Entenda as raízes históricas da democracia, neoliberalismo e os antecedentes políticos das eleições de 2026 no Brasil
A soberba europeia ensina que a democracia nasceu em Atenas, por volta do século 4 a.C. Nada disso. Até porque, em Atenas, não havia eleição: era o povo, reunido em praça pública, quem decidia os rumos do governo. Com um pouco mais de informação, sabe-se que a democracia surge nesse mesmo período, entre 552 a.C. e 489 a.C., mas na China — e com autor. Lá, ele era chamado Mestre Kong (Kong Fu Zi), nome que o padre jesuíta Matteo Ricci (1552-1610) levou para a Europa traduzido como Confúcio.
A filósofa francesa Anne Cheng (1955), em História do Pensamento Chinês (1997), escreve que, com Confúcio, ocorre um “salto qualitativo na reflexão do homem sobre o homem”, ao propor “pela primeira vez uma concepção ética do homem em sua integralidade e em sua universalidade”.
Todo o pensamento de Confúcio tem origem na instrução. Em certa medida, pode-se tratá-lo como um agnosticismo: tudo surge e se esgota no ser humano. Porém, o ensino é engajado; o conhecimento serve para dotar os homens de exigências morais que os tornem capazes de governar. Assim, a educação assume um sentido prático: habilitar o ser humano para o exercício do governo.
A educação é diretamente orientada para as responsabilidades políticasOs Analectos, livro 19, item 13
Hoje, a China se define como socialista com características chinesas, ou seja, reconhece-se confucionista e nacionalista, embora mantenha as designações comunista e socialista.
Seriam os brasileiros nacionalistas?
O Brasil, como toda a América, África e parte da Ásia, foi doutrinado pela Europa e pelo Oriente Médio. Do Oriente Médio veio principalmente a ideia da fragilidade humana, incapaz de seguir seu próprio rumo, verdadeira escrava dos deuses, que já foram muitos e foram unificados a partir do judaísmo. E esta ideia do divino ocupou a Europa.
Por outro lado, a Europa surgiu dos “homo” na evolução da espécie por volta de 400.000 anos, ou, talvez, até um tanto antes. A antropologia vem, cada vez mais, comprovando que o homem atual é um estágio de diversos seres, originários dos australopitecos/homo erectus, em contínuo processo de miscigenação.
Quase uma dezena de “linhagens” já foi identificada, algumas nem saíram da África, outras se encaminharam para Europa, dentre estas os neandertais, para Ásia foram os denisovanos e floresiensis. Mas não resta dúvida que se cruzaram, se miscigenaram formando os homens como os conhecemos hoje, que prosseguem se miscigenando. A ideia de superioridade racial foi uma das diversas construções colonizadoras.
E, em se tratando de colonização pós-romana, a Inglaterra tem especial posição. Vejamos, sinteticamente, como o escocês David Hume (1711-1776) descreve a povoação da Inglaterra (História da Inglaterra, 1754-1761).
“Os autores antigos são unânimes em representar os primeiros habitantes da Britânia como uma tribo de gauleses ou celtas oriunda do continente, que ao migrar para essa ilha teria trazido consigo língua, maneiras, governo e superstição, com pequenas variações introduzidas pelo tempo ou pelo contato com nações vizinhas”.
“Vestiam-se com peles de animais, viviam em cabanas erguidas nas florestas e pântanos e não hesitavam em abandonar suas habitações se os incitasse a perspectiva de saque”. “Como ignoravam todos os refinamentos da vida, suas necessidades eram escassas”. “A religião respondia por uma das partes mais consideráveis de seu governo e seus sacerdotes tinham grande autoridade”. “Os laços de governo, naturalmente frouxos entre esse povo rude e turbulento, eram corroborados pelos terrores de sua superstição”.
O saque, adaptado às evoluções tecnológicas, sempre foi o modo de vida deste povo. Seus amigos procuram justificar pelos recursos escassos da ilha e por seu clima verdadeiramente desconfortável. Parece que até o Sol procura a neblina para que seus raios não cheguem ao solo inglês. E qual melhor modo de promover o saque senão colonizando outros povos?
Durante o século 20, os países buscaram a industrialização, e os Estados Unidos da América (EUA) mostraram que o elemento fundamental era a energia e, preferencialmente, aquela fornecida pelo petróleo. Um barril de petróleo (159 litros ou 42 galões estadunidenses) contém 5,8 milhões de British Thermal Units (BTUs), o que equivale, aproximadamente, a 1.700 kWh (quilowatt-hora) de energia potencial térmica e 0,22 toneladas de carvão betuminoso.
O petróleo armazena enorme quantidade de energia em um volume relativamente pequeno; seu transporte e armazenamento são muito mais fáceis, sendo superior ao carvão por peso. E encontra-se com o sistema de comercialização espalhado pelo mundo.
Deter o controle sobre os volumes e preços do petróleo foi a principal guerra travada no século 20, que se prorroga ainda hoje.
Assim, ao promover a desregulamentação financeira, o livre mercado e a redução de impostos, Ronald Reagan (1981–1989) estava, na realidade, reduzindo a capacidade de ação do Estado nacional. E, pior ainda para os EUA, entrando numa guerra contra os países que colocaram o petróleo sob a tutela do Estado.
Farsas como o petróleo no Mar do Norte, os impactos ambientais e a transição energética não substituem o poder do petróleo para manter e desenvolver a industrialização dos países. E, sem indústria, o país é a vítima preferida da colonização. Ele será um exportador de produtos primários – agrícolas, carne animal, minerais e mesmo petróleo – se não tiver refinarias, dutos, tanques para armazenamento, terminais marítimos e rede de distribuição.
Ou será colônia se tudo estiver na gestão e controle de capitais financeiros apátridas.
Quarenta anos após Reagan, os republicanos colocam, pela quarta vez, um presidente nos EUA: Donald Trump (2025), este em sua segunda eleição (2017–2021). Mas o mundo já piorara muito.
O neoliberalismo voltou-se contra os próprios neoliberais. A economia não apresentou a competitividade esperada. Na efetividade, concentrou-se, reduziu a produção e aumentou os preços nos países colonizadores; imagine, então, nos colonizados.
Menos emprego, menos distribuição de riqueza, menos educação, mais preconceitos e muito mais violência, dos marginais e do próprio Estado nacional.
A Europa enfrenta guerras e greves; o povo é enganado, e a comunicação de massa passa a ser propagadora de ilusões. E, se isso ocorre em países onde praticamente não existem analfabetos, imagine onde eles estão até aumentando quantitativamente.
Os vírus fazem a festa, quer como arma, quer pela ausência de prevenção na saúde pública.
A filósofa estadunidense Nancy Fraser (1947), ícone da Teoria Crítica, escreveu O velho está morrendo e o novo não pode nascer (2019):
À primeira vista, a crise de hoje parece ser política. Sua expressão mais espetacular está bem aqui no centro do capitalismo, os EUA – Donald Trump, sua eleição, seu mandato presidencial e as disputas em torno dele. E não faltam fenômenos políticos análogos em outros lugares: o fiasco do Brexit no Reino Unido; o enfraquecimento da legitimidade da União Europeia e a desintegração dos partidos socialdemocratas e de centro-direita; o crescente sucesso de partidos racistas e anti-imigrantista em todo norte e centro-leste da Europa; e o surgimento de forças autoritárias, algumas qualificáveis como protofascistas na América Latina, na Ásia e no Pacífico. Nossa crise política, se é disso que se trata, não é apenas estadunidense, é global
Fraser também escreve sobre a propaganda enganosa. Em relação ao primeiro governo Trump afirma: “As políticas do presidente Trump divergiram totalmente das promessas de campanha do candidato Trump. Não apenas seu populismo econômico desapareceu, como também sua utilização de bodes expiatórios se tornou cada vez mais cruel. Aquilo em que seus apoiadores votaram, em suma, não é aquilo que eles receberam. O resultado não foi o populismo reacionário, mas o neoliberalismo hiper-reacionário”.
Na defesa do privado, fica sempre excluída a escalada corruptora. Se observarmos a História do Brasil desde 1930 até hoje, é gritante a diferença das ações dos poderes em relação à corrupção. E essa corrupção teve sua aceleração a partir da denominada redemocratização. Pois, na realidade, não houve qualquer ação efetivamente democratizante. A democracia, com José Sarney e seus sucessores, transformou-se num rito entre elites dirigentes, sempre procurando afastar os políticos verdadeiramente populares das mídias. A maior vítima foi o único seguidor de Vargas e do nacional-trabalhismo: Leonel Brizola.
No exterior, a luta pelo petróleo levou à farsa de Colin Powell diante da Assembleia da ONU, afirmando que o Iraque possuía armas de destruição em massa, provocando a Primeira Guerra do Golfo (1990–1991) e o fim do Estado iraquiano, desde então ocupado por empresas e forças armadas estadunidenses. Presidia os EUA George H. W. Bush (1989–1993).
Segue-se a guerra contra a Líbia, que detinha o troféu do maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da África, concedido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Mais uma vez, os EUA coordenam diversos países para destruir um único Estado, então o Estado líbio. A Guerra de 2011 contra Muammar Gaddafi foi inserida no contexto das guerras coloridas, das revoltas populares contra governos tiranos; lá atuou o democrata Barack Obama (2009–2017).
Antecedentes das eleições de 2026 no Brasil
Após o governo João Figueiredo (março de 1979 a março de 1985), oito pessoas presidiram o Brasil entre nove eleições e um golpe, este em 2016. Mas ou não foram boa amostra de democracia, ou a democracia não é o regime ideal para o Brasil, ou, ainda, ela não pode ser avaliada apenas pela ida às urnas.
No Prefácio de seu livro de 2023, Capitalismo Canibal – como nosso sistema está devorando a democracia, o cuidado e o planeta e o que podemos fazer a respeito disso, Nancy Fraser expõe: “Capitalismo canibal é meu termo para se referir ao sistema social que nos trouxe a esse ponto. Capitalismo carrega um longo histórico racista, o termo foi aplicado, por meio de uma lógica intervertida às populações negras africanas afetadas pela predação imperial europeia. Capitalismo se refere não a um tipo de economia, mas a um tipo de sociedade, que autoriza uma economia oficialmente designada a acumular valor monetizado para investidores e proprietários ao mesmo tempo em que devora a riqueza não economicizada de todos os demais.“
“Uma boa mentira precisa ter algumas verdades para ser aceita”, deve ter sido o pensamento da maldosa Baronesa Thatcher de Kesteven (1925-2013) para convencer o intelectualmente pouco provido Ronald Reagan (1911-2004) a desviar o mundo da industrialização e do trabalho, em benefício da plutocracia financeira mundial, ou seja, o neoliberalismo global, começando por duas praças financeiras importantíssimas: Londres e Nova York, com duas moedas de uso irrestrito: dólar estadunidense e libra esterlina, e pela força do idioma oficial de mais de meia centena de países, o inglês.
O comunismo soviético estava em acelerada decadência devido à corrupção da cúpula governante desde 1964; a China enfrentava a tragédia da Revolução Cultural (1966–1976); e, na América Latina, 13 países enfrentavam ditaduras – Argentina (1966–1983), Bolívia (1964–1982), Brasil (1964–1985), Chile (1973–1990), República Dominicana (1965–1978), Equador (1963 e 1972), Guatemala (1963–1990), Honduras (1963 e 1972), Nicarágua (desde 1979), Panamá (1968–1989), Paraguai (1954–1989), Peru (1968–1980) e Uruguai (1973–1985) -, além de diversos confrontos pela independência colonial na África e na Ásia, que poderiam tornar-se presas fáceis para um “novo movimento econômico-social”, dando suporte às transições políticas.
A nova lei para todos foi denominada Consenso de Washington, proclamada em novembro de 1989 pelo economista John Williamson.
Muitíssimo importante para o triunfo desse “fim da história” (apud Francis Fukuyama, 1992) foi o estágio de desenvolvimento das ciências e das técnicas da informação, sumarizadas na palavra “Cibernética”, de Norbert Wiener (1948).
No Brasil, toda a mídia e grande parte da intelectualidade, querendo simplesmente iludir ou passar por cientistas da nova era, defenderam o “mercado” onde deveria existir o Estado, a escravidão do “uber” no lugar da carteira de trabalho, e a incerteza do amanhã substituindo a garantia da saúde, do trabalho e do futuro dos filhos.
Se já temos hoje o pior Congresso da história republicana, um Judiciário que não encontra exemplo de tantas ações indignas nem mesmo desde o Império, e um Executivo verdadeiramente de governadores-gerais, o que esperar das urnas em outubro de 2026?
Compensaria o deslocamento aos locais de votação ou registrar-se-ia o protesto pagando R$ 3,51 pela ausência a cada turno, até por Pix ou cartão de crédito?

(*) Por Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado
