Quando Clodomir Morais veio a Santa Maria em 1950, para visitar parentes e amigos, os operários da Comissão do Vale do São Francisco [CVSF] –atual Codevasf-, sabedores de que ele era estudante de direito, buscaram contatá-lo, a fim de buscar orientação, já que estavam com seus salários atrasados.
Morais tirou logo da cabeça deles que ele seria o solucionador do problema.
Conscientizou-os de que os problemas do povo só quem os resolve é o próprio povo, “adequadamente organizado”.
Depois de muitas mobilizações pelas ruas da cidade, se criou a Sociedade de Trabalhadores de Santa Maria da Vitória [STSMV], eleito presidente o próprio Clodomir e vice o carranqueiro Mestre Guarany.
Nessa época andavam por aqui dois padres missionários, reacionários até a medula, extrema direita.
Ficaram hospedados na casa dos Athayde, como sempre.
Nas suas pregações combatiam a organização operária, dizendo que era instrumento do comunismo, e ameaçando de excomunhão os católicos que dela participassem.
O prefeito de então era Dr. José Borba, que apoiava discretamente –pra driblar a vigilância dos adversários políticos- a Sociedade, esse um dos motivos, senão o principal, de seu assassinato.
Enquanto durou, a organização foi um êxito.




Através de mutirões se restauravam as casas dos associados, inclusive as atingidas pelas enchentes.
Um desses missionários tinha um trauma de guerra, não podia ouvir barulho de foguete que saía babando de raiva em busca de quem tinha soltado o rojão.
Ele chegou a agredir fisicamente um filho de Júlio Caçador de Onça, em Inhaúmas, só porque o jovem soltou foguetes em ação de graças por ter voltado de Goiás são e salvo.
Tempos depois, Morais estava em Juazeiro da Bahia, se preparando pra embarcar num vapor.
Avistou uma multidão numa praça e, pra passar o tempo, foi lá.
Chegando, percebeu que o pregador era o padre anticomunista que andou por aqui rezando missa.
Estava o reacionário com aquele blá-blá-blá quando, de repente, percebeu a presença de Clodomir Morais no meio do povo.
Bufando, histérico, vai-não-vai ele gritava: “a demônio estarr na meio de vocês, a capeta!”.
As pessoas olhavam pros lados, pra trás… e Clodomir também, não era besta de ficar na mira dos fiéis fanáticos.
Conseguiu sair de fininho e no meio do caminho encontrou uma família de retirantes, pobres de marrédêcí.
Chamou o mais velho deles e combinou:
— Fiz uma promessa pra São Carlos Marx, vou pagar com uma grosa de foguetes, que vocês vão soltar assim que eu embarcar no vapor. Soltem perto daquela missa, a promessa é essa. Tá aqui o dinheiro dos foguetes e mais algum pro pagamento do trabalho, mais outro pra almoço e janta de vocês.
Enquanto o Saldanha Marinho deslizava pelo Velho Chico, e ia apitando se despedindo da terra de João Gilberto e Luiz Galvão, ele contente, se sentindo de alma lavada, apreciava os retirantes soltando um foguete atrás do outro.
De repente o cura, enfurecido, saltou do púlpito e tentou bater nos pobres famintos, agradecidos àquele cidadão benfeitor que lhes deu um dinheirinho.
Caiu na taca o reaça pré Concílio Vaticano II.
Aplicaram no neurótico de guerra um corretivo exemplar.
Deram-lhe uma surra de criar bicho.
Foi se queixar pro bispo.
Lá seguiu Morais pensando nas Ligas Camponesas e assobiando “Sons de carrilhões” de João Pernambuco, vapor singrando as águas barrentas do São Francisco.
Biblioteca Campesina, 24 janeiro 2025
Fonte> ANTONIO LISBOA DE MORAIS – Esboço Biográfico, de Clodomir Morais
Edições Casa da Cultura Antonio Lisboa de Morais
Santa Maria, Bahia, 2008
(*) Joaquim Lisboa Neto, colunista do Jornal Brasil Popular, coordenador na Biblioteca Campesina, em Santa Maria da Vitória, Bahia; ativista político de esquerda, militante em prol da soberania nacional.
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