Adeli Sell – (Foto: fotografierende/Unsplash)
LEMOS MENOS?
Se formos acreditar na pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil“, de 2024, do Instituto Pró-Livro, a situação é “alarmante”, como eles dizem, pois “ pela primeira vez, o número de não leitores no país ultrapassou o de leitores”. Aí eles vêm com tudo aquilo que qualquer um de nós sabe.
Sabemos em que país nascemos e vivemos. Sabemos as mazelas do povo, da renda, da exploração, da precariedade do ensino, do não investimento em Bibliotecas.
INSTITUTOS SEM LEITURAS?
Existem 38 Institutos Federais, cada qual com mais ou menos 20 campi na sua região de abrangência. São, ao todo, 705 campi em funcionamento — um campus para cada oito cidades brasileiras.
E aí cabe a pergunta, e perguntar não ofende: estes jovens que estudam fazem o quê? Podem até não ler TANTOS livros, estes em papel, editados e catalogados, mas leem, sem dúvida. Se não tivessem livros em suas bibliotecas nem registro teriam.
Apenas isso e nada mais. Pensem.
QUEM FEZ A PESQUISA E COMO
Realização: Instituto Pró-Livro (IPL)
Apoio: Abrelivros, CBL e SNEL.
Metodologia CERLALC
População de 5 anos ou mais.
Aplicação: IBOPE Inteligência (2007-2019), Ipec (2024)
Metodologia: padrão internacional de medição do CERLALC
UNESCO. Público-alvo: população com 5 anos e mais, sem
requisito de escolaridade mínima.
Caro leitor,
Você é um/a leitor/a, diga-me o que acha disto?
Você acha – sinceramente – que neste país continental, desigual haja uma forma adequada e fiel para um apanhado minimamente confiável? Com a segurança dos dados expostos?
Veja como foi feita a amostra:
1 – AMOSTRA
5.504 entrevistas, em 208 municípios. A amostra permite a leitura para 21 UFs e Distrito Federal. A exceção são os estados de RO, AC, RR, AP e TO, cujos resultados serão lidos de forma conjunta.
O Brasil tem mais de 5 mil municípios. Temos 50 municípios com mais de 500 mil habitantes. Porto Alegre tem quase o triplo. Pensem comigo: 5.504 entrevistas, certo? 320 municípios têm mais de 100 mil. Cerca de 2/3 dos municípios tem menos de 20 mil…
O que você pensa disto? E foi feito por um Instituto ligado ao MEC com recursos da Lei Rouanet, quando não tem grana para editar livros. Há algo errado, não acham?
2 – E O MÉTODO DE COLETA
Entrevistas domiciliares face a face por meio de tablets com um questionário de 147 questões.
147 questões? Para quê? Que perguntas? Quem na sociedade da pressa vai fazer isso com calma, responder com certeza, precisão e sinceridade?
Não tenho o objetivo de colocar uma pá de cal neste levantamento, apenas quero ter o direito e espaço para debater um tema desta importância.
O QUE ELIMINAR E NO QUE AVANÇAR
Creio que poderíamos eliminar a leitura ligeira que se faz na Internet, em especial nas redes sociais. Não faria mal a ninguém, ajudaria até em nossa saúde mental.
Por isso e muito mais, vamos debater o que é LEITURA?
MAS, ANTES, QUEM EDITA?
O mercado editorial brasileiro tem alardeado que tem enfrentado quedas nas vendas de livros, com redução tanto no número de exemplares comercializados quanto no faturamento, mesmo considerando a inflação etc e tal.
Mas os que falam são os únicos que editam livros no Brasil?
A indústria editorial neste país está representada toda ela na SNEL e CBL?
E as milhares de pequenas tiragens, com edições de pequenas editoras, rodagem de livros de autor em gráficas que não estão nas entidades que se dizem representativas nem estão nos números de pesquisas.
Não é assim?
HÁ LEITURAS E LEITURAS
Quem se dá o tempo de se concentrar na leitura hoje em dia? Poucos é verdade. Mas quantos?
É a ilusão da leitura e da escrita rápida. A leitura no visor de um celular não é a mesma coisa que ler um livro em papel, todos sabemos disto.
Ouso dizer que leitor maduro não cai no papo de leitura rápida. Ler e pensar deve seguir o mesmo caminho.
Livros curtos podem ser densos. Por isso, úteis. Não sobrou nada a cortar deve ter tido segurança o seu autor.
Vocês não têm notado que jovens andam lendo os calhamaços de uma literatura que alguns chamam de “gótica”. Fantástica, né? Lembram-se do tamanho, número de páginas do Harry Potter? Foram sete, não? Era o ano de 1997, quando começava a geração Z. “Game of Thrones” foi de 1996, devem ser cinco livros até hoje.
Ah, são exceções vão dizer. Pode até ser, apesar de que não ache isto.
DITO ISSO TUDO: ESCREVER! EDITAR! VENDER!
Se aescrita surgiu há mais de 5 mil anos, na Mesopotâmia, por volta de 3500 a.C. quer dizer que muito se escreveu. E há quem escreveu bem e quem escreveu mal. Até hoje se lê Platão e Aristóteles. E a Bíblia, hein?
No Brasil, cerca de 4,8 milhões de Bíblias foram distribuídas em 2022.
Na sociedade da pressa, neste mundo moderno líquido, não estaria na hora de introduzir o conceito de TEMPO nas salas de aula, de uma forma de ensino-aprendizagem transversal?
O TEMPO daria uma melhor ideia para nossa juventude da História, das pessoas, das tecnologias. A criação do alfabeto que foi um elemento técnico de grande magnitude, como foi a prensa de Gutenberg. Quem estuda isto?
Uma máquina de escrever deveria estar em casa escola. Em especial como um elemento da biblioteca.
A complementação poderia ser um banner com máquina, aparelho telegráfico, uma rotativa que usasse os tipos, um fax.
E aí a leitura não teria outro gosto?
QUEM PODE ESCREVER E ESCREVE
Não há mais mecenas. As leis de incentivo são uma espécie de “mecenato”, mas quem as alcança?
Poucos. Nem as verbas são tantas.
A Prefeitura de Porto Alegre editou quatro livros agora com uma verba de emenda parlamentar local. Mas terá para novas edições? Este dado mostra esta pobreza que a pesquisa quer mostrar.
No grupo de WhatsApp de Feiras e Livros que sou um dos coordenadores, com a Feira do Livro do Chalé da Praça XV, foi feito num só dia um grande e profícuo debate sobre o tema da escrita, edição, distribuição e venda. E tende a continuar, tanto assim que vou marcar uma Roda de Conversa sobre este tema.
Logo, quem escreve é, em geral, quem tem outra profissão, escreve quando sobra tempo. Logo poucos têm dedicação exclusiva para a arte de escrever.
O pessoal tem razão em se queixar sobre a venda e encontrar o/a leitor/a.
Muitos vão para as ofertas da Amazon e Estante Virtual, esta tanto desvirtuada depois que caiu no Magazine Luíza. Ou não? E a Amazon queimando tudo com ofertas. O livro é um chamarisco para outras vendas. Não se enganem.
Dizem que temos cerca de 3.000 livrarias no Brasil e não há dados sobre sebos.
Para ter um livro numa livraria em meio físico o autor precisaria de uma DISTRIBUIDORA, e aqui vem o problema. Quantas existem? Dizem que existem de 20 a 30 no país (olha o quanto isto é vago) de médio ou grande porte.
Quais as distribuidoras que você conhece no Rio Grande do Sul?
Poucas. E isto que tivemos duas grandes, Globo e Sulina.
O autor quando consegue deixa o livro consignado, ficando em geral 50 por cento na distribuidora ou uns 30 na livraria. Mas há os que ficam com metade do preço de capa.
Logo, não basta escrever, é preciso editar, de forma pessoal, mesmo que por uma Editora, achar locais de venda. Pois há poucos que conseguem editar bancados pela editora.
Por isso, as feiras seriam um bom espaço de vendas. Mas elas por si só não trazem leitores/as, talvez a exceção seja a grande feira da capital.
Lançamentos, com autógrafos, têm sido um meio dos/as autores/as se apresentarem. Ou pelas redes sociais, mas nem todos são afeitos a este mecanismo. Nem tempo tem.
Pelo que vejo não são as editoras nem as distribuidoras a fazer este papel.
Não existem mais periódicos, jornais, revistas com resenhas de livros e indicações. Poucos. Muito poucos.
LER
Se há leitores/as é porque alguém está fazendo algo para que se leia.
Deveria começar com os pais. Pois está provado que ler mesmo sem a criança entender, ajuda no seu desenvolvimento mental.
Quem compra livros para filhos, netos, sobrinhos?
“Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever – inclusive a sua própria história.” – Bill Gates.
Mas ele é ele. Sim, ele não é cretino. Sabe que as crianças e jovens muito cedo nas telas é um veneno. Sim, um veneno. Mais do que provado.
E para que se pense mais aprofundadamente sobre a leitura, creio que foi Borges quem disse que “é uma forma de felicidade é a leitura”.
Afinal, a gente não busca sempre a felicidade? Logo, leitura é prazer. E disto decorre que é um aprendizado. Para isso há que ter um embate na sociedade. “Maratonar” streaming? Já ouviram, né? E quem maratona a obra de Érico?
A leitura nos forma de tal jeito que podemos estar nalgum rincão do país e nos tornaremos “cidadão do mundo” pelas leituras. Não fossem as leituras mão teria saído dos confins de onde me criei.
BIBLIOTECAS
Os dados oficiais são malucos, cada ano tem um dado mais discrepante que outro. Por isso, não importa aqui falar de quantidade. É preciso falar de qualidade. Se não fosse o médico, Dr. Lena, na minha Cunha Porã, disponibilizar seus livros, fazer uma biblioteca, será que eu teria vindo a mais de 500 km de carona de Santa Catarina para Porto Alegre e estudar Letras?
Vou tomar alguns exemplos para que nossos/as leitores/as – com o intuito de retornos – de exemplos do que e como fazer fluir os livros e termos boas bibliotecas.
Na Biblioteca Josué Guimarães, pública municipal, tem uma boa retirada de acervos, até porque tem diversidade. Tem a Feira mensal de trocas.
Na comunidade da Coinma, também na capital, tem biblioteca com formação, grupos de apoio da comunidade, sendo um exemplo para esta e outras comunidades. Tem o “comando” da Morgana.
Na cidade de Guaíba temos a Biblioteca pública municipal Darcy Azambuja com um acervo de mais de 25 mil exemplares. . E tem “comando” da professora Irlanda.
Na capital temos uma dezena de biblioteca comunitárias, sendo a do Instituto IPDAE a mais potente em volume e ações, sob a batuta da Fátima.
Temos a ONG Cirandar que há anos se dedica ao tema.
LEITORES/AS
Como se faz um/a leitor/a. Creio que não há fórmulas mágicas. A mãe pode ler para a criança ainda em sua barriga na gestação, lendo um livro? Pode. E pais lendo para a criança, mostrando as gravuras? Grande ideia.
Atrasar o fornecimento do tablete, do fone? Certamente.
Abrindo as bibliotecas nas escolas meio na marra, até porque muitas estão fechadas.
Digno de nota é o Instituto Ágora, sob comando da incansável Sônia Zanchetta de Cachoeirinha, que faz leitores/as.
Apesar da crise da Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, o povo de lá não desiste de ser a Capital Nacional do Livro.
Projetos como Autor Presente do Estado, criado em 1972, em plena ditadura. E o porto-alegrense Adote um Escritor está de pé pela nossa luta, e foi brava.
Morro Reuter não tem apenas café colonial, lavanda e bandinha tem uma pujante feira do livro há mais de duas décadas e muitas ações, seno uma referência nacional.
Não morro de amores por Academias Literárias, mas muitas deles cumprem inegável papel na difusão dos livros e de bons autores.
Sarau e eventos ajudam em muito, vejam o sucesso da Florada Artística em Porto Alegre. Vive, é vida, forte desde 2014.
E vocês, caros/as leitores/as que acham? Retornos, por favor, para: 51.999335309 – moc.liamgobfsctd-5ae616@10631ileda
ADELI SELL é professor, escritor e bacharel em Direito.
