A competição se tornou uma estrutura semelhante à de uma multinacional itinerante, com diversas funções e equipes
Durante décadas, a imagem da seleção nacional em uma Copa do Mundo era relativamente simples: jogadores, técnico, preparador físico, médico e alguns dirigentes. O futebol ainda operava muito mais próximo de uma concentração esportiva tradicional do que de uma empresa global de alta performance. Figuras populares acabavam acompanhando suas seleções como é o caso de Simonal que viajou com a canarinho em 1970.
Hoje, uma delegação de Copa do Mundo se parece mais com a estrutura de uma multinacional itinerante. O crescimento da profissionalização transformou completamente quem embarca para uma Copa, quais funções existem dentro das seleções e quanto custa manter toda essa máquina funcionando durante mais de um mês de competição.
1994 (EUA): Ainda o bom e velho futebol caseiro
Em 1994, nos Estados Unidos, uma seleção de elite costumava viajar com algo entre 35 e 45 pessoas no total. Jogadores, comissão técnica básica, fisioterapeuta, médico, roupeiro, assessor de imprensa e poucos dirigentes. Muitos trabalhos ainda eram acumulados internamente. O preparador físico fazia funções de recuperação, o médico centralizava praticamente toda a área clínica e o departamento de análise de desempenho ainda era inexistente.
2002 (Japão/Coreia): agora o profissional tinha destaque
Na Copa de 2002, disputada entre Japão e Coreia do Sul, começou a surgir a primeira grande expansão estrutural das delegações. O futebol europeu já vivia uma transformação forte em metodologia, medicina esportiva e análise física. As seleções passaram a levar nutricionistas, fisiologistas, profissionais específicos de recuperação muscular e equipes maiores de logística.
As delegações passaram a operar com cerca de 50 a 60 profissionais.
A distância geográfica da Ásia também obrigou as seleções a criarem departamentos internos de adaptação de fuso horário, sono e performance. O jogador deixou de ser tratado apenas como atleta e passou a ser tratado como ativo de alta performance.
2006 (Alemanha): O novo sistema de funcionamento
Em 2006, na Alemanha, a profissionalização ganhou outro patamar. A Copa praticamente consolidou o conceito moderno de “performance department” dentro do futebol.
As delegações já operavam com analistas de desempenho, profissionais de vídeo, fisiologistas, nutricionistas, psicólogos esportivos, especialistas em recuperação, equipes ampliadas de comunicação, segurança privada e staff operacional responsável por hotelaria e deslocamento. As seleções mais estruturadas chegaram à Copa com equipes de 65 a 80 profissionais especializados.
A diferença entre vencer e perder passou a ser marginal. E quando o detalhe define uma Copa do Mundo, qualquer ganho fisiológico, emocional ou estratégico passa a valer milhões.
2014 (Brasil): Tecnologia passa a fazer o jogo
A competição marcou a entrada definitiva da tecnologia e da ciência de dados dentro das delegações. GPS individual, monitoramento cardíaco em tempo real, controle de carga muscular, análise biomecânica, softwares de vídeo e departamentos inteiros focados em dados passaram a fazer parte da rotina das seleções.
A operação da delegação brasileira chegou perto de 100 pessoas, considerando toda a estrutura técnica, logística, médica, institucional e de comunicação.
Além da comissão técnica tradicional, as seleções passaram a contar com funções altamente especializadas, como chef de performance, coordenador de análise de dados, especialista em prevenção de lesões, nutricionista individual, coordenador de logística, equipe de social media, assessoria de crise, equipe comercial ligada aos patrocinadores, profissionais de compliance e governança e especialistas em segurança institucional.
2026 (Canadá/EUA/México): A nova era do futebol mudial
Com 48 seleções, mais jogos, maior duração e três países-sede, algumas delegações devem ultrapassar 120 profissionais envolvidos direta ou indiretamente na operação da Copa do Mundo.
As equipes mais estruturadas já contam com áreas altamente especializadas, como cientistas de dados aplicados ao futebol, especialistas em inteligência artificial para análise tática, equipes de monitoramento do sono, cozinheiros particulares, profissionais de hidratação, especialistas em neuroperformance, equipes jurídicas internacionais, analistas de comportamento digital e departamentos completos de conteúdo, mídia e gestão de imagem dos atletas.
A seleção moderna se transformou em uma verdadeira operação empresarial de alta performance.
Salários e cargos em alta
Em 1994, muitos profissionais ainda atuavam quase por prestígio institucional. Em vários casos, médicos e preparadores físicos mantinham atividades paralelas fora da seleção.
Hoje, o cenário é completamente diferente.
Nas seleções de elite:
- coordenadores de performance podem receber entre US$ 150 mil e US$ 400 mil anuais
- analistas de desempenho internacionais ultrapassam US$ 200 mil por ano
- chefes de departamento médico chegam perto de US$ 500 mil anuais
- técnicos das principais seleções superam facilmente US$ 5 milhões por ano
- equipes de comunicação e marketing atuam integradas a patrocinadores globais multimilionários
Em alguns casos, profissionais especializados em performance e ciência de dados já possuem salários comparáveis aos de executivos de grandes empresas.
Isso acontece porque o futebol moderno passou a disputar talentos com outras indústrias.
A lógica mudou completamente.
E o que esperar para 2030?
A tendência é de crescimento ainda maior da automação e da inteligência artificial aplicada à performance. No futebol moderno, vencer uma Copa do Mundo deixou de depender apenas do talento dentro de campo.
E falando em campo, não deixe ler o quanto custa para enviar uma seleção à Copa do mundo.
Na próxima edição, vamos mostrar como o modelo de Multi Club Ownership (MCO) vai impactar a Copa de 2030. Uma Copa que pode ser a primeira da história influenciada diretamente por conglomerados empresariais globais. Você não leu errado: empresas. E poucas representam melhor essa transformação do que o City Football Group.
(*) Por Felipe Araujo, Diretor Executivo e Estratégia no Futebol.
