Adeli Sell
Voltando ao livro de Mary del Priore, como já falamos a autora fala de “uma história”, ou seja, ela não teve a pretensão de colher tudo. Ela apanhou o essencial. Sigamos.
Tempos novos para os velhos
O primeiro dicionário nosso (1832) dizia que “velho” é “o que vai declinando na idade”.
D. Pedro II com suas barbas brancas foi vista por uma americana com “sua fisionomia preocupada e um pouco envelhecida. Tinha 40 anos e já parecia idoso.
A velhice, um país.
Velhos vestidos com casacas escuras, chapéu8 de palha, caixa de rapé no bolso, batiam nos escravos e filhos com bengala.
Quem eram? Nâo era o povo. Era a classe mais abastada.
O consumo entrava na vida dos velhos. Já havia loteria. O sogro de Mauá morreu aos 100 de uma queda de cavalo. E havia velhotas que namoravam as escravas e as mulatas.
Velhos, papel e tinta.
O tesouro dos velhos era o renome, a fama e o conceito.
Houve censo em ‘872: um número não descartável de mai9ries de cem anos.
Nem na época que inventou o romance romantizou a velhice. Houve um conflito geracional com moços ocupando cargos antes confiados a velhos experientes.
Era o moço-velho contra os velhos-moços. Velhos reclamavam que criançolas saídos das escolas de direito, sem conhecimentos e sem experiências, vinha para anarquizar as províncias do Império.
Era começo do fim do patriarcado e o surgimento do individualismo.
O papel da memória e os patriarcas
Nabuco não queria nem ver suas fotografias. “Meus retratos me envelhecem muito e me deprimem”.
O que se lê são tempos em que a velhice é ridícula e deprimente. Está nos relatos e na literatura.
Os patriarcas trabalhavam duro para fazer fortunas para os filhos e netos. Dizia um ditado: “as vantagens adquiridas pelo mérito dos avós se perdem pelo demérito dos netos”.
O cotidiano do velho no Império
A família seguia a força permanente, disseminadora de valores, entre os quais o “paternalismo”, símbolo do homem protetor e provincial, mas também ditatorial e por vezes sádico.
No sertão surgiu o “velho coronel”, proprietário de terras, com dúzias de agregados a quem permitia um roçado, um pasto, um pedaço de terra,
Na virada do Oitocentos, a autoridade do patriarca começa a se abalar.
Dores de velhos
Os personagens de Machado de Assis foram contaminados pela idade e solidão do autor.
Havia queixas de dores. Havia melancolia, o velho Rio desaparecia.
Solidão era ligada ao envelhecer. Na literatura surgem imagens tristes da velhice.
Na velhice ninguém podia ser feliz. Os velhos não sabiam mais onde estavam.
Matronas: alegria com rugas
Matronas Velhos tinham que cuidar dos pais, da sobre, das cunhadas.
As avós eram vistas como seres sem sofrimento, estavam sempre nos afazeres das casas. Elas parecem mais felizes, menos amarguradas.
Itinerário da solidão: as solteironas
A “marca” era dolorosa: egoísta, feia e fria. Preocupadas com a salvação de sua alma, eram tristes e sisudas. E assim excluídas.
Outros velhos: ex-escravos e mestiços pobres
No final do Império, o Brasil já era pardo.
Mas antes, por 1840, os escravos estavam envelhecendo. Levas de imigrantes já tinham vindo, outros estavam por vir.
Entre os escravos as taxas de mortalidade eram maiores que as da natalidade.
Nova gente, novos velhos.
A boa morte era uma das preocupações dos homens e mulheres daquele tempo.
Velhice e pobreza
Velhos e velhas miseráveis ocupavam a agenda social dos governos.
As famílias carentes que moravam nos centros das capitais foram empurradas para a periferia.
Preocupações com a senescência deram origem às geriatrias.
Adeli Sell é professor, escritor e bacharel em Direito.
