As investigações da Polícia Federal estão confirmando aquilo que, no mínimo, se desconfiava: que o governo Bolsonaro, criminosamente, usou a Abin, órgão investigador e captador de informações do Poder Executivo e, diretamente, subordinado ao Presidente da República por intermédio de seu Gabinete de Segurança Institucional, para investigar (e montar intrigas contra eles) pessoas como os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes e Alexandre de Morais, este também presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). As intrigas incluíam, naturalmente, a alegação de ligações de ambos com o PCC, o Primeiro Comando da Capital, do tráfico de drogas no atacado.
Ao todo, a Abin espionou 1.500 telefones em todo o Brasil, sempre de desafetos de Bolsonaro, e pelas beiradas operava também uma rede de proteção aos filhos de Bolsonaro e de acobertamento de atividades empresariais de Jair Renan, o 04.
Em outra frente de operações, a Abin de Bolsonaro chegou a estender bem longe seus tentáculos, espionando com drones a casa do ex-governador do Ceará, Camilo Santana, em Fortaleza. Essa missão aparentemente sem sentido – pois bastaria espionar Santana em terra firme – tinha como objetivo fotografar o casal Lula e Janja, que passava um fim de semana hospedado com o então governador. O alto custo da operação foi pago com dinheiro público.
A busca de informações sobre quem mandou praticar essas ilegalidades, algumas criminosas, já chegou a Alexandre Ramagem, diretor da Abin no governo Bolsonaro, e ele terá de se explicar em depoimento já como investigado. De Ramagem, a intimação para depoimento sobe diretamente para o general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional de Bolsonaro ao longo de todo o seu governo. Como em outros inquéritos, como o da tentativa de golpe de 8 de janeiro, por exemplo, este chega cada vez mais perto de Bolsonaro. Se for chamado a depor ainda como testemunha, o general Augusto Heleno terá de assinar o compromisso de dizer a verdade e será obrigado a responder sobre as responsabilidades criminais de Bolsonaro nessa enxurrada de ilegalidades e crimes.
A investigação da Polícia Federal, aberta para revelar os responsáveis pela espionagem de desafetos de Bolsonaro, já está chegando, meio por acaso, a novas revelações sobre outros episódios – por exemplo – a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, o caso Marielle e, talvez, até o caso da facada que Bolsonaro sofreu em Juiz de Fora na campanha presidencial de 2018.
O que deve chamar a atenção de quem acompanhou de tão perto quanto possível as peripécias dos chamados órgãos de segurança do regime militar é a semelhança entre certas operações daquele tempo e as de agora. Os Sherlocks da Abin não aprenderam nada nem mudaram nada, a não ser o aproveitamento de novas tecnologias, como os drones, os celulares e suas câmeras, gravadores e a internet em geral.
O volume de pistas e digitais deixados por essas operações rivaliza com o do SNI e órgãos de segurança da ditadura. E, no caso da Abin, tudo começou como uma inspeção inocente da CGU, a Controladoria Geral da União, que existe para apontar e corrigir erros de gestão e promover não punições, mas ajustes de conduta e melhor desempenho dos órgãos públicos federais. Nessa inspeção de rotina, os observadores da CGU encontraram, por acaso, entre documentos da Abin, um sem o timbre da agência. Parecia coisa insignificante, mas depois surgiram indícios de alguma coisa mais grave e até criminosa. O caso foi parar na Polícia Federal e, agora, estourou como um dos maiores escândalos do governo Bolsonaro.
Ao contrário da Lava-Jato, que foi montada com o objetivo direto de acabar com Lula, a operação Abin começou com a descoberta de fatos reais e é com base neles que pode e vai haver responsabilização de pessoas.
