Entre todas as minhas invencionices no tempo de criança, brincar de escola era uma das minhas preferidas. Juntava todas as minhas bonecas e ursos de pelúcia e os posicionava de forma que pudessem ouvir tudo o que eu dizia e copiar, em seus cadernos invisíveis, as atividades que eu escrevia com giz branco no quadro verde. Também houve momentos em que eu lecionava para alunos imaginários, chamando-os um por um pelos nomes inventados ou tirados da minha própria sala de aula, onde eu frequentava como aluna. Tinha um caderno de planejamento, se não me engano um bloco de anotações que o meu pai ganhara em algum lugar. Nele eu descrevia todas as aulas dadas aos meus estudantes, a quem eu adorava dar notas baixas.
No início da adolescência, o interesse pela docência ficou esquecido em algum canto da memória, sendo resgatado apenas no final do primeiro ano do antigo segundo grau, quando eu decidi estudar magistério. Da minha turma de quarenta adolescentes, apenas quatro ou cinco seguiram na profissão. Eu sou uma delas. Apaixonada pela educação em uma época em que era difícil ser chamada em um concurso público na minha cidade, esperei sete anos até ser nomeada. Sem investir em outra profissão, no intervalo entre a minha formatura e o ingresso no serviço público, trabalhei com contrato temporário, dei aulas particulares de alfabetização, participei de projetos e comecei a faculdade de Letras.
Ser professora foi, por muitos anos, um dos meus maiores desejos, mas depois de quase trinta anos desempenhando esse papel, sinto o peso do cansaço. Já não é o mesmo entusiasmo de antes. A profissão que escolhi na infância hoje me adoece, e arrisco dizer que as crianças são as menos culpadas disso. A rotina exaustiva, as exigências constantes e a falta de reconhecimento da sociedade colaboram para que muitos professores decidam mudar de carreira.
Quando vejo a cena de uma professora batendo em um aluno, mesmo sabendo da existência de câmeras na sala de aula, antes de julgá-la eu me pergunto o que a levou a esse ponto. Uma pessoa doente que não pôde se tratar porque uma licença lhe custaria o emprego? Uma profissional que já não aguenta as cobranças e as agressões diárias? É claro que nada justifica a violência. A criança não tem culpa. Mas a responsabilidade também é dos adultos que não olharam para essa mulher exausta e continuaram a exigir dela uma produtividade que já não era possível.
E o caso da docente que morreu ao ser chamada à sala da diretora? Ou do professor que, no dia em que finalmente foi autorizado a se transferir para outra escola, não resistiu à pressão? Conheço poucas colegas que não façam uso de antidepressivos, mas às vezes os medicamentos e a terapia não bastam. É preciso desacelerar, cuidar da mente e do corpo. No entanto, com um salário baixo e tantas demandas, isso se torna quase impossível.
Ser professora ainda me enche de orgulho, mas, ao fim de cada dia, percebo que o amor pela educação não deveria ter um preço tão alto. Espero, com uma esperança quase esgotada, o retorno de uma sociedade que valorize seus mestres, embora esse dia pareça cada vez mais distante. Enquanto isso, as licenciaturas se esvaziam, um grande número de alunos fica sem aula, e os profissionais da educação que ainda resistem seguem em pé, sem saber até quando conseguirão permanecer.
