Em 2018, quase votei em Ciro Gomes. Diante da encruzilhada criada pela saída de Lula da disputa presidencial e pela ascensão de Jair Bolsonaro, a chamada “terceira via” parecia, para mim, uma alternativa possível para impedir a chegada da extrema direita ao poder. Havia Fernando Haddad, é verdade, mas o antipetismo seguia a todo vapor, alimentado diariamente pela imprensa, pelas redes sociais e pelos efeitos ainda recentes da Lava Jato. Naquele momento, muita gente passou a enxergar em Ciro Gomes uma saída racional para conter Bolsonaro sem precisar votar no PT.
O raciocínio parecia simples: Haddad não venceria Bolsonaro em um segundo turno, e insistir numa candidatura petista poderia facilitar o desastre.
Eu mesma embarquei nessa lógica. Sendo sincera, acreditava nas propostas de Ciro Gomes e pensava que, caso chegasse ao segundo turno e vencesse a eleição, poderia ser um bom presidente. Ainda assim, nos últimos dias da campanha, algo começou a me inquietar. Eu não conseguia ignorar a trajetória política e a ideologia partidária que sempre defendi. Depois de repensar meu voto inúmeras vezes, acabei retornando a Fernando Haddad, minha escolha inicial.
Minha intuição estava correta. Quem chegou ao segundo turno contra Bolsonaro foi Haddad, e não Ciro, como muitos previam. Restava então aos candidatos derrotados decidir qual posição assumiriam diante da nova fase da disputa. Ciro Gomes não se aliou a Bolsonaro, é verdade, mas também evitou um apoio claro ao candidato petista e, ao permanecer “em cima do muro” ajudou a empurrar o Brasil para o abismo onde esteve durante quatro anos.
Por isso, já não me surpreendem suas aproximações políticas mais recentes. A política brasileira sempre conviveu com figuras capazes de mudar de posição conforme os seus próprios interesses. O oportunismo político não nasceu agora. Basta lembrar que até mesmo Tancredo Neves, símbolo da redemocratização para parte da população brasileira, articulou sua candidatura no Colégio Eleitoral pelo PDS, partido herdeiro da Arena, enquanto defendia as eleições diretas para presidente. O mesmo poderia ser dito de Getúlio Vargas, ditador durante o Estado Novo e, ao mesmo tempo, transformado pela memória popular no “Pai dos Pobres” ao incorporar o discurso trabalhista e populista.
A política raramente se sustenta apenas sobre coerência ideológica. Com frequência, ela se move por alianças estratégicas e rearranjos de poder. No fim das contas, a maior ingenuidade do eleitor é acreditar que convicções políticas permanecem intactas quando o poder entra em cena.
