Um retrato do novo modelo colonial financeiro, climático e geopolítico que redefine os limites da soberania
Wellington Calasans, jornalista brasileiro radicado na Suécia, também tem se dedicado a traduzir o neoidioma colonizador. Em recente artigo “A máscara do “narcoterrorismo”: Quando o predador veste o manto da justiça” desvenda os usos da expressão narcoterrorismo para um grande colonizador do século 21: as finanças apátridas. A importância desta neolingua pode ser avaliada pela divisão que a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) fez dos criminosos que articularam o golpe no Brasil, para continuarem no Governo após a derrota eleitoral em outubro de 2022, que denominaram núcleos. Nos quatro constituídos, um foi específico para as desinformações.
Os modelos coloniais na Era Moderna começaram por Portugal e Espanha, se ampliaram com a inclusão da Inglaterra, França e Holanda. Eles se impuseram pela força das armas e são observados, dos séculos 15 ao 18, pela apropriação dos bens naturais e pela escravidão na África e nas Américas. Pode-se classificá-los como Modelo Colonial nº 1.
A Inglaterra, França e Holanda evoluem e, de certo modo, submetem as colônias portuguesas e espanholas, no que classificaremos de Modelo Colonial nº 2. A colonização, além dos objetivos econômicos, tem igualmente o político da extensão territorial do colonizador, levando com ele, idioma, cultura e organização institucional. Ampliam-se pelo orbe terrestre e se alongam até o século 19. O século 20 é o século das grandes transformações na sociedade humana. Muitas ainda hoje, encerrado o primeiro quartel do século 21, não sendo percebidas e universalizadas.
Cabe discorrer sobre algumas “revoluções” ocorridas no século passado.
A nova e importante fonte primária de energia deixa todas as demais utilizadas pelo homem, desde o fogo, como ineficazes e onerosas. Foi o petróleo, descoberto quase ao mesmo tempo no Azerbaijão (1846), pelos irmãos mais velhos de Alfred Nobel, criador do Prêmio Nobel, dos homens mais ricos da Europa, e nos Estados Unidos da América (EUA), em 1859, pelo minerador Edwin Drake, procurando extrair sal do subsolo. Em meio século o petróleo revolucionou a indústria e o poder econômico. Quem não ouviu falar das Sete Irmãs, as empresas petrolíferas que faziam e desfaziam governos pelo mundo? Controlar os reservatórios de petróleo, desigualmente distribuídos pelo mundo, era controlar o próprio mundo.
Mas não foi apenas o petróleo. A matematização da informação e a evolução das máquinas de calcular transformaram a Teoria da Comunicação, na grande revolução do século 20, não só pela digitalização, pela miniaturização dos elementos componentes das máquinas, como pela possibilidade da comunicação virtual, ou seja, sem materialidade. Pode-se afirmar sem erro que Claude Shannon, Norbert Wienner, Ludwig von Bertalanffy, John von Neumann, Benoît Mandelbrot, Abraham Moles, Louis Couffignal, François Bonsack, Helmar Frank e muitos outros, inclusive autores de ficção científica, criaram as bases do mundo dos Telegram, Instagram, do YouTube no qual vivemos todos neste século 21.
As lutas ideológicas do início do século 20, que dividiam o mundo em capitalistas e comunistas, perdem sentido neste século 21. E devemos lembrar o significado da Conferência de Bandung (18 a 24 de abril de 1955), reunindo 29 países para criar um Terceiro Mundo, que foi destruído por assassinatos e golpes de Estado pelos interessados em manter a bipolaridade.
Pode-se entender que houve o breve Modelo Colonial nº 3, de 1970 a 2000, avançando até a Crise de 2008/2010, quando as finanças anglo-estadunidenses buscaram submissões por todos países ao seu poder financeiro, carregando consigo, principalmente, os países da Europa Ocidental, da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
No Brasil, este Modelo Colonial nº 3 foi responsável pelo fim dos três governos militares seguidores dos ideais tenentistas da década de 1920 (Costa e Silva, Emílio Médici e Ernesto Geisel) no que se convencionou denominar “redemocratização”. O mais relevante resultado deste Modelo Colonial nº 3 foi a destruição do Estado Nacional pelo Estado do Mercado, ou seja, o Estado Público por um Estado Privado. Sendo privado, o Estado não busca o bem-estar da população, mas o enriquecimento de quem o conduz, uma plutocracia. Daí o aumento nos indicadores de concentração de renda, da distância entre a renda média da população e o percentual dos mais ricos, e, acima de tudo, a corrupção, o engodo, a comunicação desinformativa.
Jessé Souza e Rafael Valim, coordenadores de “Resgatar o Brasil” (2018), escrevem na apresentação da obra:
O falso discurso da corrupção, o cínico estado de exceção jurisdicional implantado no país, as consequências geopolíticas do golpe de Estado de 2016, a rapinagem do sistema financeiro, o esquema espúrio da dívida pública, o injusto sistema tributário nacional que beneficia os ricos e penaliza os pobres e a vergonhosa cartelização da mídia fazem parte da mesma engrenagem cujo resultado é o eterno atraso de nosso país e a exclusão social, econômica e política da maioria de sua população
Vivemos desde a primeira década dos anos 2000 num complexo modelo colonial, onde a multipolarização dificulta a caracterização dos colonizadores. O que mais se vê é a repetição da bipolaridade da Guerra Fria, que, de algum modo, muito influenciou a formação dos que ocupam posições de decisão e de gestão no mundo atual.
Desvendar a existência e as características de um Modelo Colonial nº 4 é o que nos move neste artigo.
Existe nação soberana no mundo multipolar?
Nancy Fraser, filósofa estadunidense, em trabalhos e debates sobre a Teoria Crítica, no final da década de 1990, apresentou a noção de paridade participativa (“Reconhecimento sem ética?”, 1996). Ela entende haver duas vertentes paritárias: da igualdade distributiva e do reconhecimento. As primeiras dos tratamentos igualitários para ricos e pobres, as segundas das “minorias”, sexuais, raciais, éticas…
Tratando não de cidadania, mas de soberania, qual paridade estar-se-ia buscando? O estatismo de inspiração hegeliana, ou seja, uma categoria ontológica – metafísica, existencial e intrínseca – como pré-condição de qualquer ordenamento constitucional; sendo este Estado simultaneamente povo, território e organização. E neste caso seriam partícipes os estatismos socializantes, a sociedade de um grupo divorciada da sociedade civil, estados teocráticos?
Xi Jin Ping, tendo assumido em 15 de novembro de 2012 o cargo de Secretário-Geral do Partido Comunista da China (PCCh), pronunciou em 17/11, dois dias após a investidura, o discurso onde define sua compreensão do poder no país: “o sistema do socialismo com características chinesas integra organicamente o sistema político fundamental e os sistemas políticos básicos com o sistema econômico básico e os regimes e mecanismos específicos em todos os aspectos. Ele também integra organicamente o sistema democrático a nível estatal com o sistema democrático a nível da base e integra ainda a direção do PCCh, a posição do povo como dono do país e a administração conforme a lei”.
Assumindo a 15 de março de 2013 a Presidência da China, discursa em 23 de março no Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscou, onde diz:
Paralelamente ao aprofundamento da multipolarização mundial e da globalização econômica, bem como à promoção da diversidade cultural e da aplicação da tecnologia da informação na vida social, a humanidade possui hoje melhores condições do que nunca para avançar rumo à meta da paz e do desenvolvimento, sendo a cooperação de benefício mútuo a via prática para alcançar tal objetivo. O destino do mundo deve ser dominado pelos povos de todos os países. Os assuntos no âmbito da própria soberania de um país devem ser administrados pelo governo e povo daquele país, enquanto os assuntos do mundo devem ser abordados pelos governos e povos de todos os países por meio de consultas conjuntas
E, dando materialidade e instrumentação à ideia, lança em setembro de 2013 a Iniciativa do Cinturão e Rota (ICR) (em inglês: Belt and Road Initiative – BRI).
Em meados de 2025, 148 países haviam firmado o Memorando de Entendimento com a China para serem participantes da ICR: 53 da África, 28 da Europa, 25 da Ásia, 21 da América Latina e Caribe, 12 do Pacífico e nove do Oriente Médio. A principal característica da ICR é não possuir uma governança nem um secretariado; suas iniciativas envolvem decisões das partes e não criam obrigações coletivas, ou seja, para os que não estejam diretamente envolvidos. A única exceção foi adotada, em 2019, no Fórum onde se criou a “Coalizão Internacional para o Desenvolvimento Verde” e se constituíram dez grupos de trabalho, como o das finanças verdes, do transporte verde, da urbanização verde e da inovação verde.
Estaríamos diante de uma nova restrição à soberania? A submissão ao “verde”? E a quem e de que modo se beneficiaria neste Modelo Colonial nº 4?
A COP30, o Brasil e o mundo
Entre 10 e 21 de novembro de 2025, na cidade brasileira de Belém, ocorreram diversos encontros denominados 30.ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30).
Em 9 de novembro, domingo que antecedeu à COP30, nas mídias impressas e digitais mais parecia que se trataria de um simpósio financeiro do que ambiental. O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (Tropical Forests Forever Facility – TFFF) apresentava a meta de receber até o próximo ano US$ 10 bilhões, para a capitalização total prevista de US$ 125 bilhões, sendo US$ 25 bilhões provenientes de investimentos públicos, ou seja de nações soberanas, e US$ 100 bilhões alavancados do setor privado. 53 países se apresentavam como potenciais investidores. Destacavam-se no noticiário a Noruega com aporte de US$ 3 bilhões e o otimismo do Ministro da Fazenda do Brasil, Fernando Haddad, falando à CNN que os dez bilhões seriam superados.
A cidade de Belém passou por verdadeira mudança, novas ruas, avenidas onde antes residia população em palafitas, tudo para encantar os visitantes que, já no segundo dia, invadiam os espaços da COP30 para reclamar da financeirização de um projeto que precisaria muito mais de instrução, de compreensão da importância da sustentabilidade do meio ambiente.
Lembrei-me dos anos 1966, quando o Brasil passara a ter generais na presidência, que, sob trabalhos acadêmicos da Pontifícia Universidade Católica, o governador do Estado do Amazonas acabou com os “Flutuantes de Manaus”, população mais pobre de uma cidade pobre num Estado pobre, fazendo-a migrar para as margens dos rios na imensidão fluvial daquela região.
Como devemos interpretar um evento como a COP30, com a presença do Presidente da República e diversos Ministros brasileiros, delegações estrangeiras, ainda que na maioria nem tão expressivas, mas com muitos interessados em arrancar mais um naco das riquezas do Brasil!?
Porém, ao mesmo tempo, a maior empresa de petróleo brasileira, detentora de inegável competência técnica, sob protestos de ONGs e apoio dos desenvolvimentistas nacionais, era, ao fim de muitos compromissos e perda de tempo e de recursos, autorizada a furar um poço pioneiro, na busca por petróleo, à distância aproximada de 175 quilômetros da costa do estado do Amapá (Bacia Foz do Amazonas, bloco FZA-M-59). E as privatizações levavam o Brasil a retornar à condição de importador de petróleo bruto.
Na “História da Cidade” (1982), o arquiteto e historiador italiano Leonardo Benevolo (1923-2017) assinalou que, na vitória da “direita” nos embates ideológicos do século XIX, a liberdade concedida às iniciativas privadas fixara limites quando se tratava de regulação e obras públicas. “Este modelo tem sucesso imediato e duradouro: permite reorganizar as grandes cidades europeias, fundar as cidades coloniais em todas as partes do mundo e ainda influencia de maneira determinante a organização das cidades em que vivemos hoje”.
Benevolo denominou a vitória da direita no século XIX de “pós-liberal”, e, tratando da situação do final do século 20 observou que a cidade/sociedade ficou ainda mais excludente e aventa ser a arquitetura contemporânea, “intencionalmente futurista, apenas para esquecer ou esconder as dificuldades de desmontar os mecanismos da cidade pós-liberal, que ainda são dominantes no mundo contemporâneo”.
Vê-se na COP30, exceto em poucos, pouquíssimos Países, os Estados como organismos sem autoridade, dominados pelos interesses financeiros e pelo crime, enquanto se propala o cuidado com as mudanças climáticas como a “arquitetura indescritível”.
(*) Pedro Augusto Pinho é administrador aposentado.
*As opiniões dos autores de artigos não refletem, necessariamente, o pensamento do Jornal Brasil Popular, sendo de total responsabilidade do próprio autor as informações, os juízos de valor e os conceitos descritos no texto.
