Rumo a uma paz desarmada e desarmante: “A paz esteja com todos vós.”
Todos os anos o Papa prepara um texto especial para o primeiro dia do ano, reconhecido como Dia Mundial da Paz. Em 2026, a primeira comunicação do Dia Mundial da Paz sob a insígnia do Papa Leão XIV reconhece que a paz se constrói por meio do desarmamento [3]. A tradicional saudação “A paz esteja com todos vós” se apresenta como expressão que ultrapassa a dimensão de ensejo e assume protagonismo em tempos tão conturbados.

Imagem do Papa Leão XIV em sua primeira aparição aos fiéis. Foto: Reuters /Yara Nardi
Ao longo da Mensagem do Papa Leão XIV para o LIX Dia Mundial da Paz, a paz é reiteradamente vinculada à vida concreta dos povos e, de modo especial, à situação daqueles que sofrem os efeitos mais brutais da desigualdade global. O Papa denuncia a normalização da guerra, o crescimento das despesas militares e a disseminação de uma cultura do medo que legitima a violência como mecanismo de segurança. Nesse horizonte, afirma que “a justiça e a dignidade humana estão, mais do que nunca, expostas aos desequilíbrios de poder entre os mais fortes”, advertindo que tais assimetrias impedem que amplos setores da humanidade vivam plenamente.
A paz, nesse sentido, não pode ser dissociada das condições materiais de existência, pois a privação, a fome e a precarização da vida negam, na prática, a promessa evangélica de que todos tenham vida e a tenham em abundância (cf. Jo 10:10).
Escolher a paz em um ano desafiador, que iniciou com guerras em curso e graves violações do Direito Internacional, personifica o ideal cristão e posiciona a diplomacia papal na realidade histórica. Leão XIV é o líder cristão do mundo com mais seguidores que declaradamente defende a paz.
O tom profético do Papa Leão XIV se confirmou necessário em 3 de janeiro de 2026, quando forças militares estadunidenses invadiram o território venezuelano, realizaram bombardeios que vitimaram dezenas de pessoas e sequestraram do presidente eleito da República Bolivariana da Venezuela, Nicolás Maduro. O ato caracterizou o início de uma escalada bélica de enorme gravidade, insinuando conflitos na Sul-América e constituiu violação explícita do direito internacional.
A invasão do território e o sequestro de um chefe de Estado em exercício explicitam a lógica imperialista que nega a soberania nacional e subordina a autodeterminação dos povos a interesses geopolíticos externos, convertendo a força militar em instrumento ordinário de intervenção pela força, substituindo a política [4].
Nesse contexto desafiador, em que a guerra é também uma guerra ideológica, o Papa Leão XIV manifestou-se prontamente no sentido da defesa da soberania venezuelana, afirmando a necessidade de “garantir a soberania do país” e de “assegurar o estado de direito consagrado em sua Constituição” [5].
De modo coerente com a Doutrina Social da Igreja, o Papa Leão XIV relembra que são “os mais pobres que sofrem por causa da difícil situação econômica”, agravada por mais de uma década de embargos econômicos.
O foco nos mais pobres situa a compreensão de fé profundamente encarnada na realidade material, segundo a qual a violência imperialista neoliberal e o cerco econômico recaem de forma desproporcional sobre os pobres, negando-lhes as condições mínimas para viver com dignidade.
A denúncia do sequestro de Nicolás Maduro, da violação da soberania e da escalada militar, articulada à defesa dos pobres, reafirma o posicionamento de que nenhuma ordem internacional pode ser considerada legítima quando se sustenta sobre a negação da vida e da autonomia dos povos.
Os pronunciamentos de Leão XIV ao longo dos primeiros meses de 2026, como esse sobre o sequestro de Maduro, consolidaram uma posição pública de confronto moral diante da escalada militar impulsionada pelo governo Trump, especialmente em relação à invasão do Irã e ao risco crescente de uma guerra em dimensão mundial. Em sucessivas intervenções divulgadas pela Vatican News, o Papa denuncia a perversa naturalização da guerra e a lógica política fundada na ameaça permanente.
Em março, diante dos bombardeios conduzidos pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã, afirmou que “A estabilidade e a paz não se constroem por meio de ameaças recíprocas, nem com armas, que semeiam destruição, dor e morte, mas somente por meio de um diálogo razoável, autêntico e responsável” [6].
Em abril, após novas ameaças estadunidenses contra o povo iraniano, Leão XIV voltou a advertir que “a ameaça contra todo o povo iraniano é inaceitável” e apelou para que “todas as pessoas de boa vontade a buscar sempre a paz e não a violência, a rejeitar a guerra, especialmente uma guerra que muitos definiram como injusta, que continua a se intensificar e que não resolve nada” [7]. Ao insistir que os conflitos contemporâneos alimentam “uma crise econômica mundial, uma crise energética e uma situação de grande instabilidade no Oriente Médio”, o Papa desloca a questão da paz do plano abstrato das declarações diplomáticas para o terreno concreto das consequências materiais produzidas pela guerra sobre os povos [8].
Essa posição papal assumiu progressivamente o caráter de uma crítica direta à racionalidade política do governo Trump, fundada na militarização das relações internacionais e na legitimação religiosa da violência. Leão XIV denunciou aquilo que definiu como um “delírio de onipotência”, expressão utilizada para caracterizar a pretensão imperial de resolver conflitos mediante destruição militar e intimidação global [9].
Mesmo após ataques públicos do presidente estadunidense contra sua postura em defesa da paz, o Papa reiterou que sua missão consistia unicamente em espalhar a mensagem do Evangelho da paz e reafirmou que a Igreja não pode aceitar a instrumentalização de Deus para justificar guerras, invasões e ameaças nucleares.
Ao convocar os líderes mundiais a renunciarem à guerra e retornarem à mesa de negociações, Leão XIV reafirma uma compreensão da política internacional fundada na dignidade humana, na soberania dos povos e na recusa da lógica imperial que transforma populações inteiras em territórios sacrificáveis diante dos interesses estratégicos das grandes potências.
Nesse sentido, a paz defendida na Mensagem do Santo Padre Leão XIV para o LIX Dia Mundial da Paz é a paz do Cristo ressuscitado. É caracterizada na mensagem como “desarmada e desarmante, humilde e perseverante”. Uma paz que profetiza diante do tempo histórico em que vivemos, supera o paradigma dos equilíbrios das relações de força e dos pactos estratégicos.
Uma tal paz que deve ser fundada no amor incondicional de Deus dirigido a toda a humanidade, e que se contitui presença ativa, instaurando um horizonte que orienta escolhas pessoais e coletivas em direção ao não-conflito. A paz que ultrapassa a perspectiva de um objetivo a ser conquistado.
Nesse sentido, há a oposição simbólica entre luz e trevas no discurso é mobilizada para indicar que a experiência da paz exige discernimento e uma adesão consciente pois, “para não afundarmos na escuridão, é necessário ver a luz e acreditar nela”. A consequência do “esquecimento” dessa luz é a perda do realismo autêntico, que é substituído por narrativas que eliminam a esperança e reduzem o mundo ao medo e à ameaça constante.
Desse modo, a busca pela paz ultrapassa a abstração espiritual como força capaz de iluminar a inteligência, resistir à violência e vencê-la, conservando uma dimensão de permanência que contrasta com a transitoriedade do mal. Tal deslocamento favorece uma percepção distorcida da realidade, na qual se obscurece a beleza do outro e se ignora a ação contínua da graça nos corações humanos.
A partir da tradição cristã, pode-se estabelecer a distinção entre a paz oferecida por Cristo e aquela proposta pelo mundo que aprofunda essa compreensão. Ao afirmar “Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz” (Jo 14,27), evidencia-se que o caminho não violento constitui o núcleo mais desconcertante dessa proposta.
A ordem dirigida a Pedro: “Mete a espada na bainha”; sintetiza uma luta desarmada desenvolvida em circunstâncias históricas concretas, políticas e sociais. Tal postura exige que os cristãos reconheçam tanto a radicalidade dessa escolha quanto as tragédias históricas nas quais, por vezes, se tornaram cúmplices, sendo chamados a uma ação consciente fundada na misericórdia.
Apesar de muitos corações se mostrarem abertos à paz, difunde-se um sentimento de impotência diante da instabilidade crescente do mundo contemporâneo, especialmente evidenciados nos conflitos no Leste Europeu, no Oriente Médio e, agora, na América Latina. Quando a paz é deslocada para o plano da utopia inalcançável, torna-se aceitável sua negação prática, legitimando a agressividade nas relações privadas e públicas e naturalizando a preparação permanente para a guerra.
Essa lógica manifesta-se de forma aguda no plano político internacional, no qual a segurança passa a ser definida prioritariamente pela capacidade de resposta armada. O aumento contínuo das despesas militares globais, que em 2024 alcançaram 2,72 trilhões de dólares, equivalentes a 2,5% do PIB mundial, um aumento de 9,4% em termos reais em relação a 2023 e a maior alta anual desde pelo menos o fim da Guerra Fria,confirma uma tendência de rearmamento sustentada pelo medo e pela desconfiança [10].
Na comunicação de massas, políticas educacionais e campanhas publicitárias contribuem para difundir a percepção de ameaça constante, reduzindo a resistência à dimensão armada. As pessoas estocam alimentos, a dissuasão nuclear é indicada como expressão que permite certa razoabilidade diante do conflito. Na verdade, é síntese extrema da irracionalidade de uma ordem fundada no domínio da força.
A advertência do papa João XXIII sobre o terror permanente das armas nucleares, um dos pilares da encíclica Pacem in Terris, Paz na Terra, publicada em abril de 1963, poucos meses após a Crise dos Mísseis de Cuba, pesa sobre os povos [11].
Nesse texto, o papa João XXIII indicava a “Psicose do Medo”, pois a corrida armamentista reflete uma “psicose do medo”, que obriga os povos a viverem sob um terror constante, em contraposição à “Ilusão da Segurança”, diante da lógica de que a paz pode ser mantida através de um equilíbrio de armamentos – o “equilíbrio do terror”.
João XXIII defendeu que a paz verdadeira não consistia na igualdade de poder de destruição, mas sim na confiança mútua entre as nações.
Já em 2022, o Papa Francisco, por ocasião do início da Conferência da ONU sobre a revisão do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, tuitou que “o uso de armas nucleares, assim como sua posse, é imoral” e que “tentar assegurar a estabilidade e a paz através de uma falsa sensação de segurança e um ‘equilíbrio de terror’ inevitavelmente leva a relações envenenadas entre os povos e dificulta o verdadeiro diálogo”, reiterando a posição da Igreja contra as armas atômicas [12].
Os desenvolvimentos tecnológicos recentes, especialmente a aplicação da inteligência artificial no âmbito militar, intensificam esse cenário ao favorecer processos de desresponsabilização ética. A delegação de decisões relativas à vida e à morte às máquinas instaura uma espiral de destruição sem precedentes, atacando os fundamentos do humanismo jurídico e filosófico que sustentam a humanidade.
A inseparabilidade entre a dimensão espiritual e a dimensão política da paz emerge como elemento decisivo. As tradições religiosas são convocadas a resistir à instrumentalização da fé para legitimar violência, nacionalismos e imperialismos, promovendo o diálogo ecumênico e inter-religioso como linguagem de encontro. Aqueles que exercem responsabilidades públicas são chamados a fortalecer a diplomacia, o direito internacional e as instituições supranacionais como caminhos desarmantes para a resolução dos conflitos.
A escolha ativa de uma paz verdadeiramente desarmante e desarmada, cuja força se manifesta na bondade e na misericórdia – elementos estruturantes do Evangelho -, é necessária a cada um e a cada uma de nós.
A vitória daquele que venceu a morte e pregou o amor manifesta-se historicamente por meio da perseverança de testemunhas que mantêm viva essa paz em contextos marcados por sofrimento e por conflitos. Sejamos nós essas testemunhas.
“Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.”
[1] Ouvidora do Ministério das Mulheres, advogada e doutoranda em Direitos Humanos e Cidadania pela Universidade de Brasília e presidente da Comissão Justiça e Paz de Brasília.
[2] Doutorando em Direito na Universidade de Brasília (UnB). Mestre em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista, câmpus Marília (Unesp/Marília). Bacharel em Direito pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Membro da Comissão Justiça e Paz de Brasília. Agente da Pastoral Carcerária.
[3] A mensagem do Santo Padre Leão XIV para o LIX Dia Mundial da Paz está disponível na íntegra em https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/messages/peace/documents/20251208-messaggio-pace.html
[4] Acessível em:
https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/03/trump-diz-que-maduro-foi-capturado.html
[5] Acessível em: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2026-01/papa-leao-xiv-pos-angelus-venezuela-respeito-soberania.html
[6] Acessível em: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2026-03/papa-leao-xiv-angelus-apelo-paz-diplomacia-ira-om-conflitos.html
[7] Acessível em: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2026-04/papa-declaracao-castel-gandolgo-guerra-7-abril.html
[8] Acessível em:
[9] Acessível em:
https://www.theguardian.com/world/2026/apr/11/pope-leo-us-israel-iran-war
[10] Aumento sem precedentes nos gastos militares globais, com forte crescimento nos investimentos na Europa e no Oriente Médio. Acessível em: https://www.sipri.org/media/press-release/2025/unprecedented-rise-global-military-expenditure-european-and-middle-east-spending-surges
[11] Acessível em:
[12] Acessível em: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2022-08/o-papa-o-uso-de-armas-nucleares-imoral.html
(*) Por Ana Paula Daltoé Inglêz Barbalho [1] e Matheus Daltoé Assis [2]
