Livro não é dever da escola, é DIREITO DO LEITOR, prazer, hábito. Por isso, quando nós, escritores da [chamada literatura infantojuvenil] somos convidados a promover livros, visitando escolas, surge sempre uma situação de conflito entre aquilo que escrevemos e o que nos é imposto como sendo aquilo que escrevemos. Quer dizer: falar sobre um livro, detalhar nossa obra, para nós que a criamos, é impossível.

Toda obra de arte vive por ela, é início, meio e fim. Falo do ponto de vista de quem a criou.
Já recebi questionários sobre livros meus, feitos com profunda vontade de questionar a obra, tendo respostas preparadas por especialistas em literatura, adendos que são enviados aos professores para facilitar as suas aulas e “promover” o livro.
Tentei, prestando muita atenção [como se eu fosse um aluno de minha obra] responder corretamente as perguntas formuladas.
Não consegui ter a mesma visão de quem havia lido o meu livro. E isso é natural: um livro tem muitas leituras, é impossível ler um livro [com atenção prazerosa] tendo que prestar contas de como responder acertadamente a um inquérito, provando que o texto foi realmente lido, o dever de casa foi realizado.

Então, qual seria o caminho para fazer do livro algo desejável?
É difícil dizer, mas é verdade: a maioria dos professores não lê, por isso, sabendo de fato tão calamitoso, as editoras buscam facilitar o trabalho dos assim chamados mestres e fazer para eles, a tarefa. E surgem os questionários que, na sua essência, são deveres para os professores [falo da maioria, não das exceções] que não sabem a matéria. Daí, acontece o círculo vicioso: professor que não lê ensina aluno a ler com desprazer, destruindo, no jovem, o desejo da aventura, da viagem literária, das caravelas da fantasia.
Não sou saudosista, mas tenho que confessar que, quando eu era menina, tive professores, mestres naquilo que ensinavam. Acho que hoje o maior defeito do nosso tempo brasileiro é a falta de honestidade, o fingimento, o conseguir passar daquilo que não é vero.

Fui aluna relapsa, fiquei de castigo muitas vezes, fiquei presa nas férias, preparando exames de segunda-época. Aos dezessete anos, larguei o colégio, fui estudar teatro. Tive uma educação nada convencional, cometo sérios erros de gramática, sim, mas gosto de ler, adoro livros, tornei-me até, para espanto meu, escritora de mais de sessenta obras infantojuvenis. Devo tudo isso ao meu professor, Dr. Rui Mauro Fioravanti, que nos despertou o gosto por bibliotecas vivas, palestras, até as terríveis declinações latinas, aquelas que nunca decorei direito.
Devo o meu hábito de leitura à minha mãe, que contava histórias de Grimm e Andersen, em alemão. Ela era austríaca e recordo dos dois livros, grossos, sempre à minha cabeceira, quando eu nem sabia ler.
Hoje, se digo que escrevi mais de sessenta títulos confesso uma culpa, não uma glória. Teria preferido colocar várias histórias num só volume de contos. As editoras têm receio de livros de muitas páginas… Porque as crianças [segundo os professores, que, na sua maioria, têm aversão aos livros] não gostam de muito texto.

Tenho um livro, OS BICHOS QUE TIVE, que contém oito histórias. Já recebi queixas de professores, dizendo que ler oito histórias é demais para o salário pouquinho que recebem. Concordo: professor tem que ganhar um salário decente, mas… conheço tanto escritor que ganha somente a esperança de poder editar um livro, e que escreve, e que luta com garra e respeito pela qualidade do seu trabalho!
Moro, atualmente, em Petrópolis. Ali, com um grupo de jovens, grupo pequenino, formamos o TEATRO DO LIVRO ABERTO.
Visitamos escolas, levamos o livro, em forma de mil outras leituras, para os alunos. Cantamos livros, bonecamos livros, colocamos outras visões, deixamos crescer a fantasia. Depois dos espetáculos, conversamos com as crianças. Elas fazem perguntas fantásticas: quantas vezes não estamos aptos a voos tão imaginosos como os pensamentos da infância!
É preciso ter humildade para promover a leitura: a humildade de aceitar as nossas limitações, entendendo que o jovem é o adiante. É preciso dar respeito aos jovens, procurando aprimorar os nossos horizontes, alargá-los. É preciso abrir as janelas das empoeiradas bibliotecas, fazer com que os bibliotecários [não falo de todos, mas de muitos] percam o jeito de guardiães da cultura, rostos fechados para a alegria de viver. Livro é vida!
Sei que vivemos numa época de falta de dinheiro, num momento sombrio da nossa história brasileira. Se digo que a maioria dos professores não tem preparo para a importância de sua função, não ignoro o esforço, a luta, o heroísmo de quem leciona hoje. Existe, no entanto, um ponto importante: quem escolhe um caminho e sabe que o caminho é árduo, e sabe que toda uma geração depende do seu estímulo, esse professor tem que ser um mestre. É uma guerra, uma sobrevivência, um ato de verdadeiro amor. Está acima de tudo, mexe com a infância, com a juventude. Que os professores comecem por si, ainda há tempo. Frequentar bibliotecas é grátis, é BOM! LER É BOM.
A gente só consegue gostar do que conhece. Por isso, nada mais simples, nada mais direto, nada mais cúmplice, do que um bom livro. AMÉM!
Por Sylvia Orthof
Leitura: Thaise Diamantino C.
Digitação: Joaquim Lisboa Neto
Biblioteca Campesina, 25fev25
Nota:
“É preciso abrir as janelas das empoeiradas bibliotecas, fazer com que os bibliotecários [não falo de todos, mas de muitos] percam o jeito de guardiães da cultura, rostos fechados para a alegria de viver. Livro é vida!”
A propósito da penúltima linha desse trecho da palestra de Sylvia Orthof no Seminário Animação da Leitura-Impasses e Possibilidades, em Belo Horizonte, quero fazer um esclarecimento.
Ocorre que algumas amigas e alguns amigos muito generosamente me definem como “guardião da cultura”, pelo que lhes fico altamente grato.
No entanto, não me considero como guardião da cultura, de Santa Maria em particular.
Pra mim, guardião é aquele que aprisiona o conhecimento, a cultura, exibindo essa característica como uma riqueza pessoal, propriedade privada, ás vezes até com dissimulados objetivos grananciosos.
Muito prazerosa e modestamente, sou um garimpador e, como consequência natural, disseminador, socializador da nossa, sempre vale relembrar, riquíssima cultura.
Ponto, fecha, firma.
JLN
(*) Joaquim Lisboa Neto, colunista do Jornal Brasil Popular, coordenador na Biblioteca Campesina, em Santa Maria da Vitória, Bahia; ativista político de esquerda, militante em prol da soberania nacional.
