A entidade acolheu denúncia feita pelo deputado Lindbergh Farias; documento aponta que o ex-presidente do BC foi alertado pela PF sobre suspeita de fraude bancária envolvendo o Banco Master
AComissão de Ética Pública acolheu denúncia feita pelo deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) e abriu processo para analisar suposta omissão do ex-presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, que teria sido alertado sobre problemas com o Banco Master, mas não levou adiante investigação contra a instituição privada que, em 2025, com o BC já sob a presidência de Gabriel Galípolo, liquidou o Master por fraude bancária.
O ex-presidente do BC, Campos Neto, declarou à jornalista Monica Bergamo, da Folha de S.Paulo, que a denúncia é leviana:
“Essa representação é leviana e irresponsável. Minha defesa vai se manifestar nos autos, com fatos e dados, de modo a demonstrar que toda a minha atuação no Banco Central seguiu a boa governança e critérios técnicos.”
O que acontece agora? A análise de admissibilidade da denúncia é o primeiro passo para a abertura de um procedimento preliminar. Nesta fase, o acusado tem direito a uma primeira defesa simples. Posteriormente, o relator do caso analisa se arquiva o caso ou se submete parecer pela abertura de um processo colegiado da comissão. A Comissão de Ética pode concluir pelo arquivamento ou pela censura ao ex-funcionário do Estado.
Lindbergh Farias: “Campos Neto sabia de tudo sobre as fraudes do Banco Master”
Após protocolar uma notícia-crime contra o ex-presidente do Banco Central, Campos Neto, o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ), por meio de um vídeo divulgado em suas redes sociais, afirmou que ele sabia das fraudes do Banco Master e que não atuou para evitá-las.
Campos Neto foi nomeado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-22) para a presidência do Banco Central. Por conta desse histórico, Lindbergh classifica o episódio como “BolsoMaster”:
“Quando eu falo que esse é o escândalo BolsoMaster, porque todo mundo viu o que estava acontecendo. Depois começou um lobby para o BRB comprar o Banco Master. Sabe quem resistiu a isso? Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Haddad. E aí o Banco Central liquida o Banco Master quando Galípolo era presidente. Roberto Campos Neto teve que sair.”
O deputado federal do PT é taxativo e afirma que Roberto Campos Neto, presidente do BC escolhido por Bolsonaro, sabia de todo o esquema de fraudes do Banco Master:
“Roberto Campos Neto sabia de tudo sobre as fraudes do Banco Master e não fez nada. É muito grave! O Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e a Febraban encaminharam alertas de risco ao Banco Central sobre a escalada de CDBs arriscados contra o sistema financeiro nacional. Pedimos investigação da PGR e da PF sobre eventuais condutas ilícitas penais, administrativas e funcionais de Campos Neto. É impressionante a blindagem por parte da imprensa em relação ao chefe do BC de Bolsonaro!”
Roberto Campos Neto sabia de tudo sobre as fraudes do Banco Master e não fez nada. É muito grave! O Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e a Febaraban encaminharam alertas de risco ao Banco Central sobre a escalada de CDBs arriscados contra sistema financeiro nacional. Pedimos… pic.twitter.com/EFp7OzoJ7R
— Lindbergh Farias (@lindberghfarias) March 17, 2026
Campos Neto vira alvo de ações na PF e na PGR
O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) protocolou nesta terça-feira (17) uma notícia de fato na Procuradoria-Geral da República (PGR) e na Polícia Federal contra o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto no caso Banco Master.
Na peça, o parlamentar afirma que novos fatos reforçam a necessidade de investigação sobre a atuação da antiga cúpula do BC. Segundo ele, o Banco Central, sob comando de Campos Neto, teria sido alertado formalmente pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban) sobre o aumento das vendas de CDBs considerados arriscados pelo Banco Master.
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, foi preso por fraude bancária e por liderar milícia que atuava para espionar e atacar adversários do banqueiro.
Suspeita de omissão diante de alertas
A acusação central é a de que, mesmo após esses alertas, o Banco Central não teria adotado medidas compatíveis com a gravidade da situação.
Para Lindbergh, se a comunicação formal for confirmada, o caso deixa de ser apenas uma discussão sobre falha de supervisão e passa a envolver possível omissão diante de um risco já conhecido pela autoridade monetária.
O que a peça pede para investigar
O documento pede apuração sobre eventual prevaricação, omissão indevida de ato de ofício, condescendência criminosa, improbidade administrativa, erro grosseiro e outros ilícitos penais, funcionais e administrativos.
Na prática, o pedido é para que PGR e PF investiguem se Campos Neto, ou outros envolvidos, deixaram de agir mesmo após o recebimento de informações formais sobre a elevação do risco no Banco Master.
Preservação de provas
Além da investigação, Lindbergh pede a preservação imediata de provas no Banco Central.
O objetivo é resguardar documentos e registros ligados ao caso, sobretudo eventuais comunicações do FGC e da Febraban. A solicitação inclui ofícios, e-mails institucionais, agendas, atas, registros de reuniões, notas técnicas, pareceres, despachos, mensagens funcionais e metadados eletrônicos.
BC, FGC e Febraban podem ser cobrados a se manifestar
A notícia de fato também pede que o Banco Central informe se recebeu comunicação formal sobre o avanço das vendas de CDBs arriscados do Banco Master, indicando datas, protocolos, tramitação interna, providências adotadas e os nomes dos agentes públicos que tiveram acesso ao material.
O deputado também quer que FGC e Febraban sejam oficiados para confirmar se enviaram os alertas e encaminhar cópia integral dos documentos, com informações sobre datas, destinatários e eventual resposta recebida.
Campos Neto pode ser ouvido
A peça ainda pede a identificação da cadeia de comando e da área técnica do Banco Central que tiveram contato com os documentos.
Também solicita a oitiva de Roberto Campos Neto, de representantes do FGC, da Febraban e de servidores e dirigentes do BC ligados ao caso.
BC de Campos Neto disse estar tudo ‘ok’ com o Master quando alertado pela PF
Documentos obtidos e publicados pelo SBT News, nesta quarta-feira (19), revelam que o Banco Central, durante a gestão de Roberto Campos Neto, indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), ignorou alertas críticos da Polícia Federal sobre o Banco Master meses antes da instituição protagonizar o que investigações apontam como a maior fraude bancária da história do país. Em julho de 2024, a PF enviou um ofício à autarquia detalhando suspeitas de que o empresário Nelson Tanure seria o “dono oculto” do banco, operando através de paraísos fiscais. A resposta do BC, no entanto, foi de que as denúncias já haviam sido analisadas e arquivadas.
A íntegra do documento, enviada ao delegado Gleydson Machado Calheiros, da Delegacia de Repressão à Corrupção e Crimes Financeiros de São Paulo, mostra que o BC minimizou os riscos. A autoridade monetária afirmou que as suspeitas sobre a cadeia societária do Master, que envolveria recursos da empresa Aventtti Strategic Partners, nas Bahamas, eram de conhecimento da casa desde 2023, mas que não viu necessidade de abrir procedimentos específicos.
Blindagem interna e servidores investigados
O Banco Central justificou o arquivamento baseando-se em documentos fornecidos pelos próprios representantes de Daniel Vorcaro, o então controlador oficial do Master. Segundo o ofício, quatro departamentos internos (Desup, Derad, Deorf e Desuc) deram o aval para as operações de aumento de capital da instituição, alegando que a fiscalização era feita de forma “contínua”.
Contudo, investigações conduzidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) lançam uma sombra sobre essa “análise técnica”. Dois nomes da cúpula do BC na época são agora alvos centrais da PF:
- Paulo Sérgio Neves de Souza: Ex-diretor de Fiscalização.
- Belline Santana: Ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária (Desup).
Ambos estão afastados, usam tornozeleira eletrônica e são suspeitos de prestar “consultoria” informal a Daniel Vorcaro em troca de pagamentos. Mensagens encontradas no celular de Vorcaro mostram o banqueiro pedindo ajuda direta a Paulo Sérgio para destravar negócios que estariam sendo “atravancados” pela autarquia.
O colapso e o silêncio
A postura de “normalidade” do BC durou pouco. Apenas quatro meses após o ofício enviado à PF garantindo que estava tudo ‘ok’, o Banco Central interveio e liquidou o Master em novembro de 2025. O ex-presidente Roberto Campos Neto, que deixou o cargo no final do ano passado, passou então a não comentar o caso. A desculpa para tal situação é uma versão que corre entre os mais chegados da gestão passada alegando que o tal documento da PF foi respondido por um coordenador e não teria chegado ao conhecimento da diretoria colegiada.
O Banco Central informou, por meio de sua assessoria, que não comenta informações que correm sob sigilo. Enquanto isso, os servidores envolvidos respondem a sindicâncias que podem resultar em demissão, enquanto a PF aprofunda a investigação sobre como uma estrutura de “donos ocultos” e offshores conseguiu operar sob os olhos da principal autoridade financeira do país.
