A escalada militar dos EUA contra o Irã e a continuidade da destruição da Palestina expõem, mais uma vez, o papel histórico de Washington como agente de desestabilização global. Não se trata de episódios isolados, mas de uma estratégia reiterada de intervenção que ignora o direito internacional, deslegitima a soberania dos povos e aprofunda conflitos em diferentes regiões do planeta.
Nesse contexto, causa perplexidade a presença do governo brasileiro em espaços como o G7, em reunião realizada nessa quinta-feira (26) e nesta sexta-feira (27), indicando alinhamento, ainda que simbolicamente, a posições que legitimam essa escalada. Ao lado de figuras centrais da política externa norte-americana, como Marco Rubio, o Brasil corre o risco de diluir sua tradição diplomática de defesa da paz, do multilateralismo e da autodeterminação dos povos.
O G7, historicamente, tem atuado como bloco de respaldo às ações do eixo EUA-Europa, inclusive em conflitos recentes, ao tratar ataques como “direito de defesa” de aliados estratégicos. Esse posicionamento contrasta com o silêncio diante de episódios graves na América Latina. Pouco se fala sobre ações diretas ou indiretas dos EUA na região, nem sobre denúncias de violações de soberania. Investigações jornalísticas, como a recente reportagem do The New York Times, revelam o padrão dessas operações: uma ação militar apresentada como combate ao narcotráfico terminou, na prática, na destruição de uma fazenda de produção de leite no Equador, sem provas de ligação com atividades ilícitas, com relatos de violência contra trabalhadores e morte de animais. Ainda assim, o episódio foi propagandeado pelo governo Trump como sucesso da política de segurança dos EUA.
A esse cenário soma-se um episódio ainda mais grave e revelador: a operação militar dos EUA em território venezuelano que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro, classificada como violação direta à soberania do país. Trata-se de um precedente extremamente perigoso, que resgata práticas de intervenção típicas dos períodos mais críticos da história latino-americana e evidencia até onde pode chegar a política externa norte-americana quando não encontra resistência internacional consistente.
A esse quadro soma-se ainda uma preocupante tentativa de ingerência direta no Brasil: a decisão norte-americana de classificar organizações criminosas como o PCC e o CV como grupos terroristas, em pleno ano eleitoral, medida que conta com o apoio de setores da extrema direita. Trata-se de um movimento que extrapola a cooperação internacional em segurança e avança sobre a soberania nacional, ao abrir margem para interferências políticas e jurídicas externas em assuntos internos do país.
O mesmo padrão aparece em outras frentes. Reportagens do The Intercept apontam que a estratégia de segurança nacional dos EUA prevê ampliar sua presença militar na América Latina, com apoio de governos alinhados ideologicamente, como o de Javier Milei, na Argentina, que tem firmado acordos de cooperação militar com Donald Trump. A isso se soma o recente acordo entre os EUA e o governo paraguaio, aprovado pelo Senado do país, que permite a presença militar ostensiva norte-americana em seu território, aprofundando a influência direta de Washington na região.
Diante disso, torna-se inevitável questionar: por que há tanto silêncio institucional sobre essas ações? Por que a denúncia é seletiva? A omissão sobre intervenções e violações no Sul Global revela um duplo padrão que fragiliza qualquer discurso em defesa dos direitos humanos e da legalidade internacional.
No Oriente Médio, o cenário é ainda mais grave. A entrada direta dos EUA no conflito com o Irã e o apoio incondicional a Israel indicam uma ruptura com qualquer perspectiva diplomática. Enquanto isso, a população palestina segue submetida a um processo contínuo de destruição, denunciado por organismos internacionais e cada vez mais caracterizado como genocídio por diferentes setores da sociedade civil.
Tudo isso ocorre em um momento em que o mundo caminha para uma nova configuração geopolítica. O avanço de um cenário multipolar, com protagonismo crescente de países como China e Rússia, desafia a hegemonia norte-americana. É justamente nesse contexto que se intensificam ações militares e tentativas de reafirmação de poder por parte dos EUA.
A crítica, portanto, não se dirige apenas à guerra em si, mas ao modelo de ordem internacional que ela tenta sustentar: unilateral, violento e baseado na imposição de interesses estratégicos. Ao Brasil, cabe decidir se continuará orbitando esse eixo ou se retomará uma política externa coerente com sua história recente, pautada pela soberania, pela integração regional e pela defesa de soluções diplomáticas.
Como aponta o economista Elias Jabbour em suas redes sociais, o mundo já não é mais o mesmo — e insistir em uma lógica de alinhamento automático a uma potência em declínio pode significar não apenas um erro estratégico, mas uma renúncia ao próprio papel histórico do Brasil na construção de uma ordem internacional mais justa e equilibrada.
