Federação de hotéis, restaurantes e bares de São Paulo diz que maioria dos alimentos anunciados com redução de impostos já tem tarifa zerada
“A tentativa do Governo Federal de segurar o aumento nos preços dos alimentos com a isenção de impostos de importação não terá efeito no mercado interno, pois a maioria dos produtos já tem tarifas zeradas.”
A avaliação é da Federação dos Hotéis, Restaurantes e Bares do Estado de São Paulo (Fhoresp), que classificou a medida como inócua”.
A proposta da União incide sobre nove alimentos que compõem boa parte da cesta básica do brasileiro.
Segundo o diretor-executivo da Fhoresp, Edson Pinto, o problema é que a maioria dos produtos anunciados nesta semana com imposto zerado são provenientes de países vizinhos do Mercado Comum do Sul (Mercosul) – formado por Brasil, Uruguai, Paraguai e Argentina -, já beneficiado com a isenção na tributação:
“O que poderia ser feito é uma compensação da perda do repasse de impostos aos estados e uma medida que forçasse uma redução do ICMS, bem como uma forte redução nas taxas e tarifas elevadíssimas do vale-refeição. Isso, sim, poderia, de alguma forma, refletir numa redução na carga tributária sobre os produtos brasileiros e na refeição fora do lar e, consequentemente, nas prateleiras dos supermercados e no bolso do brasileiro. O que se tem até agora é sem efeito, totalmente inócuo”, aponta.
A inflação nos alimentos fechou 2024 com alta de 7,69% – índice acima dos 4,83% da média geral apontada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A isenção anunciada pelo Governo Federal, segundo a Fhoresp, teria o objetivo de manter o poder de compra do brasileiro e aumentar a popularidade da gestão do presidente Lula.
Segundo o diretor de Relações Institucionais da federação, Sylvio Lazzarini, questões climáticas impactaram sobremaneira a safra nacional. Em 2024, ocorreu uma das maiores estiagens já registradas no Brasil, com reflexo direto na colheita e na inflação de alimentos, como milho e café.
Já em relação à carne, há dados que justificam a elevação dos preços. Em 2022, quando Lula assumiu a Presidência da República, a arroba do boi gordo custava R$ 343. Atualmente, o valor está em R$ 310, segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea). Lazzarini vê correlação entre estes fatores:
Em 2024, houve o maior abate de fêmeas em matrizes em decorrência do preço baixo, o que desestimulou a produção. Este ano, estamos num momento em que há menor oferta de animais e, por consequência, valorização da carne. O governo precisa agir em outras frentes com a valorização do produtor brasileiro. A isenção para os importados, neste momento, não tem nenhum alcance econômico”, destaca o diretor de Relações Internacionais da federação.
A medida da União de zerar o imposto de importação na tentativa de baratear os produtos no mercado interno ainda precisa ser aprovada pela Câmara de Comércio Exterior (Camex), o que deve ocorrer dentro dos próximos dias.
Os alimentos que estão na cesta de isenção são azeite, milho, óleo de girassol, sardinha, biscoitos, massas, café, carnes e açúcar.
A isenção de imposto de importação para alguns alimentos, conforme anunciado pelo governo, tem efeito limitado e talvez apenas paliativo no controle da inflação de alimentos, avalia o Centro de Liderança Pública (CLP).
“A alta de preços está mais relacionada a fatores estruturais, como o comportamento do câmbio e as dinâmicas do mercado agrícola global. Sem uma política cambial ou fiscal mais sólida e previsível, a redução temporária de tributos não é capaz de garantir uma queda consistente no preço dos alimentos a médio e longo prazos”, afirma a instituição.
Em nota técnica, o CLP alerta para possíveis impactos negativos da medida, como a redução da arrecadação, o aumento do déficit público e a pressão sobre o câmbio. Apesar disso, a entidade destaca a expectativa de que a supersafra de 2025 contribua para a queda dos preços dos alimentos de forma natural, devido ao aumento da oferta interna.
