Entre os últimos dias 27 e 29 de agosto, estive em Santiago, capital do Chile, na Cúpula Mundial sobre Docentes. Na condição de vice-presidente para América Latina da Internacional da Educação, essa reunião global promovida pela UNESCO aproveitou a acolhida do Governo Chileno e a realização do Comitê Diretivo de Alto Nível para a ODS4 – Educação 2030, que é um dos 17 objetivos de desenvolvimento sustentável estabelecidos pela ONU em setembro de 2015. A meta dessa grande cúpula era retomar o debate sobre o apagão docente em todo o mundo, reforçando a necessidade urgente de uma coordenação global para abordar os desafios da falta de professores/as que, em menor ou maior grau, o mundo inteiro sofre.
Essa Cúpula Mundial assumiu o compromisso de avançar, junto à comunidade internacional, nas recomendações encampadas pelo Grupo de Alto Nível sobre a Profissão Docente, criado pelo Secretário Geral das Nações Unidas, ainda no ano de 2022, e, aqui nesse espaço, dissecadas por nós em muitos artigos, do ano passado e começo desse ano. A ação proposta, em escala mundial, é alinhar as políticas e o investimento sustentável pelos países para fazer frente à escassez de professores e professoras em todo o mundo, retomando a valorização dessa profissão tão nobre, mas hoje tão aviltada.
Minha participação e fala nesse importante evento se deu nos marcos do debate da importância da formação docente nessa era digital em que nos encontramos. Repensar a capacitação de nossos professores e professoras deve ser uma tarefa permanente e colaborativa. Nesses tempos do advento de profundas mudanças tecnológicas, a informação e a formação são atributos indispensáveis. No Brasil, temos o princípio da formação inicial (quando o/a professor/a assume no início de sua carreira a tarefa do ato de ensinar) e da formação continuada (capacitação permanente, e em serviço, do/a profissional do magistério).
O nosso modelo brasileiro de formação sempre se ancorou, e dessa disputa não fugimos até hoje, em fundamentos de racionalidade prática e crítica, em contraposição a um modelo fundamentado unicamente em uma racionalidade técnica. Esse é o nosso esteio freiriano. E não podia ter deixado de falar, logo em minha saudação inicial, à frente de uma plateia que reuniu gente de todo o mundo, de nosso patrono da educação brasileira, Paulo Freire: a educação muda as pessoas e as pessoas mudam o mundo!
E falar de Freire logo no começo de qualquer intervenção sempre nos inspira a falar das coisas do mundo. A educação não existe sem o mundo e tampouco sem as pessoas que nele vivem. Se queremos realmente mudar as pessoas, e também o mundo, subvertendo toda desigualdade e injustiça que nele impera, não podemos fazer isso sem os/as professores/as. A centralidade do papel e da função social da atividade do magistério está intrinsecamente ligada a uma formação cidadã, que cuida da vida, das pessoas e do nosso planeta.
A centralidade do papel do professor e da professora em sala de aula deve ser cada vez mais reafirmado, em especial nesses tempos em que ganha força a ideia de que uma mera tutoria de plataformas bastaria para dar conta da formação de nossos/as estudantes. Naquela oportunidade reafirmei as deliberações da Internacional da Educação, federação mundial de educadores/as a qual a CNTE é filiada no Brasil, de que a formação docente não pode ser vista em separado de inúmeras outras políticas basilares no campo educacional: seleção pública e justa de recrutamento, contratos de trabalho estáveis, formação inicial presencial, salário digno e decente, desenvolvimento profissional por carreiras públicas estruturadas, formação continuada e condições de trabalho adequadas para o desenvolvimento pleno e satisfatório do processo de ensino-aprendizagem.
As políticas educacionais, no campo da formação docente, devem contar com a participação dos/as professores/as, e também dos/as educadores/as que não exercem a função do magistério, na configuração dos nossos sistemas educativos. Nada sobre nós sem nós! Nossas experiências, no chão da escola, e nossos conhecimentos profissionais, devem ser a base de qualquer política educacional. A educação como empreendimento fundamentalmente humano não pode nunca prescindir da relação humana forjada na interlocução entre professores/as e estudantes, em sala de aula. Todo e qualquer apoio tecnológico, no uso ou não de plataformas de Inteligência Artificial, deve ser complementar no processo pedagógico do ato de ensinar e aprender.
É claro que os/as professores/as devem se envolver ativamente no desenvolvimento de novas tecnologias educacionais, até para a elas dar o apropriado sentido pedagógico e adequar às necessidades práticas do dia a dia da educação. O uso das ferramentas tecnológicas pelos/as professores/as exige formação para, somente assim, ser possível o ensino de habilidades socioemocionais e capacidade de pensamento crítico aos/às nossos/as estudantes. E nesse sentido, o recurso a instrumentos da IA, cada vez mais presentes no mundo do trabalho em geral, e também no do/a professor/a, deve ser balizada por um uso adequado e ético.
Nesse sentido, uma boa formação docente deve qualificar os/as professores/as ao uso de ferramentas da IA. Somos produtos do nosso tempo, e dele não podemos fugir! A autonomia de nossa profissão é requisito básico para a correta integração da tecnologia nos processos pedagógicos do dia a dia escolar. E essa integração pode e deve vir de processos de formação continuada dos/as nossos/as professores, que devem ser gratuitos e acessíveis a todos/as os/as trabalhadores/as do magistério. Se as máquinas não têm coração, nós, professores de todo o mundo, o temos! E o processo de formação docente deve ser prática guiada de forma permanente por todos/as nós educadores/as. A relação presencial entre professor/a e aluno/a, intermediada por corações humanos, deve ser reconhecida como patrimônio da humanidade e disso não podemos abrir mão!
(*) Por Heleno Araújo, professor, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e atual coordenador do Fórum Nacional da Educação (FNE).
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