Cantora Rachel Reis fará show no Sesc Bom Retiro neste final de semana e reafirma a importância de cultura acessível
Nos dias 27 e 28 de fevereiro, o Sesc Bom Retiro, em São Paulo, recebe ‘Sereiona’, show acústico da cantora e compositora Rachel Reis. As apresentações prometem trazer os grandes sucessos da baiana em uma nova roupagem e maior conexão da artista com seu público.
Em 2023, Rachel foi indicada ao Grammy Latino por seu primeiro álbum “Meu Esquema”. Em 2025, a indicação foi para Melhor Álbum de MPB por seu álbum “Divina Casca”.
Nascida em Feira de Santana (BA), a cantora rejeita o estigma de música regional para suas composições. “Minha música se conecta com o Brasil inteiro, apesar da minha raiz”, disse Rachel em entrevista ao Conversa Bem Viver.
Durante a conversa, a compositora disse ser avessa a criar utilizando fórmulas de construção de músicas com a finalidade de desenvolver hits. “Às vezes pode ser que eu faça alguma coisa que soe mais comercial e que pareça x, mas a minha construção sempre vai ser muito pessoal e muito no sentido de experimentar mesmo. Eu nunca vou construir uma música com base numa fórmula. Como se tivesse um modelo a ser seguido.”, comentou a cantora.
Confira os principais pontos da entrevista
Vamos falar mais sobre o show que acontece neste final de semana em São Paulo. O acústico Sereiona, no qual você faz uma mescla dos seus últimos álbuns com uma nova roupagem
Perfeito. O acústico surgiu de uma vontade de trazer o público para mais perto de mim. Eu sempre fui reservada nas redes sociais e percebia uma movimentação dos fãs, da galera que me acompanha na internet, para saber mais, entender mais a história das músicas… então eu tive essa vontade de criar um show onde eu pudesse ter mais conexão com eles, onde eu pudesse falar mais sobre a história das músicas, onde eu pudesse explorar a música em outros formatos. Brincar um pouco mais com as texturas. O acústico vem muito nesse sentido. É um show que eu fico muito feliz de fazer, tem funcionado muito. Eu adoro.
Eu me acostumei com essas camadas, de [primeiro] estar no Carnaval e depois nesses formatos de shows, do acústico, para dar uma acalmada mesmo, trazer essa tranquilidade, essa paradinha.
Neste Carnaval, você se apresentou só em Salvador ou em outras cidades também?
Eu estive em Belo Horizonte. Fiz uma participação no bloco ‘Então Brilha’ e foi maravilhoso! A galera me recebeu super bem e eu consegui sentir um pouquinho a energia de BH.
Já quero voltar!
Como é se apresentar em São Paulo? É uma cidade em que você também tem alguma experiência inspiradora para tua música, de acolhimento?
Desde que eu comecei a fazer os meus shows em São Paulo, em 2021, fui muitas vezes e tive a alegria de ser sempre muito bem recebida. Tem essa diversidade de fãs, né, nos meus shows, tem gente de todos os lugares. Mas eu sempre me senti muito bem acolhida, sabe?
É um lugar que sempre que eu vou está cheio, as pessoas sempre me pedem muito. Então sim, tem esse fluxo, são pessoas de todos os cantos do Brasil, e eu tenho essa percepção de que nos meus shows tem gente de todos os lugares. Eu gosto muito de fazer show em São Paulo.
Não é a tua primeira vez no Sesc Bom Retiro. Eu lembro de ter visto um show seu no mesmo lugar em 2023, se não me engano
É isso. Eu já fui tantas vezes que eu perdi a conta, mas sim, muito capaz de ter sido [em 2023] e em todas as vezes as acho que foi com acústico também. E é sempre aquela experiência da galera cantar junto comigo. Eu me sinto também muito à vontade em contar e abrir histórias para eles. Estou realmente ansiosa.
Eu fui no show de Mayra Andrade, em São Paulo, e ela contava várias histórias ali sobre as músicas, algumas que eu não conhecia ainda. Isso me emocionou, sabe? Eu fiquei naquela vontade de buscar, de conhecer mais. Eu me coloquei muito nesse lugar também por ver que algumas pessoas que me acompanham, querem saber mais. Elas criam histórias. A história ganha uma camada a partir da percepção deles. Então, eu fui trazendo isso para o show e tem sido muito acolhedor. Tem me aproximado mais deles. Acho que essa é a coisa mais interessante do acústico. É realmente um show que me deixa assim ansiosa, me deixa na ânsia de fazer porque eu sinto que eu tô indo ali encontrar os meus amigos.
A nossa sede aqui do Brasil de Fato é muito perto do Sesc Bom Retiro e a gente faz parte junto com o SESC, de um movimento de cada vez mais ocupar o centro da cidade, especialmente de São Paulo, que vem passando por um período de tanto abandono, as últimas prefeituras vem permitindo que a cidade venha ficando nas traças, não garantindo direitos básicos para a população.
O Sesc Bom Retiro faz parte desse movimento em São Paulo de ocupar o centro da cidade. Quando a gente vê um show no Sesc, entende que isso envolve música acessível, de artistas com consciência, reflexão, dá um peso extra. Imagino que isso chegue no artista também, correto?
Sim, claro! Maravilhoso. E acessível para que todo mundo possa curtir. Infelizmente, a gente não consegue botar todo mundo dentro, essa coisa como espaço e com os ingressos. Mas é importante que a gente tenha esses espaços com valores acessíveis para que as pessoas possam curtir também. Para que elas se sintam abraçadas culturalmente. Acho isso muito importante.
Fã é um tipo de gente exigente. As pessoas não se contentam com pouco, então, não interessa se a pessoa já lançou tantos hits, cobram mais. Querem saber de novos lançamentos. E eu quero saber um pouquinho mais o que a gente pode esperar da Raquel Reis para 2026. Mas antes, deixa eu te perguntar uma questão um tanto quanto provocativa: como é a dificuldade do artista para superar o hit?
Eu percebo que algumas pessoas criam essa expectativa. Às vezes o artista não cria, mas alguém que às vezes nem consome tanto o artista, nem conhece tanto, conhece superficialmente, ouviu aquela música ali que sabe que teve um grande alcance, fica naquela expectativa de: vai martelar nesse caminho, repetir essa fórmula.
Mas eu sempre tive a tranquilidade de não deixar que isso mexesse com a minha criação. Até agora, em todos os projetos que criei, eu tive a tranquilidade de fazer as minhas músicas de acordo com o que eu queria fazer no momento, sem deixar que isso influenciasse na minha construção.
É óbvio que a gente quer que as músicas ganhem abertura, que elas cheguem a mais pessoas, que elas estourem. Isso é legal, porque vai trazer mais gente, vai rodar mais e a gente vai chegar em mais gente. Isso é ótimo. Mas eu nunca tive essa pressão. Eu nunca me coloquei essa pressão para tentar repetir uma fórmula, minha ou de outra pessoa. Sempre consegui fazer ali as minhas coisinhas.
Isso é tão importante, não quero botar responsabilidade em cima da arte, nem dos artistas, mas me parece que a classe artística também tem que fazer uma força para a gente não permitir que, de repente, tudo vire digital. Que a produção da música, esse gesto espontâneo e artístico, poético, vire também uma ferramenta de inteligência artificial.
Tem essa tendência, do resto do Brasil fora da Bahia, principalmente do Sudeste, que acaba generalizando bastante a Bahia por Salvador. E a gente sabe o quanto isso é um erro grave. Você é de Feira de Santana, e o pessoal de Feira de Santana também tem o molho, não é mesmo?
Tem muito molho. Eu sou de Feira, que é uma cidade de muito fluxo, de passagem, e isso atravessa muito a minha música. É uma música que nasce da Bahia e atravessa o Brasil.
Eu não acho que seja uma música regional. É uma música que nasce na Bahia. A minha música tem essa conexão, essa base, essa raiz na Bahia, mas é uma música feita para atingir o todo. Minha música se conecta com o Brasil inteiro, apesar da minha raiz ser baiana. E ter essa fonte do lugar que eu vim, que é Feira de Santana, que é esse berço de tantos talentos: Duquesa, Luiz Caldas, Russo Passapusso, essa galera toda de Feira de Santana.
Minha mãe, que é ex-seresteira e que misturava pop, misturava forró. Eu já contei isso em outras entrevistas. Eu tive essa experiência de dentro de casa com essas mulheres cantoras, porque a minha irmã é uma cantora de forró, que me mostrou o mundo da MPB e do pop rock e que hoje ela canta forró. E dentro de casa, essa experiência da minha mãe, uma seresteira, cantando Kelly Key no palco, cantando Rouge em Seresta.
Eu conto sempre isso porque isso ficou marcado assim na minha memória. Eu tinha uns 5 anos quando ela fez os últimos shows. Hoje ela é evangélica. E eu lembro, pequenininha, dessa experiência de estar no palco e vê-la cantando. Tive essa experiência dentro de casa, em Feira de Santana. Já tive essa experiência de mistura, isso está na minha vivência, da minha criação ali dentro de casa e com todas essas referências que via morando em Feira de Santana, depois morando em Salvador. Eu cresci vendo as divas do Axé, vendo a força daquelas mulheres no trio. Comandando multidões. Isso sempre me impressionou,
E minha música também bebe muito da música de Salvador, da música dos trios. Isso faz parte da minha construção como um todo. Vem daqui e vai para todos os lugares. Eu acho isso incrível. Eu sempre falo sobre como ser uma artista baiana faz toda a diferença.
