CULTURA NO RS
Nossa ideia é tratar desta temática no Rio Grande do Sul. Vamos começar pela cidade de Taquara na Região Metropolitana de Porto Alegre.
Nada melhor do que falar com quem foi Diretor de Cultura da cidade, Paulo Wagner de Oliveira.
HISTÓRIA
Como dito, Taquara é um município da Região Metropolitana de Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul.
É um município de colonização predominantemente alemã localizada na Encosta Inferior do Nordeste.
Na verdade, foi predominantemente. Pois sendo um local de cruzamentos para a Serra (Gramado e São Francisco de Paula), pra o Litoral Norte, para várias cidades da Grande Porto Alegre ela acaba sendo uma cidade multifacetada, étnica e culturalmente.
Até a chegada dos primeiros europeus à região, no século XVI, o local era habitado pelos índios carijós.
O município já teve muitas indústrias calçadistas, mas na atualidade o setor está em crise, apesar de haver outros municípios com uma relativa produção.…
Vamos ver o que Paulo Wagner de Oliveira tem a nos dizer:
1) Quando você assumiu a Diretoria de Cultura local? Quanto tempo você ficou nesta função?
Assumi a Diretoria de Cultura de Taquara em 2013. Fiquei durante 8 anos nesta função, encerrando minha participação em 2020.
2) Quais as principais atividades que foram desenvolvidas?
Nesse período implantamos o Conselho de Cultura representativo de todos os segmentos culturais. Criamos o Projeto Cultura nos Bairros, descentralizando a Cultura, permitindo a participação da cultura popular em toda a sua diversidade. Esse projeto em 2015 foi escolhido pelo Jornal Integração como o melhor e mais criativo projeto cultural do Vale do Paranhana.
Organizamos a Biblioteca Pública Municipal com catalogação dentro dos parâmetros exigidos pelo
Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP), adquirimos mais de 5.000 livros deixando o acervo com cerca de 13.000 livros, além da informatização da biblioteca.
Criamos mais de 30 pontos de leitura na cidade: prédios públicos, hospitais, postos de saúde, rodoviária, praças. Ajudamos na reestruturação da Biblioteca Amigos do Livro do Bairro Empresa (bairro mais populoso, com 12.000 moradores). Realizamos a confecção do primeiro livro sobre a história de 135 anos de Taquara pelo incentivo fiscal da Lei Rouanet.
Criamos o maior festival cultural da história no Vale do Paranhana: Festival da Diversidade Cultural, realizado durante quatro dias no Parque do Trabalhador de Taquara. A média de público durante o evento era mais de, 30.000 pessoas. Participavam do evento mais de 500 artistas de várias cidades do RS.
Reformamos e estruturamos o Museu Municipal Adelmo Trott, sobre a colonização de Taquara, com mais de 2500 peças raras e históricas.
Colocamos o Carnaval e o Dia da Consciência Negra, como eventos oficiais do município.
Criamos oficinas culturais de música, literatura, artes plásticas e artesanato.
Desenvolvemos junto com os artistas da cultura de rua, rap, dança de rua, hip-hop, skate e grafite. Mensalmente reuníamos essa cultura de expressão da rua com apresentações culturais e oficinas no maior parque público da cidade, o Parque do Trabalhador.
3) Como foi a relação com aquela biblioteca comunitária que existe num bairro operário da cidade?
A biblioteca Amigos do Livro do Bairro Empresa, foi um grande parceiro do Departamento de Cultura. Ela é localizada no bairro mais populoso, com maiores problemas sociais da cidade. O local e o projeto foram fundados pelo pintor de paredes Roberto Carlos Sampaio Guedes, uma figura icônica da cultura popular da cidade, que transformou o sonho da literatura para dividir com as pessoas do bairro. Hoje a biblioteca tem mais de 8.500 exemplares. Neste local realizamos saraus, oficinas culturais, além de inscrever o projeto do livro sobre Taquara na razão social da entidade, destinado 30% da arrecadação total dos exemplares vendidos para a Biblioteca. Continua sendo um lugar, um espaço de resistência da cultura popular em nossa cidade.
4 – Como ficou a Biblioteca Municipal?
Quando assumimos a Cultura de Taquara, a biblioteca pública municipal era um lugar “bolorento”, sem vida. Transformamos o lugar adaptando as necessidades exigidas pela acessibilidade, compramos mais de 5.000 livros, deixando 13.000 livros no acervo, todos catalogados pelas normativas do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP).
Informatizados a biblioteca para consultas virtuais e reserva de livros, além de disponibilizar três computadores para consultas e tarefas de pesquisa no local. Criamos o hábito com parceria das escolas do município e do estado da rede pública e particulares para visitarem a biblioteca, todas as quartas-feiras, onde eram desenvolvidas ações lúdicas e educativas relacionadas à leitura e suas dimensões na vida das pessoas.
Tínhamos um projeto cultural de atendimento da melhor idade, com leitura, contos, histórias, que eram desenvolvidos em locais onde os idosos estavam reunidos: associações, sociedades de bailes e festas, asilos.
Através da biblioteca e com as campanhas de doações, mantivemos mais de 30 pontos de leitura na cidade, sempre renovando o acervo no sistema de troca-troca ou doação.
5) Como você recuperou o Terno de Reis na cidade? Uma cidade tida como “alemã” mantém uma tradição que me parece ser mais portuguesa e açoriana. Não é?
A cidade de Taquara não é tipicamente colonizada por alemães como suas cidades limítrofes do Vale do Paranhana. Taquara pertenceu ao município de Santo Antônio da Patrulha, que tinha uma cultura e história relacionadas aos açorianos. A economia da época era baseada na cana de açúcar, onde os engenhos desempenhavam o papel principal na região, inclusive com mão de obra escravizada. Taquara teve essa influência e de todas as cidades do Paranhana é que tem a maior população negra do Paranhana. Eu nasci no interior e me criei junto com meus pais, avós, vizinhos e amigos andando pelas estradas de chão batido, iluminados por lanternas de querosene, chegando de casa em casa e cantando o nascimento de Jesus como é a tradição açoriana. A gente chegava às casas, cantava, as famílias abriam a porta, ofereciam comida, bebida e se juntavam a comitiva que varava a madrugada. Para mim foi natural trazer o resgate dessa tradição secular, pois vivi nela e sabia onde ainda existiam os focos de resistência no interior do nosso município. Todo dia 06 de janeiro (Dia de Reis) era realizado o evento
6) E você tem se dedicado também à escrita, como anda o vosso grupo regional?
Sim. Já editei dois livros: As Crônicas do Sul do Mundo sendo o primeiro e Ao Acender dos Lampiões, o segundo. O terceiro livro sairá neste ano de 2025. São livros compostos de crônicas memorialistas, que acontecem através do tempo das minhas vivências, sempre relacionadas ao momento histórico, político e social de cada época. Dentro dessa vertente ligada à literatura, juntamente com outros escritores, fundamos o Coletivo de Escritores e Artistas do Paranhana (CEAP), uma entidade que tem mais de setenta escritores e artistas fazendo parte. Realizamos saraus culturais em todos os municípios da região, os quais tem tudo um grande sucesso junto à população, pois mesclamos a poesia com a música e a dança.
7) Tem muitas lendas, histórias, memórias locais, não tem? O que você destacaria?
Sim. Tem um cenário riquíssimo sobre lendas e memórias locais. Os meus dois primeiros livros abordam essa temática. Inclusive, uma das histórias está relacionada a um projeto cinematográfico que estamos em fase de construção. É a história da crônica: “A toca santa e seus mistérios”. O local é uma mistura de assombrações, chacina, loucura, religiosidade e sincretismo, lendas, que transformaram o local em objeto de peregrinação e curiosidade desde os primórdios. É uma história que traz todos os ingredientes comportamentais da formação da sociedade gaúcha, costumes, hábitos de uma época construída a ferro e fogo no Rio Grande do Sul. Esta crônica está presente no meu primeiro livro As Crônicas do Sul do Mundo. Tenho outras crônicas que falo da minha vivência com as serenatas que participei, com músicos da velha guarda que deixaram muita saudade, pois já partiram. Conto em pormenores como era feita a serenata na frente da casa ou na janela da moça homenageada. Era um momento tenso, pois às vezes o pai da moça não aceitava de bom grado, boêmios cantando na frente da casa para sua filha. Conto uma história bem interessante de uma menina de família conservadora da cidade, onde fizemos uma serenata para pedir a menina em namoro. Esta crônica faz parte do segundo livro, Ao Acender dos Lampiões. Tem histórias que se inserem na cultura escravocrata gaúcha, de peões descamisados que lutaram nas revoluções dos caudilhos estancieiros, servindo como bucha de canhão. Falo sobre os momentos dos anos 70, 80, 90 inseridos em momentos de enfrentamento à ditadura, junto com a ebulição cultural dessas décadas, onde as bocas do tempo contam a viagem. Escrevo sobre a noite de Porto Alegre, sobre os dias maravilhosos nas histórias dos festivais que pipocavam pelo RS afora. Conto a minha aventura no Festival de Águas Claras, o Woodstock brasileiro.
Quem ler os dois livros se sentirá muitas vezes dentro das histórias, com uma boa nostalgia dos fatos ocorridos.
8) Vocês estão pensando em cinema e documentários, poderia nos falar sobre isso?
Minha crônica despertou em algumas pessoas à vontade, de transformar em filme.
Esse primeiro filme será sobre a crônica A Toca Santa e seus mistérios. Escolhemos essa história, por ter vários ingredientes para uma boa história, além dos locais de locação estar preservados, mesmo com assiduidade de pessoas no local. Reunimos uma boa história, e ao mesmo tempo um belo cenário da nossa região que merece ser mostrado.
9) O que mais poderia falar sobre a cultura local?
A Cultura institucional especialmente em Taquara está nas mãos de gente conservadora e reacionária neste momento. Mas isso, por outro lado, tem contribuído para o surgimento de entidades culturais independentes, que usam a história da diversidade cultural que implantamos aqui durante nossa participação na cultura, para abrir espaço para todos os agentes culturais nos mais diferentes estilos. A resistência também passa pela apropriação, discussão e vigilância com os recursos das Leis Aldir Blanc e Paulo Gustavo do governo Lula, que impulsionam a diversidade cultural.

(*) Por Adeli Sell, professor, escritor e bacharel em Direito.
*As opiniões dos autores de artigos não refletem, necessariamente, o pensamento do Jornal Brasil Popular, sendo de total responsabilidade do próprio autor as informações, os juízos de valor e os conceitos descritos no texto.
