Eu estava na época na minha primeira infância, anos 50s, morava com meus pais Joãozinho e Dizinha na Rua da Lagoa entre as casas de Zé de Tião e Quininha e Quincas Barros; a casa deste certa feita foi atacada pelo Romãozinho [famoso personagem folclórico da Bacia do Rio Corrente e de oiutras regiões brasileiras], tema de crônica escrita por Manuel Cruz, colaborador assíduo do nosso jornal O Posseiro.
Aquela rua virou oficialmente metade Marechal Deodoro metade Othon Vieira, mas a cultura popular levou a que ela ficasse definitivamente rotulada como Rua dos Doidos.
Quase em frente, na diagonal, vivia Zé de Flávio e seus filhos Eduardo, Flávio, Zé Palito, João Panquinha e Messias, bom de bola, canhoto, que morreu doido em Porto Novo.
Numa noite de São João, na frente da casa de Zé de Flávio fincaram uma árvore dessas que o pintor, cronista e romancista santa-mariense Jurandi Assis tão bem descreve numa de suas crônicas.
Na calçada, eu, meus pais e vizinhos esperando a madeira deitar, a árvore cair. Em torno dela, os pretendentes prontos pra caírem matando em cima.
Quando finalmente aquele monte de laranja, banana, rapadura, cachaça e outras guloseimas mais veio arriando, foi um pega-pra-capar de arrombar.
Arrancou a batalha!
De repente, despertei a atenção para um dos agachados, na chamada posição em que “Napoleão perdeu a guerra”, ou, no linguagem do populacho, catando cavaco.
Num repente apareceram na minha mão um foguete e uma caixa de fósforos.
Ato contínuo, acendi o foguete e mirei no traseiro do cidadão.
O petardo foi pousar bem no centro do bequisáide do coitado.
Bem feito!!!
Quando sentiu aquela quentura na bunda, o cara se voltou pra trás e me viu com o foguete ainda soltando fumaça.
Espumando, partiu pra me esganar. Vinha com gosto de gás.
É hoje que eu morro, pensei.
Felizmente uns dez ou quinze caras seguraram o fera e levaram ele pra casa.
A vítima do sadismo de minha infância se chamava Sabino.
Era escravo branco do Sertanejo Hotel, mudo e tinha uma orelha cortada.
As pessoas comentavam que ele tinha participado ativamente do bando de Lampião.
Homi quá, onde é que fui meter meu foguete?
Nas cangaceiras nádegas de um cabra do capitão Virgulino.
Vôte!, que diabo é dez?
Biblioteca Campesina, 1º junho 2025
(*) Joaquim Lisboa Neto, colunista do Jornal Brasil Popular, coordenador na Biblioteca Campesina, em Santa Maria da Vitória, Bahia; ativista político de esquerda, militante em prol da soberania nacional.
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