Entenda institucionalização do Brasil, o papel do Estado na construção da soberania nacional e os impactos da financeirização sobre os recursos estratégicos do país
Há um século, em 1926, o mundo foi qualificado como dos “Anos Loucos”, a música era o jazz, as mulheres começavam a luta por seus direitos e surgia a televisão, em Londres. O Brasil se retirava da Liga das Nações, era inaugurado o Palácio Tiradentes, no Rio de Janeiro, nova sede do Congresso Nacional, e a Coluna Prestes continuava sua marcha errática pelo interior do País. O presidente Washington Luís assumia com um país em crises de toda ordem. Quatro anos depois, em 1930, uma Revolução Nacionalista levava Getúlio Vargas, o Estadista, ao poder. Iniciava-se, em 3 de novembro, a Era Vargas que duraria até 15 de março de 1979, quase meio século. Os analfabetos eram 63% da população em 1930, 31,9% em 1980 e, em 2025, 5,3%. Os brasileiros com formação universitária nos mesmos anos eram: 0,3%, 3,5% e 20,5%. Mas existe uma informação fundamental que, não sendo quantificável, qualifica o país: sua institucionalização.
O que significa a institucionalização de um país?
O modo como se construiu o Estado Nacional.
Há Estados soberanos, estados colonizados e estados imperiais, estes últimos são aqueles que detêm colônias, com subordinação política, militar ou econômica, ou de todas estas.
Getúlio, o Estadista, construiu o Brasil soberano; Lula, o metalúrgico, o mantém colônia das finanças apátridas.
Foi durante o governo Vargas que se criaram ou consolidaram:
- Ministério da Educação, Ministério da Saúde, Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, Ministério da Aeronáutica;
- Instituto do Açúcar e Álcool, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Conselho Nacional do Petróleo, Conselho Nacional da Indústria, Departamento de Administração e Serviço Público, Instituto de Resseguros, Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial; Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia;
- Companhia Siderúrgica Nacional, Companhia Vale do Rio Doce, Fábrica Nacional de Motores, Companhia Nacional de Álcalis, Companhia Hidro Elétrica do São Francisco, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, Banco do Nordeste, Petrobrás; e
- Carteira de Trabalho, Código Eleitoral, Nacionalização dos Recursos Hídricos e Jazidas Minerais, Consolidação das Leis do Trabalho
Já Lula teria mantido ou ampliado a alienação do Estado e das riquezas naturais brasileiras.
As transições do Brasil e do mundo no século 20
O Brasil surge, no raiar do século, como nova república na América Latina, pois deixara de ser monarquia em 1889, uma década antes. Porém, ainda havia colônias ou países ocupados na América Latina. Cuba e Porto Rico estavam ocupados pelos Estados Unidos da América (EUA), assim como algumas ilhas do Caribe. Eram colônias da França, da Holanda e do Reino Unido as três Guianas e ilhas do Golfo do México.
Getúlio surge da necessidade apresentada por militares e proprietários brasileiros de industrializar o País e dar eficácia à Lei Áurea (1888), o que exigia um novo Brasil, com outro poder dirigente.
Assim, desde o início de seu governo, ainda como presidente do Governo Provisório, Getúlio passou a ser combatido pelas forças do atraso, da colônia, dos estrangeiros e de seus asseclas aqui nascidos. A contrarrevolução de 1932 é apenas um exemplo. Esta oposição estava, inclusive, em muitos que assumiam funções e encargos no Governo. Um exemplo: Gaspar Dutra. Outro: Góes Monteiro. E foram muitos mais, movidos pela ambição, ideologias, ignorância ou covardia.
O mundo não era apenas dos Anos Loucos. Tinha início a guerra pelo petróleo, que ainda hoje perdura, associada ao expansionismo territorial sionista, envolvendo fortemente o Irã. O momento marcante foi o Acordo de Achnacarry (17 de setembro de 1928), firmado na Escócia entre os representantes da Standard Oil, da Shell e da Anglo-Persian (futura British Petroleum), para controlar os preços e as produções do petróleo, berço do Cartel das Sete Irmãs (Exxon, Mobil, Chevron, Texaco, Gulf, Royal Dutch-Shell e British Petroleum).
Getúlio estava atento. Criou, em 1938, o Conselho Nacional do Petróleo e, em 3 de outubro de 1953, a Petrobrás (Lei 2004), fato que não poucos atribuem ao acirramento oposicionista que o levou ao suicídio.
Sua morte não foi um gesto de renúncia, mas este habilíssimo e inteligentíssimo político entendeu que levaria muito mais tempo, do que sua capacidade septuagenária permitiria, a luta pela industrialização do Brasil e pela defesa de seus recursos naturais.
A defesa dos recursos naturais merece breve consideração. Nós, os seres humanos, surgimos num período de glaciações. Os locais habitáveis não eram muitos, razão de sermos quase todos originários da África, que tinha terras, calor e umidade entre os paralelos de 30º ao norte e ao sul da linha do Equador. Fomos muitos mais do que os homo sapiens que se desenvolveram a partir do homo heidelbergensis (300 mil anos), sendo mais conhecidos os neandertais, os denisovanos e os floresiensis. Porém, uns sobreviveram, outros pereceram, e a antropologia nos dá algumas respostas; dentre elas, a capacidade de manter um território onde houvesse alimentos, sementes, vegetais e caça adequada aos seus meios de luta.
Peritos de equipes arqueológicas trabalham para identificar ossos de animais, vestígios botânicos, esporos de pólen, sedimentos, biomarcadores fecais e resíduos orgânicos, a fim de reconstituir a adaptação humana e os climas e ambientes mutáveis do passado.
Neste aspecto, nada mudou. Os países que se desenvolvem são os que detêm os recursos energéticos, minerais e os espaços agricultáveis.
Até a década de 1960, não se falava em transição energética nem nos efeitos climáticos do petróleo. Foi com a criação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), que passou a atuar efetivamente na década seguinte, que surgiram as “crises do petróleo” e todos os ataques delas decorrentes. As Sete Irmãs haviam perdido o poder sobre as reservas existentes. Ainda tentaram a farsa do Mar do Norte, mas apenas a Noruega, de pequena população e estatizando suas reservas, conseguiu se beneficiar, sem proveito para o cartel.
E o petróleo, ainda hoje, com toda a evolução tecnológica e a energia nuclear, responde por 56% do consumo de energia no planeta.
Em 2025, a demanda mundial de energia correspondeu a 300 milhões de barris de óleo equivalente por dia. De acordo com as fontes produtoras, esta demanda foi atendida por:
- Petróleo (óleo mais gás natural): 56%
- Carvão Mineral: 28%
- Total Fóssil: 84%
- Nuclear: 4%
- Todas as demais (biomassa, solar, eólica e hidrelétrica): 12%.
O Brasil detém reservas de petróleo suficientes para todo consumo nacional por quase mais um século, mas vai alienando suas reservas, fatiando a Petrobrás para particulares estrangeiros, que nem se preocupam com a produção que melhor preserve os reservatórios.
Também as denominadas terras-raras (neodímio, praseodímio, disprósio), que o Brasil dispõe da segunda maior reserva do mundo e que Lula acaba de entregar aos EUA; o nióbio, que o Brasil detém 94% das reservas mundiais, e políticos mineiros associados a Fernando Henrique Cardoso entregaram para a Inglaterra lucrar, através da família de um empresário brasileiro; o trio das baterias (lítio, cobalto e níquel) que há em abundância no Brasil, mas é explorado por empresas estrangeiras; a grafita, que o Brasil possui a segunda maior reserva mundial, mas não explora em prol do povo brasileiro. Enfim, todos governantes a partir de 1980 só agiram contra a utilização dos recursos minerais do Brasil para favorecer o País, e sim para enriquecer os capitais estrangeiros.
A totalidade das áreas de lavoura cultivada e de pastagem que está dentro das propriedades privadas ocupam cerca de 351 milhões de hectares, 41% do território nacional. As áreas públicas se destinam a Unidades de Conservação e a Terras Indígenas (260 milhões de hectares), a assentamentos rurais, geralmente de baixa produtividade, e a pastagens públicas ou coletivas, existentes na Amazônia.
O público e o privado
Com o fim da Era Vargas (1979), veio a maldição do público, associada aos governos militares, à ditadura, à violência e ao autoritarismo estatal. Na década de 1980, dois eventos dominaram as transformações civilizacionais: a desregulação, restrita às finanças, e o novo decálogo econômico neoliberal (1989), que tomou o nome de Consenso de Washington.
Com as finanças livres e soltas pelo mundo, os Estados perderam o controle das circulações financeiras, o número de paraísos fiscais decuplicou em menos de 20 anos, e aumentou geometricamente a corrupção pela facilidade de compra e venda dos caracteres.
O Consenso de Washington promoveu emendas constitucionais que reduziram, quando não eliminaram, direitos trabalhistas e previdenciários, a assistência social pública e toda ação estatal, inclusive aquelas que tradicionalmente lhes eram atribuídas, como o controle da moeda, a defesa nacional e a proteção dos recursos nacionais. No lugar do Estado foi colocado o “Mercado”, este apenas financeiro. Seria como subordinar as decisões políticas de um país à especulação e aos interesses escusos que movimentam as bolsas de valores em todo o mundo.
Aliás, o “todo mundo” passou a ser o objetivo da globalização, que eliminava as nacionalidades: nada de pensar e muito menos agir fora da manada. As culturas nacionais foram amalgamadas aos interesses da comunicação de massa, resultando numa falta de criatividade que homogeneíza a utilização de recursos televisivos, radiofônicos, impressos, digitais e virtuais.
O mundo ficou intelectualmente mais pobre, como se verifica nos próprios discursos e projetos políticos.
E o Estado foi sendo privatizado ou simplesmente deixando de atuar em inúmeras áreas que fizeram o Brasil, entre 1965 e 1979, obter o maior crescimento, não apenas econômico, mas também tecnológico, social e de atendimento médico, de toda a sua história.
Onde está o Proálcool? A Central de Medicamentos? As estradas integradoras da Região Norte? A Petrobrás dando assessoramento em petróleo e energia a países africanos?
O mundo de hoje, 2026, é o dos juros altos, dos ganhos dos bancos, da concentração de renda e do medo do crime organizado.
Por que este crescimento do crime? Por que a insegurança que cerca a vida de todos, até na aplicação financeira da classe média, para não dizer de um salário no fim do mês e do desenvolvimento dos filhos fora das drogas e da violência? Porque o poder hoje não está mais no Brasil, na justiça brasileira, na segurança pública ou nas forças armadas. Todas as atividades, públicas e privadas, têm em suas direções representantes das finanças apátridas e da ideologia neoliberal. Basta ver que os proprietários dos empreendimentos são descritos como “holding de instituições” ou “associação de gestores de ativos”.
E chega-se a tal descalabro que os partidos políticos perdem seus projetos de país, suas ideologias e seus líderes, que hoje estão num partido e amanhã em outro, de propostas tão antagônicas que nem mesmo um político volúvel é capaz de defender.
E, assim, o Brasil retrocede à Primeira República, como passo para voltar a ser colônia, não de um país, mas dos capitais apátridas residentes em paraísos fiscais espalhados pelo mundo.
O que será dos brasileiros que estudam numa escola particular, pois as públicas estão fechando por falta de orçamentos que as mantenham? Dos brasileiros que procuram um trabalho que não os obrigue a corromper nem ser corrompidos? Do país onde o cidadão decente, que quer viver com dignidade, é considerado um palhaço, um homem distante do seu tempo, quando havia um Estado para o qual colaborava e sabia poder contar?
Corre como boato que um dos prováveis candidatos à Presidência, em outubro de 2025, afastou-se por quase um mês do Brasil para negociar minérios brasileiros com um governo estrangeiro, enquanto Lula entrega, em 2026, à empresa estadunidense USA Rare Earth as terras raras de Minaçu, em Goiás.
Não havendo o Estado Nacional, construído e mantido por todos nós, há realmente o que temer, e isso explica ser o Primeiro Comando da Capital (PCC) mais do que um grupo criminoso: uma multinacional do crime, com representantes em diversos países, o que fortalece a ideia de Donald Trump de classificá-lo como movimento terrorista.

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