Faltando apenas seis meses para a eleição, a campanha presidencial assume, neste momento, um contraste muito forte entre as candidaturas de Lula e de Flávio Bolsonaro. Um contraste que exibe as qualidades e propostas de um lado e de outro. Enquanto Flávio Bolsonaro bóia nas ondas da força eleitoral do pai, Lula se desdobra em projetos novos e em soluções para problemas antigos e recentes.
Lula, após aprovar a lei que isenta do imposto de renda os salários até 5 mil reais, prepara outro projeto social de grande alcance, que é a substituição da escala 6×1 pela escala 5×2. Ao mesmo tempo, amplia o alcance do programa Minha Casa Minha Vida e estende-o a trabalhadores de classe média que antes não tinham acesso a este, porque sua renda mensal era superior aos limites do projeto.
Além disso, Lula trabalha numa solução para o endividamento das famílias, que atinge a grande maioria dos brasileiros. Ele propõe que se tente alguma solução, inclusive financiada pelo Estado e realizada por bancos oficiais, para impedir a alta dos juros do cartão de crédito, do cheque especial e do crédito pessoal. As famílias devem muito mais em juros do que no preço das coisas que compraram. Esse projeto atinge muito mais gente do que a isenção do imposto de renda.
Lula tem ainda de enfrentar as consequências da guerra homicida de Trump contra o Irã. Essa guerra atingiu profundamente a situação da inflação no Brasil. Ela vinha caindo sistematicamente: já estava abaixo de 4% e se encaminhando para a meta de 3,5%. Lula conseguiu estabelecer alguns controles sobre o preço para o consumidor do óleo diesel e da gasolina. Conseguiu também, graças à atuação do ministro Guilherme Boulos, evitar uma greve de caminhoneiros que seria tão desastrosa, ou mais desastrosa, que aquela de anos atrás, no governo Bolsonaro.
Enquanto isso, o que faz Flávio Bolsonaro? Aparentemente nada, a não ser de se apresentar como um Bolsonaro diferente, quase um anti-Bolsonaro. Mas essa tentativa de parecer um bom moço enfrenta a artilharia dos bolsonaristas mais encarniçados, que não aceitam essa ideia. Flávio foi até aconselhado por Waldemar Costa Neto, o presidente de seu partido PL, a evitar ataques a Lula e exibir exclusivamente essa face do “bolsonarismo paz e amor”. Nesse passo, se tiver êxito nessa tentativa, ele acabará sendo ao mesmo tempo o candidato do bolsonarismo e o candidato da terceira via conservadora, não bolsonarista.
Se essa duplicidade de personalidade vai certo ou não, é o que ainda não se sabe, mas ele está dividido entre as duas opções. E não pode nem tomar decisões importantes, porque essas dependem da opinião de Bolsonaro pai. Ainda agora se discute a escolha do candidato a vice na chapa de reeleição do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Flávio tem preferência pela senadora Tereza Cristina, que foi ministra da agricultura de seu pai, mas este ainda não decidiu quem vai indicar.
De propostas de governo, o que se sabe que Flávio apresentou de original até agora é a eliminação da reeleição para presidente da república. Com isso, ele sacrificaria seu próprio futuro em benefício do governador Tarcísio de Freitas, que poderia ser candidato a presidente com apoio bolsonarista já em 2030. Dependendo das vontades do pai Bolsonaro, é que se vai poder entrever alguma coisa do que o Bolsonaro filho pode ou vai fazer se for eleito.
(*) Por José Augusto Ribeiro – jornalista e escritor, é colunista do Jornal Brasil Popular com a coluna semanal “De olho no mundo”. Publicou a trilogia A Era Vargas (2001); De Tiradentes a Tancredo, uma história das Constituições do Brasil (1987); Nossos Direitos na Nova Constituição (1988); e Curitiba, a Revolução Ecológica (1993); A História da Petrobrás (2023). Em 1979, realizou, com Neila Tavares, o curta-metragem Agosto 24, sobre a morte do presidente Vargas.
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