Tive o prazer de conhecer Hebe de Bonafini, mulher que não aspirava somente a recuperar despojos de herdeiros e levar milicos assassinos às barras dos tribunais.
Seu sonho era também continuar o empenho político de dois de seus filhos e uma nora, mortos pela Ditadura Militar. Hebe caminhava na direção das utopias do humanismo, da justiça social e do amor da partilha.
Por este motivo, fez bem em participar ativamente das ações sociais promovidas pelo casal Néstor (2003-2007) e Cristina Kirchner (2007-2015).
Em 2016, quando já contava 87 anos de idade, foi vítima de uma caluniosa versão do lavajatismo brasileiro, patrocinada pelo mandatário delinquente Mauricio Macri, amigo de Jair Bolsonaro.
O juiz Marcelo Martínez de Giorgi, uma versão argentina de Sergio Moro, tentou prender a gentil e modesta senhora por meio de uma bizarra acusação: teria roubado 13 milhões de dólares de um projeto de construção de casas populares.
O projeto, em curso em toda a América Latina, segue um modelo: caluniar, difamar e, se possível, prender líderes populares e de esquerda. Mais que tirá-los do jogo político, o projeto é estigmatizá-los e lançar lodo sobre suas reputações.
As absurdas fake news da direita argentina, muitas constituídas de montagens toscas, mostravam Hebe como dona de mansões e carros de luxo. Fizeram com Hebe. Fizeram com Lula.
Na época, uma multidão formou um cordão de proteção em torno da sede das Mães da Praça de Maio, impedindo a execução da ordem de detenção. Depois de renhido embate jurídico, a decisão foi revogada.
Neste domingo triste, Hebe ascendeu, depois de 93 anos prestados à causa civilizatória. Lembro daquela minha visita a Buenos Aires, cujas recordações já submergem no oceano turvo do tempo.
A ordem era essa: “Jueves (quinta-feira), às 15h30, Plaza de Mayo”. Somente isso. O sinal. Para o encontro das mortificadas pela perda. Das abençoadas pela esperança e pela madura rebeldia.
Não era encontro social ameno, mas embate permanente. A Ditadura Militar argentina sumira com 30 mil pessoas, muitas delas na flor da idade.
Deixou pais órfãos. Matou uma geração de defensores da justiça. Em seguida, os botinudos malditos decretaram que essas mães aviltadas, na lida de resistência desde 1977, eram também subversivas.
Azucena Villaflor, mulher de garra e senso, vocalizou a dor de todas as senhoras que tiveram seus rebentos amorosos roubados e sacrificados.
Prenderam-na, torturaram-na e, por fim, a assassinaram. Fizeram o mesmo com as freiras Alice Domon e Léonie Duquet. Vítimas, sobretudo, do carniceiro Videla.
Na época da minha visita, as fotos das meninas e dos meninos desaparecidos já se esvanecia nos crachás e placas de peito. Em alguns casos, mal se podia ler o nome da vítima.
O que vibrava nos tempos álgidos de inverno eram os pañuelos brancos, registros duros, singelos e comoventes da imensa tragédia latino-americana.
Registros também da fé que move montanhas, destroça canhões e cala os mais arrogantes déspotas.
Toda lágrima era intercalada por um sorriso. Dias nublados, ventos de corte, saudades insuportáveis, aprendizado infinito.
Gracias, madres de mayo! Gracias, Hebe! Siempre Presente!
(*) Texto e fotos: Walter Falceta Jr, Buenos Aires, anos 1980.
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