O suicídio de Luiz Phillipi Mourão, chefe da assessoria de segurança do banqueiro Daniel Vorcaro, estendeu a sombra da morte sobre o escândalo que está deixando o país inteiro histérico. Luiz Phillipi recebia um salário de um milhão de reais por mês e, embora, teoricamente, fosse apenas chefe de segurança encarregado da proteção do patrão, na prática recebia ordens para executar projetos de intimidação de jornalistas e outras pessoas.
Na lista de contatos de Vorcaro, ele aparecia com o pretensioso nome de “Sicário”, ou seja, assassino de aluguel. Que se saiba, ele não ameaçou ninguém de morte, nem atentou contra a vida de ninguém, mas recebeu uma ordem de Vorcaro, pelo WhatsApp, para “dar um pau” no jornalista Lauro Jardim e “quebrar os seus dentes”. Depois, a defesa de Vorcaro alegou que aquele recado ao Sicário tinha sido apenas uma explosão de nervos do banqueiro e que, na verdade, ele não pensava assim, nem confirmaria essa ordem.
A divulgação desse fato provocou a segunda prisão de Vorcaro e ele passou algumas horas numa penitenciária estadual no interior de São Paulo, sendo depois transferido às pressas para o presídio da Papuda, em Brasília. A razão da mudança foi de segurança: segurança não apenas para a integridade pessoal de Vorcaro, mas para evitar que ele pudesse estabelecer contatos por meio dos quais continuaria a comandar sua defesa e a tentativa de salvação de seu banco.
O clima em Brasília, em consequência da divulgação de muitos telefonemas de Vorcaro em um vazamento, tornou-se explosivo e de pânico. Muitos desses telefonemas podem ter sido simplesmente inventados por algum gabinete do ódio que ainda esteja funcionando. Eles são tão surrealistas e extravagantes que envolviam pessoas, por exemplo, como Ivanka, filha de Trump, o príncipe Salman, herdeiro do trono da Arábia Saudita, e Luciano Huck, apresentador de televisão, que estaria organizando um grupo financeiro para comprar o banco.
Nesse clima, o presidente do Supremo, ministro Edson Fachin, chegou a receber recomendações da Polícia Federal para reforçar a segurança do ministro André Mendonça e sua família. André Mendonça é o novo relator do caso Vorcaro, mas é, também, um extremado conservador que foi nomeado por Bolsonaro para o tribunal. Será que os bolsonaristas agora ficarão contra ele da mesma forma que estavam contra Dias Tófoli e continuam a estar contra Alexandre Moraes?
O salário milionário de Mourão era um dos três salários de um milhão que precisam ser investigados a fundo. O segundo e o terceiro cabiam a dois altos funcionários do Banco Central: Paulo Sérgio Neves de Souza, diretor de fiscalização nomeado por Bolsonaro, e Belline Santana, chefe do Departamento de Supervisão Bancária que executava as ordens e decisões de Paulo Sérgio.
Esses dois faziam tudo para merecer o salário milionário. Chegavam, por exemplo, a treinar e orientar Vorcaro para conversas que viesse a ter com o então presidente do banco, Roberto Campos Neto. E foi incrível, certamente por algum rombo na regulamentação das atividades do Banco Central, que um diretor de fiscalização e um subordinado seu mantivessem o presidente do banco, Roberto Campos Neto, na ignorância do que estava acontecendo. Eles atuaram não só no assessoramento e orientação de Vorcaro, como também no encaminhamento da tentativa de venda do banco ao Banco Regional de Brasília. Ou seja, estão enfiados até o pescoço no total da trama que custa bilhões ao Brasil.
Só depois do fim do mandato de Campos Neto e da posse de Gabriel Galípolo na presidência do banco – nomeado por Lula –, é que foi possível estancar o conjunto de operações que estava em andamento para transferir o Banco Master ao Banco Regional de Brasília, com enorme custo para esse estabelecimento público controlado pelo governo do Distrito Federal. Logo veio a liquidação do Master e também a sua prisão. Apesar da sequência metódica com que se seguiram essas decisões, o ministro Dias Toffoli foi acusado de sabotar a investigação do caso e acabou sendo substituído pelo ministro André Mendonça.
Ao mesmo tempo, surgiu a oportunidade de novos ataques ao ministro Alexandre de Moraes, que é odiado pela extrema direita e pelo bolsonarismo, por conta da condenação de Bolsonaro e dos demais golpistas. Vazaram para a imprensa mensagens de Vorcaro para o ministro Alexandre de Moraes, que terminavam como uma pergunta angustiada: “Como estão as coisas? Deu para bloquear?” Essas perguntas não tinham resposta e logo se alegou que Moraes as teria respondido por meio de prints de tela com visualização única, apagados imediatamente depois de lidos pelo destinatário.
Moraes afirmou que não tinha recebido qualquer dessas mensagens, portanto não poderia respondê-las. E depois de algum tempo, transmitiu aos seus colegas do Supremo verificações tecnológicas que lhe permitiam dizer que os telefonemas supostamente dirigidos a ele tinham sido, na verdade, dirigidos a outras pessoas. Se essas mensagens foram configurados propositalmente, de modo a aparecer como destinadas a Moraes, o objetivo só podia ser um: desmoralizar Moraes e o STF para abrir caminho à anistia de Bolsonaro. Esses três salários milionários ainda devem dar muitas informações no curso do processo.
E é bom que essa sombra de morte que se estendeu sobre o caso seja eliminada em definitivo e que a luta financeira e os escândalos financeiros sejam e investigados de maneira incruenta. De maneira sangrenta, basta o narcotráfico.
(*) Por José Augusto Ribeiro – jornalista e escritor, é colunista do Jornal Brasil Popular com a coluna semanal “De olho no mundo”. Publicou a trilogia A Era Vargas (2001); De Tiradentes a Tancredo, uma história das Constituições do Brasil (1987); Nossos Direitos na Nova Constituição (1988); e Curitiba, a Revolução Ecológica (1993); A História da Petrobrás (2023). Em 1979, realizou, com Neila Tavares, o curta-metragem Agosto 24, sobre a morte do presidente Vargas.
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