Adeli sell
(Alguns apontamentos sobre livro e pesquisa de Veridiana M
Tonini).
Lá se vão duas décadas do lançamento de “Uma relação de amor e ódio – o caso Wolfram Metzler (1932-1957), de Veridiana Tonini, editado pela UPF.
É fruto de suas pesquisas em fontes primárias, em escutas, entrevistas como sua tese de Mestrado na Universidade de Passo Fundo.
Veridiana é professora, secretária de Educação em Guaporé, foi parlamentar. Antes de tudo, uma pesquisadora.
Em sua tese, com muitos documentos, jornais, folhetos, pois teve acesso a arquivos de familiares de Wolfram Metzler, Veridiana mostra as relações promíscuas entre e Igreja Católica e o integralismo no Rio Grande do Sul em especial nas regiões de colonização alemã e italiana. A cúpula da Igreja então capitaneada pelo Arcebispo Dom João Becker cria a AC – Ação Católica – e a LEC – Liga Eleitoral Católica. Sempre com o discurso de que a Igreja não fazia política e não tinha partido, estas “entidades” eram altamente politizadas pela extrema direita, pelo integralismo, indicando candidatos para os católicos.
A disputa, segundo a autora, veio de 1930 em diante, tendo destaque a mobilização para influenciar na Constituição de 1934, pois as cúpulas da Igreja tinham verdadeira ojeriza à separação da Igreja do Estado, presente já na primeira Constituição Republicana (1891). A cúpula da igreja era bastante oportunista, pois vinha flertando com o governo borgista, que defendia a separação Igreja e Estado, entra num frenesi por escolas suas, particulares, atacando o ensino público e laico. Depois adere á ditadura de Vargas.
Os jovens eram o grande alvo da Igreja Católica, em comunhão com líderes integralistas como Wolfram Metzler, buscava cativá-los com ideário conservador. Este oportunismo está bem presente na figura e nos atos de Dom João Becker que era integralista de raiz até 1937. Com o advento do Estado Novo, a ditadura de Vargas, ele começa a flertar abertamente com este governo.
Tanto a Igreja quanto os integralistas sabiam que o cerne para atingir as massas coloniais, a base da igreja, era a defesa da “boa imprensa”, por isso criaram vários jornais. E Metzler era o símbolo do catolicismo e do integralismo nas regiões coloniais, presente como dono deles e articulista.
Wolfram Metzler era filho de um imigrante alemão, morador de Novo Hamburgo. Formado em Medicina, passou algum tempo na Alemanha e outros países em estudos, voltando já casado com uma alemã. Clinicou em Santo Cristo que tempos depois lhe homenageou com um monumento em praça. Teve clínica em Novo Hamburgo e ali se elegeu vereador pela Aliança Integralista Brasileira. Foi eleito deputado estadual pelo PRP – Partido de Representação Popular – com a maior votação daquele ano, depois foi eleito deputado federal, sempre com boas votações. Disputou o governo do Estado, dando espaço para que outros se elegessem, elegendo Guido Mondin senador. No governo de Juscelino, por indicação de João Goulart, foi indicado para o INIC – Instituto Nacional de Imigração e Colonização, mas morreu quatro dias depois de assumir. O PRP, partido integralista, dera uma guinada, apoiando Brizola ao governo do Estado. Aqui, no RS, Alberto Hoffmann foi Secretário de Agricultura do governo de Leonel Brizola e Mário Maestri foi Secretário das Obras.
Metzler era ligado umbilicalmente à cúpula da Arquidiocese de Porto Alegre, com João Becker, sendo sócio e manda-chuva da Tipografia do Centro, editando jornais, folheteria, santinhos, uma verdadeira máquina comercial.
Mas é ali que começam os problemas de Wolfram Metzler pois briga com seu irmão, Franz, que tenta imprimir na “boa imprensa” uma visão antinazista e contra Hitler. Wolfram não aceita, diz que o irmão estava a serviço dos judeus, que ele não era nazista nem hitlerista, mas não se poderia falar contra o governo de Adolf Hitler. Não é fortuito que um dos jornais criados por Wolfram era “Der Kampf” – A luta, muito próximo de Mein Kampf, o livro de Hitler. A briga foi tal que o seu irmão Franz saiu da empresa Tipografia do Centro, união da família Metzler-Catedral. Foi morar no Centro do país, vindo a falecer em 1957, mesmo ano que Wolfram. E Wolfram insistia que sua briga com o irmão era mais comercial que ideológica.
Esta como outras desavenças em sua época criaram com Metzler uma relação de “amor e ódio”, como bem expresso no título da obra em comento.
Os católicos queriam ter liberdade de ter suas escolas particulares, exigindo subsídios governamentais, e Metzler era o expoente desta visão no Parlamento, nos jornais, nos discursos, nas suas andanças pelas colônias, onde era respeitado como um “deus”. Queriam a cúpula católica e Metzler escolas que ensinassem alemão e os princípios integralistas: Deus, Pátria e Família.
Assim, havia uma ação conjunta, coordenada, da cúpula da Igreja, passando por Metzler até o padre e expoentes paroquianos que faziam esta defesa da educação privada e católica. Veridiana lista 44 escolas criadas no período.
Além do tema da Educação, Metzler chegou ao INIC não por acaso, pois acompanhava de perto a questão da colonização que na época era o deslocamento de gentes do Estado para outros Estados, Era frontalmente contra a ida ao Norte, aparecendo em suas falas o profundo preconceito contra outras etnias, ficando evidenciado que alemães seriam superiores. Mas defendia a Reforma Agrária que teria sido adotada na Bolívia. Mas nenhuma palavra sobre desapropriações, apesar de Wolfram atacar os ricaços, os bancos e os latifundiários. Era um discurso que “pegava bem” nas colônias e lhe davam grande votação.
Metzler não tinha apoio apenas entre os alemães, fazia votos em municípios de pouca inserção desta etnia, como Passo Fundo e Palmeira das Missões. Entre os italianos não teve este apoio massivo, talvez porque houvesse outros candidatos locais, mas teve o PRP grande influência em Guaporé, localidade estudada por Veridiana à exaustão, com boas entrevistas e dados. Ela mostra como padres, como Ângelo Corso, mandavam e desmandavam nestes locais, sempre dando a impressão de “não se meter em política”. Parece ser o caso do padre Mânica de Bento que ela entrevista também.
Muito importante que nossa pesquisadora não fica apenas no período das ações de Metzler – 1932-1957 – mostrando que houve forte tentativa de volta do integralismo nos estertores da ditadura, nos anos 80, momento em que os integralistas se dividiram, ficando de um lado, desde Brasília, o senador Guido Mondim, uma personagem a ser estudada, como seria o caso de Alberto Hoffmann, e daqui outros que se opunham a integração aos partidos da chamada Nova República.
O livro de Tonini mostra a todos nós, depois das tentativas fascistas de golpe no Brasil, o necessário estudo do fascismo e em especial da vertente brasileira de Plinio Salgado, Wolfram Metzler, o Integralismo.
Outro estudo poderia ser sobre os dissidentes do Integralismo, levando alguns deles para a esquerda posteriormente.
Adeli Sell é professor, escritor e bacharel em Direito.
