Havia, numa pequena cidade do interior de Sergipe, Simão Dias, um bar na praça central que era mais do que ponto de encontro: era quase uma instituição moral da cidade. O dono, conhecido como Lulu, era desses personagens que misturam irreverência, inteligência popular e uma certa malandragem leve. Sempre sorrindo, sempre com uma piada pronta, vivia inventando histórias — e também inventando um item curioso na conta: o famoso “se cola”.
Funcionava assim: na nota, entre uma cerveja e um tira-gosto, aparecia lá, discreto, um item chamado “se cola”. Não importava se o cliente tivesse ou não pedido Coca-Cola. Se não percebesse, pagava. Se percebesse e reclamasse — “Mas eu não bebi Coca-Cola!” — Lulu, com a maior naturalidade, respondia: “Não é Coca-Cola, não. É se cola. Mas como não colou, eu tiro da conta.”
E tirava. Entre risadas. Tudo virava anedota.
O curioso é que muita gente pagou “se cola”. Não se sabe quantos. Talvez por distração, talvez por pressa, talvez por confiar demais. A cobrança era indevida, mas diluída no carisma do dono, na leveza do ambiente, na informalidade da praça. O “se cola” era quase uma pedagogia involuntária da atenção: quem não conferia, pagava.
Essa pequena história folclórica ajuda a pensar algo bem maior.
Recentemente veio à tona o debate em torno do decreto que tratava da concessão de trechos estratégicos dos rios Rio Tapajós, Rio Madeira e Rio Tocantins à multinacional Cargill. O texto jurídico, técnico, formal, parecia daqueles documentos que poucos leem integralmente, menos ainda compreendem em sua totalidade. Linguagem sofisticada, termos administrativos, justificativas de eficiência, desenvolvimento e integração logística.
Mas, como no bar de Lulu, era preciso conferir a conta.
Para povos indígenas, comunidades ribeirinhas e movimentos sociais da Amazônia, o decreto soava como um grande “se cola”. Se ninguém prestar atenção, passa. Se ninguém reclamar, consolida. Se ninguém questionar, vira precedente.
A diferença é que, no bar da praça, o prejuízo era o valor simbólico de uma bebida que não foi consumida. Nos rios da Amazônia, o “se cola” envolve soberania, territórios tradicionais, modos de vida, biodiversidade e o controle estratégico de hidrovias que estruturam a economia da região Norte.
O humor de Lulu era inofensivo porque cabia na esfera do jogo social. Havia ali uma espécie de contrato implícito: o cliente sabia que podia contestar, e o dono aceitava a contestação. A graça estava justamente na possibilidade de desmascarar a tentativa.
Na política, porém, o “se cola” pode ter efeitos irreversíveis. Nem sempre quem paga percebe que pagou. Nem sempre quem é afetado tem acesso à “nota”. E nem sempre há espaço para a piada — muito menos para a retirada simples do item indevido.
O episódio dos rios mostrou que, quando os atingidos conferem a conta, mobilizam-se e questionam, o “se cola” não cola. O debate público expõe o item escondido. A sociedade civil funciona como aquele cliente atento que aponta: “Isso aqui eu não consumi.”
Há uma lição democrática nessa comparação improvável entre um bar do interior de Sergipe e um decreto sobre hidrovias amazônicas: a cidadania começa na conferência da nota. Transparência não é detalhe burocrático; é condição de legitimidade.
O poder, como Lulu, às vezes testa os limites. A diferença é que, no Estado, não se trata de carisma, mas de responsabilidade histórica.
No fim das contas, toda sociedade precisa decidir se vai rir do “se cola” ou se vai aprender a sempre olhar a conta antes de pagar. Delso Oliveira Andrade
