Integridade foi a marca de Saturnino Braga, político que ajudou a derrubar a ditadura e derrotou nas urnas Roberto Campos
O grande escritor e humorista Millôr Fernandes disse, referindo-se ao homem público Roberto Saturnino Braga, que foi “um homem que desmoralizou a honestidade”. “Frase ferina, que marcou e estigmatizou um homem público de trajetória impecável, ainda mais proveniente de um intelectual ímpar como Millor. Frase ferina, mas sobretudo incorreta e desprovida de veracidade”, afirma Maurício Dias David, que conviveu com Saturnino, a quem sempre chamou de “Roberto”, colegas que foram no velho BNDE – hoje BNDES – onde o ex-senador, falecido nesta quinta-feira, fez grande parte de sua carreira de homem público e servidor do Estado. “Saturnino era de uma simplicidade que chegava a deixar meio que desarticulados os seus interlocutores políticos”, explica Dias David.
É preciso contextualizar: Millôr cunhou a frase não exatamente como crítica, foi mais um desabafo. Saturnino acabara de deixar a Prefeitura do Rio de Janeiro após decretar a falência do município. Em 1988, no último ano de seu mandato, com a Prefeitura endividada, foi surpreendido por decisão do Banco Central – que proibiu novos empréstimos. Saturnino também enfrentou oposição na Câmara de Vereadores, justamente por sua integridade, que o deixava longe do toma lá, e que o levou ao talvez mais baixo ponto de sua carreira política, que começou como deputado, antes da ditadura; tornou-se senador na histórica “surra” que o MDB (o original) deu nos candidatos dos militares em 1974, início do fim da ditadura.
Deu a volta por cima, após a decepção na Prefeitura do Rio, e voltou ao Senado em 1998, em expressiva vitória, derrotando ninguém menos que Roberto Campos, um dos czares da economia da ditadura militar, responsável por boa parte dos problemas econômicos que perseguem o Brasil até hoje – e não me refiro ao neto que ocupa atualmente o Banco Central. Mas isto é outra história…
Saturnino era também um excelente barítono, apreciador de ópera, estudou música em Moscou. Marcos Vianna, de quem era amigo, quando Vianna presidia o BNDE, conseguiu convencer Geisel a mantê-lo no Banco, “apesar de ser comunista”. Recentemente assinou a lista para refundação do PTB, empreitada capitaneada por Vivaldo Barbosa e outros brizolistas, reerguendo o partido de Getúlio Vargas.
“Sem procurar rebater o que disse Millor, não é verdade que o Saturnino tenha desmoralizado a honradez. Ele, na verdade, a levou para um plano superior. Estou certo de que o Millor, se vivo ainda estivesse, voltaria atrás em sua injusta avaliação do perfil do Saturnino. Um homem de verdade, isto sim… Um dos poucos que se pode ver – ou se pôde ver – na vida pública brasileira. Honra a ele, portanto, pelo exemplo de dignidade com que sempre exerceu na vida pública e que foi o maior legado que nos deixou”, finaliza Maurício Dias David.
