buscar um lugar no Continente para realizar o sonho que ele escreveu no seu livro “O Socialismo”. Lascou-se evidentemente por desconhecer ou ignorar a realidade, que foi mais dura ainda com o argentino contemporâneo.
CARTA A OSÓRIO ALVES DE CASTRO [5]
CLODOMIR MORAIS
San José [Costa Rica], 2/6/71
Como lhe dizia, Pernambuco foi severamente punido. A punição foi tirar-lhe uma tora de chão – a Comarca do São Francisco – para dar à Bahia conservadora. De Petrolina a Carinhanha; do Jalapão ao marimbu do Lagoão [perto de Brasília] são mais de cem mil quilômetros quadrados isolados da nova capital [Bahia] pela barreira natural da Chapada Diamantina de Herberto Sales. Punição cruel à custa de supressão da base geopolítica de uma Província já naquela época “perigosa”.
A Comarca do São Francisco, cuja influência cultural se estendia ao Paracatu de Minas, São José do Ouro [D’Ouro] e Posse do Goiás e a todo o extremo sul do Piauí [S. Raimundo Nonato, Paranaguá, Correntes e Gilboés], dado o isolamento político-administrativo, ficou ilhada quase um século.
Tal como as manjubas, a cultura seiscentista nordestina continuou subindo o São Francisco – único conduto existente.
A extensão dos trilhos da Leste Brasileira até Juazeiro se impunha como medida de integração da Comarca ao Recôncavo. Isso se logrou apenas no terreno financeiro-administrativo dado que a ferrovia não alcançava o meio [cidade da Barra ou Bom Jesus da Lapa] do sifão e sim sua extremidade [Juazeiro] – sifão em que se opera o transvasamento cultural do Nordeste em contínuo fluxo norte-sul.
A aculturação das gentes da Velha Comarca do São Francisco se tornou longa, pois Salvador [Bahia] estava muito distante e mal podia administrar a Caatinga, as Lavras, o Recôncavo e o Sul.
CARTA A OSÓRIO ALVES DE CASTRO [5]
CLODOMIR MORAIS
San José [Costa Rica], 2/6/71
Os poucos caixeiros-viajantes, vigários em desobriga e exatores “vagabundos do Sertão” provenientes das “terras grandes” serviriam de canais culturais com resultados no longo prazo.
Não é por acaso que no seu livro você registra que os velhos marcos institucionais [políticos e religiosos] do Império sobre-existiram no Corrente, muitos anos depois de instaurada a República. Tamanho era o isolamento da Comarca.
Daí os são-franciscanos desconhecermos o caruru, vatapá, munguzá [conhecemos angu de caroço], acarajé, candomblé, capoeira [conhecemos canga-pé do velho Bilau] e outros ingredientes da cultura africana do Recôncavo.
Conhecemos no São Francisco [isto sim! o zabumba, os “pifes” [pífaros de taboca], o sapateado dos Reis [coco primitivo], a jacuba [farofa sem dendê], as preces e litanias de chamar chuva [em regiões quase tão chuvosas como o litoral] etc. da cultura nordestina. O nosso cuscuz é o do Nordeste: só tem fubá, sal ou rapadura. No de Salvador entram camarão e dendê.
O dialeto e os falares da cultura seiscentista da Comarca do São Francisco começaram a se desintegrar a partir da construção de Belo Horizonte [no século passado] e da extensão dos trilhos da Central a Pirapora, no início do século atual.
Dessa maneira se incrementou o contato da Comarca com as culturas litorâneas. Nos anos 30 se abre outro canal: a construção de Goiânia.
CARTA A OSÓRIO ALVES DE CASTRO [6]
CLODOMIR MORAIS
San José [Costa Rica], 2/6/71
Com esse ocorreu um fenômeno sui generis porém normal no âmbito das aculturações. Com efeito, se de um lado o vaivém migratório contribuiu para aquela desintegração, por outro lado drenou parte do dialeto são-franciscano e algo de sua cultura para o Centro-Sul de Goiás; e graças aos garimpos ele alcançou o Centro de Mato Grosso [Lageado, Tesouro, Poxoréu, Alto-Garças etc.] pra remansar no Charco com as culturas dos hispano-guaranis de Bolívia e Paraguai.
Um natural de Jacobina ou de Cordisburgo [Bahia e Minas] chegando à Rua Nova de Goiânia se sentiria um corpo estranho tal como um gaúcho de Bagé em Diamantina.
Teria que aprender o dialeto local que não é outro senão aquele “castiço” que fala ainda hoje minha mãe, Idalina Piau, e que falavam, em vida, os personagens de Osório Alves no PORTO CALENDÁRIO.
É o mesmo ou algo parecido ao que falavam os nordestinos do século passado ou de antes.
Aí estão, meu camarada, os principais parâmetros do fenômeno erroneamente apelidado de marcos culturais do Urucuia.
O justo seria considerar os “falares e a cultura da Antiga Comarca do São Francisco”, que em boa hora e em tempo útil você com fidelidade e Guimarães Rosa com exagero artesanal salvaram da granulação que operam os modernos meios de comunicação [rádio, periódicos etc.] e da sua fase final de desintegração inexorável e inevitavelmente imposta pela construção de Brasília.
CARTA A OSÓRIO ALVES DE CASTRO [final]
CLODOMIR MORAIS
San José [Costa Rica], 2/6/71
O enorme valor do seu livro reside exatamente no fato de haver fotografado em corpo inteiro os falares e a cultura de um grupo ou de grupos sociais padrões de uma vasta área com muito mais de “cem años de soledad” – falares e cultura fadados a desaparecer nos próximos dez lustros.
Ele será básico para as futuras interpretações sociológicas e antropológicas do desenvolvimento histórico do São Francisco, dos “gerais” e dos garimpos centrais.
Vamos pra diante que o tempo nos dirá.
Seja como for, você tirou ou diminuiu a responsabilidade de algum são-franciscano [que se sentisse convocado para assumi-la], qual seja, a de elaborar o retrato da cultura autêntica da Comarca.
Vários que tiveram capacidade para realizá-lo não o fizeram dado as mais diversas circunstâncias.
Com efeito, Wilson Lins [Pilão Arcado] derreou para a literatura e o jornalismo políticos; Clovis Moura ficou no Juazeiro e remou mais à margem direita do São Francisco; o trio de Barreiras, Balbino, Vieira de Melo e Geraldo Rocha, não viu na área mais que eleitores e gado; Mário Alves [Sento Sé] de triste e heroico fim, achou o Rio de Janeiro maior que a Comarca; o Padre Heitor [Remanso] ficou em relatórios de sacristia; Otoniel Brandão [Santa Maria da Vitória] se comprometeu demais com a advocacia e Adão Fé Souza [idem] com a política provinciana; Dilson Ribeiro [Itajaí ou Formosa] só pensa em Brasília. Finalmente só falta Fidelsino Medrado que ainda vive em Remanso mas que ninguém sabe se escreveu algo do muito que viu na área da Antiga Comarca do São Francisco.
Como se vê, caro amigo, você salvou a barca.
Hoje e no futuro quem quiser comer da rapadura que alimenta o “barranco”, a “caatinga” e os “gerais” terá que buscar no PORTO CALENDÁRIO de Osório Alves de Castro.
Do seu maior admirador e amigo
Morais
(*) Joaquim Lisboa Neto, colunista do Jornal Brasil Popular, coordenador na Biblioteca Campesina, em Santa Maria da Vitória, Bahia; ativista político de esquerda, militante em prol da soberania nacional.
