A crise que volta a assombrar Cuba não é obra do acaso, nem resultado de alguma incapacidade estrutural do povo cubano. Trata-se de um cerco histórico, intensificado pelo bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos há mais de seis décadas e agora novamente endurecido sob a orientação política de Donald Trump. O estrangulamento do abastecimento de combustíveis, com sanções direcionadas a empresas e navios que comercializam petróleo com a ilha, não é apenas uma medida econômica: é uma arma geopolítica que afeta hospitais, transporte público, geração de energia e, portanto, a vida cotidiana.
Diante desse cenário, muitos se perguntam: por que China e Rússia, frequentemente vistas como aliadas estratégicas e ideologicamente próximas, não assumem uma postura mais incisiva? A resposta exige menos romantismo e mais análise concreta das relações internacionais sob o capitalismo global.
Primeiro, é preciso reconhecer que tanto China quanto Rússia operam hoje dentro das engrenagens do mercado mundial. A China é a principal parceira comercial de dezenas de países e profundamente integrada às cadeias globais de produção. A Rússia, apesar das sanções que também enfrenta, depende de mercados e fluxos financeiros internacionais para sustentar sua economia energética. Confrontar diretamente as sanções norte-americanas em torno de Cuba significaria abrir novas frentes de retaliação econômica e financeira, ampliando custos que esses países calculam com frieza estratégica. Não há ternura nesse endurecimento.
Há também uma dimensão pragmática: nenhuma potência, por mais alinhada politicamente que esteja, age movida apenas por solidariedade ideológica. A lógica interestatal contemporânea é regida por interesses nacionais, equilíbrio de poder e cálculo de riscos. Cuba é símbolo, mas não é prioridade estratégica absoluta para Moscou ou Pequim frente a disputas maiores envolvendo a OTAN, o Indo-Pacífico ou as tensões na Eurásia.
Isso revela um dado incômodo para a esquerda latino-americana: a solidariedade entre Estados não substitui a necessidade de integração regional soberana. A dependência de uma “potência amiga” é sempre frágil quando o sistema internacional continua estruturado pela hegemonia financeira e militar dos EUA. A lição é dura: nenhum país enfrentará o imperialismo sozinho, mas tampouco será salvo automaticamente por alianças formais.
O que está em jogo em Cuba é mais do que abastecimento de combustível. É a tentativa de sufocar um projeto político que insiste em afirmar a primazia da vida sobre o lucro. A resposta duradoura não virá apenas de Pequim ou Moscou, mas da construção de um bloco latino-americano capaz de romper com a submissão estrutural e de enfrentar, coletivamente, o poder de Washington. Sem isso, cada nação seguirá vulnerável ao próximo cerco.
Delso Oliveira Andrade
Fevereiro de 2026
