Mercado de trabalho reflete política fiscal, tarifas e combate aos imigrantes desencadeados por Donald Trump
Os dados sobre emprego nos Estados Unidos divulgados esta semana – o Jolts (pesquisa de oferta de emprego e demissões), o Payroll e o índice de desemprego – mostraram uma retração no mercado de trabalho e elevaram as especulações sobre redução dos juros nos EUA.
Roberto Simioni, economista Chefe da Blue3 Investimentos, explica que, analisando sob a ótica da teoria monetária moderna, “especialmente considerando o modelo de Taylor, o Federal Reserve [Fed, Banco Central dos EUA] acompanha de perto indicadores como o Jolts para ajustar sua política de juros. Um mercado de trabalho menos aquecido pode abrir espaço para flexibilizações na política monetária, com o objetivo de estimular a atividade econômica”. A persistência da inflação acima da meta de 2%, porém, pode frustrar a queda, esperada pelo mercado financeiro.
Para o economista, o resultado abaixo das expectativas pode ser interpretado “à luz da teoria keynesiana como um reflexo da diminuição da confiança dos empregadores na continuidade do crescimento econômico, a partir da incerteza com que as questões tarifárias ocorreram”, bem como um indicativo de expectativa de retração na demanda.
O relatório Payroll divulgado nesta semana indicou uma desaceleração significativa na geração de novas vagas nos Estados Unidos. A taxa de desemprego subiu marginalmente de 4,2% para 4,3%. “Analisando os dados com isenção e sem viés de expectativa, é importante considerar que esse enfraquecimento do mercado de trabalho reflita uma combinação de fatores estruturais e conjunturais”, afirma Simioni.
“A política fiscal do governo Trump, marcada por cortes agressivos no setor público, contribuiu diretamente para a deterioração dos indicadores. Somente em agosto, o setor público perdeu 16 mil empregos (dos quais 15 mil são associados a ações de Elon Musk, que esteve à frente do programa do governo federal Doge. No acumulado do ano, já são 97 mil postos eliminados por meio de demissões, congelamentos de contratação e programas de desligamento voluntário.”
A política de combate à migração também influencia o mercado de trabalho, seja na oferta seja no custo da mão de obra. “Desde janeiro, a força de trabalho total nos EUA encolheu em 400 mil pessoas, e a taxa de participação caiu para 62,2% em julho, o menor nível desde novembro de 2022. Essa contração da oferta de trabalho pode gerar pressões salariais em setores específicos, mas, no agregado, contribui para a fragilidade do mercado”, analisa o economista da Blue3.
Em relação ao impacto das tarifas comerciais impostas por Donald Trump, elas têm pressionado as margens de lucro principalmente do setor industrial, mas ainda não levaram os empresários a intensificarem as demissões.
“A manufatura perdeu, em média, 12 mil empregos por mês nos últimos 3 meses, e a incerteza gerada pelas disputas comerciais tem levado empresas a adiar investimentos e contratações. O relatório de agosto não apenas confirma a desaceleração da economia americana, como também evidencia os efeitos das políticas públicas sobre o mercado de trabalho”, explica Simioni.

Dólar em queda, e Bolsa de Valores no Brasil bate recorde
Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, destacou que o dólar operou em queda consistente nesta sexta-feira, em resposta ao Payroll muito fraco. “Esse cenário derrubou as taxas dos Treasuries, ampliou o diferencial de juros com emergentes e estimulou a busca por moedas e ativos de maior rendimento, pressionando o índice DXY, que mostra enfraquecimento global do dólar sendo cotado abaixo dos 98 pontos.”
No Brasil, o dólar caiu 0,63%, cotado a R$ 5,413, após operar boa parte do dia abaixo de R$ 5,40. O Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores B3, bateu recorde nominal ao encerrar o dia em 142.640 pontos, alta de 1,17% em relação ao pregão anterior. O recorde anterior, de 141.422 pontos, foi registrado na sexta-feira da semana passada.
