Por Fanny Abramovich
Quando Antonieta me convidou para participar deste Seminário e me apresentou o tema do debate, “Animação da Leitura — Impasses e possibilidades”, ela brincou que eu nadaria de braçada. Então, vou pôr meu uniforme de Esther Willians e ver onde chegamos.
Deparo primeiro com este tema “animação” e nestes trópicos não existe palavra mais desapropriada do que essa. Não sei como estão as coisas aqui, mas não devem estar muito diferentes das minhas plagas, onde a palavra “apatia” é até animada. O estado gral é abúlico, com relação a como as pessoas se sentem quanto às perspectivas deste nosso país varonil.

Por outro lado, não existe — no meu modo de ver, que não é em absoluto um modo geral e único — palavra menos apropriada para leitura do que “animação”. Quem lê, quem ama ler, quem é viciada em ler sabe que leitura não pode ser animada, ler é um ato solitário, de prazer, individual e de cumplicidade com o autor. Leitura acontece em silêncio, leitura é uma relação íntima do leitor com o autor.
Aflige-me esta necessidade meio epidêmica, esta catapora que acode em todos os cantos de animar a leitura. Isso vem do medo daquela ação solitária, do silêncio de estar sozinho, que é fundamental de ser trabalhado com qualquer indivíduo, seja qual for a sua idade.
Por isso, o primeiro impasse — e nós vamos falar em outros — que vejo na questão da leitura é essa inversão que se percebe nas bibliotecas públicas, escolares e de todos os tipos onde tudo é importante e acontece, menos ler. Arma-se o circo, faz-se teatrinho, distribui-se pipoca, faz-se artesanato, a criançada pula e dança, mas não lê.

Parece-me que, quando a gente começa a pensar no porquê dessa impossibilidade, quanto mais conversa com professores, pais e bibliotecários, o grande réu no caso do livro é sempre a criança. No entanto, quando eu pergunto “Qual foi o último livro que você leu — por impulso, por vontade, porque não resistiu, porque entrou na Miguilim e comprou não porque tinha de fazer prova?” —, a resposta vem: “Ah, não sei, não lembro”. E é a criança que não lê.
Onde está nosso gosto pela leitura? Quem já ouviu contar de criança ou jovem que esteja em contato com gente visceralmente ligada ao livro e que não goste de ler?
A não-familiaridade, o não-gosto, a não-informação do adulto com relação à leitura é uma coisa que passa a cada instante para cada criança. Por isso, todo esse disfarce, esse empipocamento em torno do livro.
Obviamente, isso não acaba na biblioteca ou na sala de aula. Se a gente começa a pensar nos critérios com os quais são editados os livros no Brasil — na maioria das vezes, a gente sabe, sem critério nenhum —, o tipo de texto que acaba valorizado, ou a ilustração que anda por aí, sem a elegância, o requinte, o acabamento de um Paulo Bernardo, a gente começa a desconfiar das coisas ao nível editorial.
Mas, bem ou mal, esses livros chegam às bibliotecas, onde as pessoas não se dão ao trabalho de ler.
Estou fazendo um levantamento sobre a produção brasileira de ficção e qual não é meu pasmo e minha perplexidade quando vou à maior biblioteca de São Paulo [estou falando de São Paulo – Capital, não de Teresina] e fico sabendo que não há nada informatizado, na virada do milênio, e que eu poderia, em mais ou menos 40 anos, ir consultando as fichinhas e obter as informações que eu queria, até do que eles próprios têm. Catalogação por gênero, nunca ocorreu a eles que seria possível. Eles me acham uma gracinha por estar pensando nisso. Depois de ver pelas cidades da América Latina crianças bem pequenas consultando terminais e localizando o que queriam, a bibliotecária-chefe da Universidade de São Paulo me dizer que posso procurar livros um a um, a gente percebe como a questão é colocada. A criança pode chegar e escolher qualquer trilha, porque não há sistematização muito menos informatização — o que eu não deveria estar discutindo em 1990.
Ao nível do professor, a criança é bombardeada pela “livre escolha” de um livro por bimestre, escolhido pela autoridade máxima, a professora, que não o elegeu entre 20 ou 30 que ela leu, mas porque foi a primeira editora que chegou à sua casa. Ela, desinformada, sem dar alternativas, encaminha-se pelo único produto, como se isso fosse meta, solução, encaminhamento.
Em Curitiba, onde estive há coisa de um mês, descobri, conversando com bibliotecários e professores, novidades em torno da leitura realmente fascinantes. Imaginem que numa escola particular de Curitiba [está certo que foi o estado que mais votou no Afif Domingos, e isso deve ser um nível de explicação…], o livro Menino Maluquinho tem as folhas grampeadas, de forma que o aluno só possa ler até determinado ponto. Desse modo, o prazer está limitado, o orgasmo com a leitura jamais. A leitura é feita no ritmo determinado pela professora em função do estudo dos pronomes oblíquos e da partícula que, ou alguma coisa do gênero.
[…]
Parece-me que o que se coloca é a questão do país que quer ou não quer leitores. A gente pode até ter espantos e divergências com Cuba, mas eu estive lá e vi: numa ilhota de seis milhões de habitantes, a tiragem do livro é de cem mil exemplares. Isso no Brasil é comemorado com rojão. Em Cuba, para onde você vira, você vê uma biblioteca. Na sala de aula, na escola, na Casa de Cultura, no Ministério da Educação, além de na Praça dos Poderes estar a Biblioteca José Martí, com seus dezesseis andares, onde se configura uma maneira clara que importa, sim, que todo mundo leia. Sem contar que foi o único país no mundo onde eu vi fila em livraria.
É, portanto, uma questão de prioridade, como é questão de prioridade dentro da casa de qualquer pessoa o livro ter lugar ou não.
Eu cresci numa casa onde se lia muito e sempre eu “fuçava” nas estantes na medida do meu tamanho.
Eu lia e relia e me antecipava em relação a algumas leituras, lia antes da hora [se bem que não saiba bem o que é “antes da hora”] Jorge Amado ou José Lins, porque já tinha esgotado a leitura “para crianças” da época [Lobato, contos da carochinha, o Tesouro da Juventude], o que não significou que eu não pudesse reler, treler em cada fase da minha vida.
Era uma casa onde se conversava sobre livro, onde se trocava ideia sobre livro. E essa troca é que me faz querer trocar com um amigo: “Meu Deus, você ainda não leu! Você tem de ler esse livro, já!” Lembro a minha adolescência, andando pelo Bom Retiro com “Os Subterrâneos da Liberdade” de Jorge Amado, e no auge da minha militância comunista. Nós, com 12, 13 anos, dizíamos: “Eu estou no segundo!” “Eu passei pro terceiro!” E era o segundo ou terceiro volume. Porque nós mergulhávamos naquela leitura que vai ver hoje nem era tão boa, mas que nos nutria em termos de informação e sede de mundo.
Enquanto nós, adultos — professores, editores, escritores — não entendermos como essa necessidade de saber, de outras formas de pensar e de viver no mundo, enquanto ela não for um mergulho solitário e verdadeiro na relação de cada um com o livro, nós vamos ter o impasse do confete e da serpentina, e isso não é legal.
Por Fanny Abramovich
Digitação > Joaquim Lisboa Neto
Biblioteca Campesina, 22fev22
(*) Joaquim Lisboa Neto, colunista do Jornal Brasil Popular, coordenador na Biblioteca Campesina, em Santa Maria da Vitória, Bahia; ativista político de esquerda, militante em prol da soberania nacional.
[1] Texto publicado a partir de transcrição de fita, preservando-se a linguagem oral
