Bem em cima da hora, Donald Trump recuou de sua mais recente ameaça – dessa vez a de destruir por completo a civilização iraniana, herdeira do milenar Império Persa.
Trump aceitou a proposta do Paquistão para um cessar-fogo de 15 dias, durante os quais seria negociada a paz definitiva entre Estados Unidos, Israel e Irã.
A mais significativa concessão feita pelo Irã foi a de manter aberto o Estreito de Ormuz à navegação de todos os países durante esses 15 dias. O Irã, apesar dessa concessão, continuaria presumivelmente com o poder de voltar a fechar esse estreito, que responde pelo tráfego de mais de 20% da produção petrolífera mundial.
O Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Peter Hegseth, afirmou logo depois do anúncio do cessar-fogo que o Irã tinha se comprometido a abandonar seu programa de enriquecimento de urânio. Mas o Irã não confirmou isso. Na sexta-feira começam, em Islamabad, no Paquistão, as negociações diretas com os Estados Unidos. O Irã continua com o controle estratégico do Estreito de Ormuz e pode fechá-lo a qualquer momento se as negociações fracassarem.
Outro poder que o Irã parece ter conservado é o da longa distância que pode ser percorrida por seus mísseis. Há dias, o Irã lançou um míssil que atravessou 4 mil quilômetros e atingiu a base militar americana no arquipélago de Diego Garcia, no Oceano Índico. Isso significa que ele pode atingir diretamente o território de Israel e também o território das bases americanas situadas em toda a região.
Nas negociações que vão começar no Paquistão, os Estados Unidos apresentarão suas reivindicações e o Irã, as suas. Ambas contarão com grande poder de fogo. O dos Estados Unidos é o da força de seu armamento, de seus mísseis e até de armas atômicas táticas que já foram mencionadas por partidários de Trump nos Estados Unidos. O poder do Irã será principalmente geopolítico – o controle do estreito de Ormuz que pode facilmente bloquear a qualquer momento. Além disso, o Irã dispõe desses mísseis que podem alcançar 4 mil quilômetros de distância.
O Irã conta também com a mobilização de seu povo. Nas horas anteriores à do iminente ataque americano, milhares de iranianos cercaram instalações elétricas que poderiam ser destruídas pelo bombardeio. Esse escudo iraniano reunia não só apoiadores do regime dos aiatolás, como também muita gente que detesta esse regime, mas que considera mais importante a defesa da soberania nacional. Seria um banho de sangue, um ato genocida, os Estados Unidos bombardearem instalações cercadas por milhares de iranianos civis que não têm nada a ver com a guerra, mas não querem ver violada a soberania de seu país. O estreito de Ormuz e os mísseis de longo alcance completam esse quadro de defesa do território iraniano.
Para os comandos militares americanos, que não são possuídos pela insensatez de Trump e seus auxiliares civis, essa Guerra do Irã pode ser a que não é possível ganhar, nem no grito, nem pelos bombardeios. Essa pode ser uma guerra como a do Vietnã, 60 anos atrás, quando os Estados Unidos chegaram a ter meio milhão de homens no campo de batalha e foram destruídos pelos guerrilheiros vietcongs.
A memória dos militares americanos é muito mais viva que a da turma de Trump. E não esqueceu os milhares de esquifes com americanos mortos que desembarcavam nas bases aéreas americanas para serem enterrados. A sociedade americana hoje talvez não esteja tão revoltada contra a guerra como a sociedade americana da época do Vietnã – quando jovens estudantes queimavam os seus certificados de convocação e mobilização militar, dispostos a cumprir as penas mais severas, mas não seguir para a Indochina.
Assim como deu um ultimato ao Irã, Trump pode ter recebido uma advertência dos militares americanos equivalente a esse ultimato.
(*) Por José Augusto Ribeiro – jornalista e escritor, é colunista do Jornal Brasil Popular com a coluna semanal “De olho no mundo”. Publicou a trilogia A Era Vargas (2001); De Tiradentes a Tancredo, uma história das Constituições do Brasil (1987); Nossos Direitos na Nova Constituição (1988); e Curitiba, a Revolução Ecológica (1993); A História da Petrobrás (2023). Em 1979, realizou, com Neila Tavares, o curta-metragem Agosto 24, sobre a morte do presidente Vargas.
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