O sistema financeiro capitalista gosta de se apresentar como a excelência da eficiência. Eficiência na alocação de recursos, eficiência na gestão de riscos, eficiência na geração de valor. Mas a pergunta que raramente se faz é: eficiente para quem?
No discurso dominante, lucro virou sinônimo de eficiência. Se uma instituição apresenta alta rentabilidade, conclui-se que ela é bem administrada. Se distribui dividendos crescentes, é considerada saudável. A régua é simples: quanto maior o retorno financeiro, maior a prova de competência. O problema é que essa régua mede apenas o ganho privado e ignora os custos sociais.
A lógica da rentabilidade como regra transforma números em fim em si mesmos. Planilhas substituem pessoas. Indicadores valem mais do que empregos, territórios e vidas impactadas. Essa eficiência não considera o conjunto da sociedade, mas apenas o resultado contábil de poucos. Trata-se de uma eficiência seletiva. Esse modelo cria um paradoxo estrutural. Se tudo vai bem, os lucros são privatizados, mas se algo dá errado, as perdas são socializadas. Falam o tempo todo do livre mercado, mas recorre ao Estado quando os riscos assumidos em busca de alta rentabilidade se materializam em perdas. O ganho é privado; a perda, social.
O recente caso do Banco Master explicita essa engrenagem. Após operações que resultaram em um rombo bilionário, a conta não sumiu, ela recaiu sobre mecanismos públicos de garantia, sobre a sociedade. O Estado entra para conter o dano, evitar contágio, preservar a confiança. Ou seja, a suposta eficiência do mercado capitalista depende, no limite, do amparo público.
Aí dizem: estabilidade do sistema é um bem coletivo. O ponto central é outro. Se o sistema é tão eficiente como se proclama, por que precisa ser reiteradamente socorrido? Se a gestão privada é superior por definição, por que os prejuízos acabam amparados por estruturas públicas? A eficiência celebrada nos relatórios anuais não contabiliza o custo potencial das quebras, das intervenções e dos impactos sobre a economia real.
Talvez seja hora de redefinir o conceito de eficiência. Uma instituição é realmente eficiente se gera lucro elevado assumindo riscos que, em caso de fracasso, serão absorvidos pela coletividade? Ou eficiência deveria significar sustentabilidade de longo prazo, responsabilidade social e contribuição efetiva ao desenvolvimento?
O mito da eficiência do capitalismo financeiro persiste porque seus indicadores são estreitos. Medem o retorno do capital, mas não o impacto social. Enquanto lucro continuar sendo tratado como medida absoluta de sucesso, continuaremos assistindo ao mesmo roteiro: ganhos privados celebrados em tempos de bonança e perdas socializadas quando a conta chega.
A questão não é apenas econômica. É política. E, sobretudo, é sobre quem paga a conta.
Delso Oliveira Andrade
Fevereiro de 2026 1ª quinzena
