Maria Élida Machado
É hora do rush. O ônibus já saiu lotado do terminal. Parece que não há mais espaço, mas, a cada ponto, lota mais e mais. Adoro conhecer cidades andando de ônibus. Observar a paisagem que passa pela janela, ouvir as pessoas no ponto e dentro do ônibus, coladas umas às outras. Ocupo meu lugar preferencial, afinal, sou idosa e tenho que aproveitar esses pequenos confortos, pelo menos aqui no ônibus sou prioridade nos assentos. Vejo perto de mim um jovem ocupando um banco preferencial, ele está com fones de ouvido daqueles grandes, provavelmente ouve música, está de olhos fechados, acho que finge dormir para não ter que ceder seu lugar para um idoso. De pé está uma moça bonita vestida de terno alinhado, daqueles usados em serviços administrativos de grandes empresas ou escritórios de advocacia. Observo que usa uma mochila onde, provavelmente, carrega a marmita do dia, um lanche, talvez uma pequena necessaire para higiene bucal e um pouco de maquiagem. Certo que tem também um pacote de lencinhos umedecidos que é fundamental para sobrevivência no dia a dia de trabalho. Gosto de observar as pessoas no ônibus e fico imaginando o que elas carregam nas suas mochilas. A tal moça bonita deve carregar também um chinelo ou tênis que usou no intervalo para aliviar os pés. Ela usa sapato de salto alto e fino, deve estar com os pés latejando. Como pode uma pessoa sobreviver um dia todo se equilibrando em um salto alto? Nunca tive esta habilidade, depois de velha então, até já esqueci de como isso é possível! Agora passa no corredor uma mulher falando alto ao celular, todo mundo na volta tem que ouvir a conversa sobre um problema seu que houve no trabalho. Fala de uma fofoca que ocorreu no seu setor e um chamado de atenção que levou, segundo ela, injustamente, da gerência de pessoal. E tome bater papo com sua colega obrigando, sem noção, todos a participarem da sua encrenca do dia. O ônibus para em um ponto amplo, muita gente andando pra lá e pra cá, deve ser uma estação de conexão entre ônibus, trem, metrô, isso é muito comum nas grandes cidades. Desce um monte de gente, lá vai a coitada da mãe com uma criança uniformizada pela mão e um bebê grandão no colo. Ela carrega uma mochila cor de rosa, estufada, provavelmente cheia de roupas sujas da criança, que a tia da creche enfiou ali do jeito que deu. Desce rápido, o bichinho de pelúcia pendurado na mochila engancha duas ou três vezes em alguma coisa, até que ela consiga pôr o pé na calçada. Fico olhando e penso que aquela mulher vai pegar ainda outra condução, vai chegar em casa à noite, providenciar a janta para todos, depois de enfrentar o cheiro de roupa suja daquela mochila inchada. Ainda vai providenciar roupas e lanches para amanhã, dar um jeito na casa, colocar roupas de molho, atender cão e gato, lavar toda a louça, antes de ir deitar-se. Imagino que o seu marido também chegará cansado em casa, mas esse se deitará antes e, quando ela chegar ao quarto, ele já estará deitado, relaxando ao celular. Daqui pra frente o ônibus segue mais vazio, é possível ver melhor o corredor e os assentos do outro lado. E lá vem o vendedor de balas, salgadinhos e fones de ouvido. “eu podia estar roubando, eu podia estar matando…”, anda prá lá e prá cá agradecendo a atenção de todos, alguns compram seus produtos, ele faz referência a alguma passagem bíblica, pede bençãos de Deus a todos. Penso que o rapaz que lhe comprou um fone de ouvido é ateu, nem deu bola para a benção que recebeu. Lembro que nos metrôs essa situação é também muito frequente, vendedores de todo tipo andando entre as placas que estão nas paredes do trem: “proibido comércio de qualquer espécie no interior dos vagões, segundo a lei tal”. E a cena permanece, vendedores e seus clientes, com o cartaz de proibição ao fundo. Relaxo, observo todo mundo, praticamente todos ao celular, fantasio que estão lendo, os celulares substituindo os livros. Não quero aceitar que estão todos acompanhando youtubers, celebridades das redes sociais, que têm muito dinheiro no bolso e nenhum pensamento minimamente estruturado ou crítico, nada de fundamento a compartilhar. A cena me gera nostalgia, lembro o tanto de gente que vi nos metrôs e trens na Europa lendo livros na volta do trabalho. O ônibus chega ao ponto final, desço, olho em volta, acho que não há nada interessante para conhecer ali. Está escuro, parece que estou numa periferia da cidade, pouco movimento, o ambiente não me parece atrativo para um passeio. Volto para o ônibus, tomo meu assento preferencial e começo o trajeto de volta.
