Osório Alves de Castro nasceu a 17 de abril de 1901, em Santa Maria da Vitória/BA. Filho de Pedro de Almeida Castro e Catarina Alves. Fez a escola primária e complementar em sua cidade natal e frequentou, sem concluir, o curso médio na baiana cidade da Barra.
Já com ideias de esquerda e, consequentemente, perseguido pelos coronéis locais, em 1923 emigrou para São Paulo, participando da formação das cidades de Lins e Marília, sobrevivendo como alfaiate. Sua “Alfaiataria Rex” era considerada o Senado de Marília, nela aconteciam encontros cotidianos dos intelectuais e ativistas de esquerda que ali ocorriam.
Os amigos diziam que “de dia, Osório costurava roupas; de noite, costurava personagens”. Uma obra-prima da literatura brasileira estava em gestação, como o leitor perceberá mais adiante.

De Marília, em 1964, Osório se mudou para a capital paulista. Dedicou-se ao autodidatismo e escreveu nos jornais O Progresso e Tribuna Democrática, de Lins, e no Diário Paulista, de Marília, críticas e ensaios literários.
Participou ativamente da fundação do Partido Comunista Brasileiro [PCB] em várias cidades do interior paulista e cultivou sólidas relações de amizade, além das afinidades ideológicas e filosóficas com o legendário Luiz Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança.
A revista Diálogo (nº 8, de 1957) publicou sua correspondência sobre certos aspectos dos personagens de Guimarães Rosa no romance “Grande Sertão: Veredas”. A propósito, o grande escritor mineiro comentou sobre Osório: “Pudesse, eu ia lá, em Marília, conversar com ele, três noites e três dias, seguidos, sem pausa nem pio, sem fio nem pavio”.
Em 1961, Osório publica o primeiro livro “Porto Calendário” [Livraria Francisco Alves], retratando, máxime, sua Santa Maria de fins do século XIX e inícios do século XX. As adjacentes cidades de Santana dos Brejos, Correntina e Bom Jesus da Lapa recebem também algumas pinceladas.
A obra recebeu em 1962 o Prêmio Jabuti na categoria romance, concedido pela Câmara Brasileira do Livro. Foi, também, contemplada com Menção Honrosa da Prefeitura de São Paulo. O autor foi premiado, ademais, com uma viagem aos países socialistas do Leste europeu. [V. carta de Guimarães Rosa a propósito do périplo de Osório]
Nas páginas de “Porto Calendário” o leitor se deleita com uma linguagem que é a mais perfeita tradução da cultura são-franciscana à época.
Desfilam coronéis, donos da vida e da morte do povo humilde, remeiros, barqueiros, artesãos -nosso também genial carranqueiro Francisco Guarany é personagem do primeiro romance da lavra osoriana- intelectuais, Orindo Brotas, Zidorim Afonso.
Perfila igualmente gente pobre enlouquecida pela miséria e pelo abandono, Cipriano Acendedor-de-Lampião, Pedro Voluntário-da-Pátria, dentre outros, trabalhadoras e trabalhadores massacrados pela opressão coronelesca.
“Porto Calendário” é, sem a mais mínima dúvida, um profundo e retumbante brado contra os exploradores e de defesa dos humilhados e ofendidos deste paradisíaco Vale do Corrente.
Em fevereiro de 1979 ocorre o lançamento de sua primeira obra póstuma: “Maria fecha a porta prau boi não te pegar”. E em 1990 a Empresa Gráfica da Bahia [EGBA] edita Bahiano Tietê, terceiro romance do nosso conterrâneo.

Pai de seis filhos – João, Terto, Larissa, Carmen, Osório e Pedrinho – avô de muitos netos, ele foi também um ardoroso defensor das mulheres oprimidas.
Comunista, Osório foi duramente perseguido pela ditadura civil-militar. Foi preso e torturado logo no dia 1º de abril de 1964 e em outras ocasiões. Sua residência era invadida frequentemente pelos agentes dos órgãos da repressão. Mesmo assim, nunca se rendeu nem se vendeu.
Seu último sonho era escrever sobre a velhice: “Quero falar dos velhos, principalmente das mulheres, abandonadas pelos seus filhos que passaram a vida criando; são transformadas em babás, em cozinheiras e empregadas domésticas e acabam morrendo sozinhas.”
“Porto Calendário” é o livro que todo santa-mariense deve ler. No entanto, raríssimos são os professores que recomendam essa importantíssima obra, comparada, inclusive, a “Cem anos de solidão”, do colombiano Gabriel García Márquez, Prêmio Nobel de Literatura em 1982.
Em Santa Maria, não temos uma escola sequer com o nome desse grande conterrâneo que conduziu nossa cultura para o cenário literário nacional.
Graças ao trabalho desenvolvido persistentemente, primeiro pelo jornal “O Posseiro”, a partir de sua primeira edição em janeiro de 1979, depois pela Casa da Cultura Antonio Lisboa de Morais/Biblioteca Campesina, vida e obra do nosso premiado escritor têm sido divulgadas persistentemente por todo o Território da Bacia do Rio Corrente e por outras distantes plagas graças às famosas redes sociais.
Nessas referidas instituições culturais a memória do nosso grande romancista está sendo preservada e disseminada cotidianamente.
Um dia, quem sabe, a maioria dos santa-marienses terá o prazer de se deleitar com as obras-primas osorianas.
No dia 9 de dezembro de 1978, em São Paulo, ele partiu fisicamente, deixando legado cultural de inestimável valor. O corpo foi cremado no Crematório de São Paulo, capital no dia seguinte. Suas cinzas foram lançadas ao rio Corrente em setembro de 1982, pelas mãos do seu filho Terto Alves de Castro.
Biblioteca Campesina, 17 abril 2024
123º aniversário de nascimento de Osório Alves de Castro
(*) Joaquim Lisboa Neto, colunista do Jornal Brasil Popular, coordenador na Biblioteca Campesina, em Santa Maria da Vitória, Bahia; ativista político de esquerda, militante em prol da soberania nacional.
