O Jornal Brasil Popular no ano da COP 30 não poderia deixar de falar com pessoas, instituições formais ou informais que tratam da defesa ambiental, em especial dos resíduos sólidos, o lixo, em nossas localidades.
Neste sentido, o JBP buscou a palavra da psicóloga Joelma Romão, como ela diz “muitas de mim em uma só”.
Pois ela é consultora em Gestão de Humanização, Sustentabilidade e Lixo Zero. Psicóloga atuante em urgências e emergências psicológicas. Psicoterapia Breve e Ecopsicologia. Idealizadora do projeto Construindo uma Cultura de Humanização o qual apresenta alternativas para a saúde mental através de práticas sociais reflexivas, educação emocional e ambiental.
Por isso, nada mais é preciso explicar por que a entrevistamos.
Para começo de conversa, nossos leitores devem saber que existe uma legislação que trata dos resíduos sólidos.
Trata-se da Lei nº 12.305/2010, que estabeleceu diretrizes fundamentais para o manejo adequado dos resíduos e incentivou práticas como a logística reversa.
A gestão eficiente de resíduos sólidos e a logística reversa são caminhos alternativos para um Brasil mais sustentável, onde o desenvolvimento econômico caminha lado a lado com a responsabilidade ambiental.
Esta legislação tem 15 de existência.
Depois, veio o Plano Nacional de Resíduos Sólidos (Planares), instituído por meio do Decreto Nº 11.043, de 13 de abril de 2022, apresentando um caminho para se alcançar os objetivos e materializar a Política Nacional de Resíduos Sólidos por meio de diretrizes, estratégias, ações e metas para melhorar a gestão de resíduos sólidos no País.
JBP – De onde vens, estás em São Francisco de Paula há quanto tempo?
JOELMA ROMÃO – Sou natural da cidade de Mairinque do estado de São Paulo, estou em São Chico desde fevereiro de 2020, ou seja, um pouco mais de 5 anos.
JBP – Como surgiu este movimento em “São Chico”, chamado de Lixo Zero?
JOEMA ROMÃO – Quando venho para São Chico chego aqui e logo vem também a pandemia com isso morando na área rural não tive muito contato com a cidade em si no ano de 2020 e a questão dos resíduos recicláveis para mim já uma dúvida, pois vinha da prática de separar os resíduos, aqui não sabia o que fazer com estes materiais que separava e foi quando conheci a Claire em uma aula de Biodança quase no final de 2021 a qual me trouxe a informação que em São Chico não tinha coleta seletiva mas existia um grupo de mulheres que encaminhavam estes materiais para uma catadora. Assim me junto ao Recicla São Chico que na época tinham seis integrantes e levo essa sugestão para o grupo sobre o conceito Lixo Zero que tinha conhecido e fazia muito sentido a forma de pensar como uma filosofia de vida, me torno embaixadora e consultora Lixo Zero pelo Instituo Lixo Zero Brasil (ILZB) e com isso formamos o Coletivo Recicla São Chico & Movimento Lixo Zero aqui no município.
JBP – O Plano Nacional fala no encerramento de todos os lixões, aumento da recuperação de resíduos para cerca de 50% em 20 anos. Como você analisa este ponto e o atraso aqui pelo Rio Grande do Sul?
JBP – Diz também que metade do lixo gerado deverá deixar de ser aterrado e passará a ser reaproveitado por meio da reciclagem, compostagem, biodigestão e recuperação energética. Atualmente, apenas 2,2% dos resíduos sólidos urbanos são reciclados.
JOELMA ROMÃO – Vejo essa meta como super necessária, mas meio que sonhar acordada, sabe?! Isso com relação a recuperação para cerca de 50%, é muito ambicioso passar de uma média hoje de 3% de reciclagem no Brasil para 50% lá por 2045, seria uma bela revolução mesmo e seria maravilhoso, mas tenho minhas dúvidas se será possível. Para isso é preciso mudar com urgência a estrutura, política, engajamento, tudo.
Aqui no RS em dezembro de 2023, entrou em vigor a Resolução CONSEMA 500/2023. Só agora os fabricantes, distribuidores e varejistas têm que criar sistemas de logística reversa para embalagens, eles precisam buscar o que vendem depois que a gente usa. Isso dá um gás na ideia de responsabilidade pós-consumo, mas até realmente começar a funcionar leva um bom tempo e é preciso fiscalização. Só agora em fevereiro de 2025, saiu a Resolução CONSEMA 524/2025, refinando como são licenciados os empreendimentos que tratam, armazenam ou desfazem resíduos aqui no estado. Estamos quase ao final de 2025 e aqui a coleta seletiva é precária, segundo o Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS), em 2021, 62% dos municípios gaúchos não tinham coleta seletiva ou era parcial e na RMPA, 73% não tinham coleta de orgânico cobrindo todo o território, acredito que estes dados de 2021 não mudaram muito até os dias de hoje em 2025.
Em resumo, vejo que temos até boas iniciativas rolando, logística reversa obrigatória, controle de resíduos vindos de fora, licenciamento mais claro, me parece que o Estado está tentando se mexer. Mas o sistema de base ainda a meu ver é frágil, podemos ver como as enchentes bagunçaram tudo, gerou 47 milhões de toneladas de entulho e prejudicou muitas ações de coleta seletiva, lembrando que estamos em meio de uma crise climática e temos que calcular estas variáveis que ela pode trazer. Muitas prefeituras ainda não têm coleta seletiva completa e temos que citar aqui quanto ao modelo de PPP em Porto Alegre que ainda está em discussão, apresenta pontos sociais delicados. Em suma, o RS está tentando avançar, mas ainda bem longe de chegar aos 50%. E precisa de vontade política, debate aberto com a sociedade (especialmente com os catadores) e investimentos com foco na inclusão e educação ambiental.
JBP – A recuperação de resíduos proporciona redução do consumo de energia e menor emissão de gases de efeito estufa. Como analisas este item?
JOELMA ROMÃO – Não tenho dúvida que a recuperação de resíduos é uma das formas de a gente reduzir impactos ambientais. Quando você recicla, deixa de gastar energia e recursos na extração de matéria-prima nova. Um exemplo é que produzir alumínio reciclado consome até 95% menos energia do que produzir alumínio primário. No vidro, o ganho chega a 30%. Então, sim, reciclagem significa menos consumo de energia e menos gases de efeito estufa, porém produzir embalagens de plástico a base de petróleo só porque tem potencial de ser recicladas não vejo como o melhor caminho. Temos que pensar em toda cadeia de produção, inclusive a extração da matéria prima antes mesmo do que pensar na possibilidade de reciclar e sim pensar na possibilidade de nem precisar reciclar.
JBP – O plano prevê ainda o aumento da reciclagem de resíduos da construção civil para 25%, incentiva a reciclagem de materiais, contribui para a criação de empregos verdes, bem como possibilita melhor atendimento a compromissos internacionais e acordos multilaterais, e representa passo importante no processo de acessão do Brasil à OCDE. Você acredita que estamos neste caminho? Quais são os entreves que se encontra para implementar este plano?
JOELMA ROMÃO – Olhando para nossa realidade hoje e para onde caminha a humanidade considero o Plano Nacional de Resíduos bem ambicioso, querer levar a reciclagem da construção civil para 25% onde hoje esse índice gira em torno de 5 a 10% no Brasil. Além disso, tem essa pegada de alinhar o país com compromissos globais, como o Acordo de Paris, e facilitar a entrada na OCDE, onde padrões de gestão de resíduos são muito mais rígidos. Eu diria que ainda não estamos plenamente neste caminho. Temos algumas ilhas de excelência e cidades com programas os quais podemos considerar sólidos de coleta seletiva, cooperativas bem estruturadas, iniciativas de logística reversa que começaram a andar. Mas, no geral, o Brasil e o RS ainda têm um longo percurso a meu ver.
JBP – Como você e o pessoal do vosso Movimento Lixo Zero se sente hoje em São Chico?
JOELMA ROMÃO – Hoje em São Chico nos sentimos um pouco estagnados e retrogrados quando falamos desta questão do Lixo na cidade. Claro que tivemos alguns avanços diante de nossa movimentação popular, mas a meu ver ainda está muito aquém da potencialidade que a cidade tem para ser uma possível referência de uma cidade Lixo Zero. O município de São Francisco de Paula faz parte do grupo de cidades que ainda não dispõem de uma gestão estruturada de resíduos sólidos e com isso apresenta também as características de baixa inclusão social e econômica de catadores e recicladores, predominância da destinação em aterros, sem reaproveitamento de materiais recicláveis e orgânicos, apresenta falta de programas permanentes de educação ambiental voltados à separação e redução de resíduos na fonte, etc.
(Adeli Sell, de Porto Alegre)
