Por Redação | Jornal Brasil Popular – Crédito: Tony Oliveira AG Brasilia
Enquanto CEOs do agronegócio posam sorridentes ao lado de ministros e presidentes, nos bastidores quem continua garantindo o que vai pra sua mesa é o agricultor familiar — aquele que planta, colhe, luta e quase sempre é ignorado por políticas públicas. Sim, ele continua aí. E continua sendo a solução para a fome, a crise climática e o futuro alimentar da humanidade. O problema é: até quando vai resistir sem apoio real?
O Seminário Internacional realizado em março de 2025, em Porto Alegre, reuniu representantes de organizações da sociedade civil, academia, instituições públicas e movimentos sociais para discutir o presente (e o possível futuro) da Agricultura Familiar. O encontro ocorre em meio a um cenário de desmonte institucional, retrocesso normativo e uma série de crises interligadas — alimentar, climática e econômica — que jogam a agricultura familiar no ringue com uma mão amarrada nas costas.
Avanços? Sim. Mas vieram as tesouras.
Houve conquistas importantes na última década: reconhecimento legal, estatísticas, articulação internacional (como a criação da Década da Agricultura Familiar pela ONU) e políticas específicas. Mas também houve retrocessos violentos. Orçamentos foram cortados, estruturas fundidas, leis desfiguradas. E o que já era desigual ficou ainda pior.
Em boa parte da América Latina, inclusive no Brasil, o discurso oficial diz uma coisa, mas o orçamento diz outra. O agronegócio segue sendo o “queridinho” dos subsídios, da pesquisa pública e dos investimentos. Enquanto isso, os agricultores familiares — responsáveis por cerca de 80% dos alimentos consumidos no planeta — continuam dependendo de infraestrutura precária, crédito escasso e promessas vazias.
Papel estratégico… e estratégico é invisibilizar?
A agricultura familiar está no olho do furacão: é um dos setores mais vulneráveis aos efeitos da crise climática — secas, enchentes, pragas — e, paradoxalmente, é também um dos mais preparados para enfrentá-la. Com técnicas agroecológicas, saberes tradicionais e práticas sustentáveis, eles oferecem alternativas reais ao modelo destrutivo do agronegócio monocultor e dependente de veneno.
Só que esse modelo não cabe no PowerPoint dos grandes eventos internacionais. É diverso, territorializado, descentralizado. E por isso mesmo, ignorado. Como bem destacou o professor Arilson Favareto (USP/CEBRAP), persiste uma contradição: o discurso climático global elogia a agricultura sustentável, mas os governos continuam financiando monoculturas e ração para gado.
Jovens, mulheres e a urgência do agora
A agricultura familiar também sofre com o esvaziamento humano. Sem acesso à terra, à educação, à internet ou a condições mínimas de dignidade, jovens e mulheres abandonam o campo. A sucessão geracional vira um dilema: quem vai manter viva essa forma de produzir? Se ninguém ficar, não tem comida — ou ao menos, não comida de verdade. Só ultra processado com sabor de milho.
Nas palavras dos participantes do seminário, ou valorizamos urgentemente a agricultura familiar — com políticas estruturantes, financiamento justo, tecnologia acessível e participação ativa — ou teremos que engolir as consequências amargas de um futuro faminto e envenenado.
O que precisa mudar já
Os consensos do evento foram claros:
- Reconhecimento efetivo da AF como eixo estratégico de desenvolvimento rural e combate à fome;
- Ampliação de políticas públicas com orçamento robusto e desenho participativo;
- Garantia de acesso à terra, crédito, assistência técnica e mercados justos;
- Promoção da agroecologia como modelo prioritário para o futuro alimentar e climático;
- Equidade de gênero e geração no campo, com foco em jovens e mulheres rurais;
- Criação de dados e indicadores para medir o impacto real da AF nas políticas climáticas e alimentares.
O tempo da retórica já passou
Porto Alegre deixou o recado: a agricultura familiar não pode mais ser tratada como coadjuvante de um filme onde o protagonista é o veneno e o lucro. É preciso inverter essa lógica. O que está em jogo não é apenas a sobrevivência do agricultor. É a sua também.
Se você ainda come arroz, feijão, hortaliça e fruta de verdade, talvez já esteja mais envolvido nessa história do que imagina.
