Sempre que está acuada, a natureza reage. O aquecimento global não é apenas um alerta, mas um verdadeiro grito que vem do fundo das matas e das águas mandando o homem parar. Ou para, ou morreremos todos em poucas décadas com as mudanças climáticas que poderão entrar num ponto de não retorno nos próximos meses.
O alerta foi feito pelo cientista brasileiro Carlos Nobre, que faz parte do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e que dias atrás foi nomeado pelo Vaticano para compor um Conselho de Desenvolvimento Humano. Em entrevista Nobre foi enfático:
“Nós todos, cientistas amazônicos, já estamos dizendo com muita clareza que a Amazônia está na beira do ponto de não retorno”.
Isso quer dizer que, se não forem tomadas medidas drásticas e imediatas para zerar o desmatamento da floresta amazônica, ela entrará em colapso e qualquer medida a partir de então será inócua.
E o início do fim da Amazônia será a primeira grande peça a ser derrubada no dominó que levará à extinção da raça humana sobre a face da Terra. É possível que baratas e outros insetos sobrevivam, mas os mamíferos com certeza desaparecerão em pouco tempo com as temperaturas altíssimas e a aniquilação do mundo vegetal que os alimenta.
Aqui em Brasília um belo exemplar da natureza selvagem deu seu último suspiro na noite desta segunda-feira (6). Uma onça-parda morreu atropelada em pleno Plano Piloto, quando passava pela via L4, a poucos quilômetros do centro da cidade. Se isso não for um alerta, não sei o que é.
A Capital da República é rica em vida silvestre. Temos muitos pássaros e as capivaras são vistas às dezenas nas margens do Lago Paranoá. Sem contar os saruês e os macaquinhos sempre vistos nas matas e parques da cidade. Mas uma onça é coisa muito rara, até nas florestas do Cerrado.
Semanas atrás o governador Ibaneis Rocha anunciou que iria por à venda a Serrinha do Paranoá para saldar a dívida de R$ 5 bilhões do BRB causada pela compra de papéis falsos do Banco Master. A Serrinha é uma das poucas áreas preservadas próximas à Brasília, e que possui nove córregos de onde provêm cerca de 40% da água limpa que chega ao Lago Paranoá. Permitir que a Serrinha seja loteada para virar condomínio de luxo seria colocar em risco todo o ecossistema do Distrito Federal.
Talvez não seja coincidência que a onça-parda tenha aparecido dias atrás no Lago Norte, um bairro vizinho à Serrinha, para ser morta pouco tempo depois por um motorista de Uber que trafegava em uma via próxima ao Lago Paranoá.
Em apenas seis anos (2019-2024) o Cerrado, somente no Distrito Federal, perdeu 1.132 hectares, derrubados pelo agronegócio ou pela sanha imobiliária. Os dados são do MapBioma. O que foi desmatado de florestas no DF nesse período de governo Ibaneis, sem contar 2025, cujos dados ainda não saíram, equivale a quase três vezes o tamanho do Parque da Cidade de Brasília.
É bastante provável que a onça-parda que morreu atropelada no Plano Piloto nesta semana vivesse naquele Cerrado que deixou de existir. O alerta está aí para quem quiser ver.
(*) Beto Seabra, jornalista, servidor público e escritor, Beto foi professor universitário por quase dez anos. É autor de “Silêncio na Cidade” e coautor de “Uiraçu: Em Busca das Lendas Perdidas”. Seu terceiro livro, “Lembranças de um Tempo sem Memória”, sobre o desaparecimento de um jovem em Brasília no final do regime militar, está no prelo. Beto dirigiu três documentários, incluindo “Leitores sem Fim”, que narra histórias de pessoas transformadas pela leitura. Ele é mestre em Comunicação pela Universidade de Brasília (UnB).
Fonte: W3 Jornal
