Adeli Sell – Imagem: Luiz Dutra Neto
Vir a Pelotas e não ir ao Aquários, na esquina da Quinze com a Sete, é como ir a Buenos Aires e não ir ao Café Tortoni ou a Paris no Café de la Paix.
Vivo em Porto Alegre. Na atualidade, o “Café À Brasileira” é o que mais se aproxima do similar pelotense.
O nome veio quando o Café 35 foi vendido em 1970 e pela aparência de um local para peixes leva este nome.
Tem um balcão para um café em pé e um papo maneiro como era no “Café Rian” dos anos 70 em Porto Alegre.
Tem uma parte com mesas e cadeiras onde se servem lanches e comidas. O cardápio é vasto: 11 páginas.
Tem uma chamada que diz: “se não sabe por onde começar, comece por um café no Aquários!”

Fui logo após o meio-dia, sendo que almocei no simpático “Alles Blau” (“Tudo Azul”), e muitos almoçavam. Vi que os pratos eram para lá de generosos, muito além do que minha dieta permite.
No item “bebidas” há as boas cervejas uruguaias.
Dos cafés há 16 opções, do cafezinho passado, cruzando pelo expresso, ao capuccino.
Optei por um cafezinho passado. O atendente veio com um café fortíssimo e pede se quero um pouco de água. Optei pelo café “essência”. Acertei em cheio. Antes de sair tomei um expresso.
Tem uma seção de “batidas” – as velhas vitaminas. Outra de sorvetes e doces, sendo que os famosos doces de Pelotas, a pessoa faz a escolha com o garçom. Não tinha o “ovos moles”, e pedi o de nozes e novamente acertei.
Pareceu-me que os sanduíches e baurus são os lanches que puxam o segmento “lanches”.
Um senhor optou por um sanduiche e uma coca. Mas a moça loira e elegante pediu uma torrada e um suco. Uma senhora de mais idade pede um belo sanduíche com uma Fanta.
Nos idos de 70 e 80 circulei muito pela cidade, lastimo agora que fui ali poucas vezes.
Podem ter a certeza que cada vinda minha para cá vou apreciar o café, os doces e o clima.
Para quem aprecia café, este não pode ser tomado às pressas, nem num ambiente que não seja de aproximação de almas.
Sentado sozinho lembrei-me do personagem Camilo Mortágua, do Josué Guimarães, que tomava o seu (café aguado) no velho Café Viseu. Entrei na trama mais uma vez e me doeu a alma. Aqui, o público é variado. O avô de cabelos prateados e a neta: os dois não largam a tela. Vício de tela não tem idade. Quatro homens idosos como nos velhos tempos jogam conversa fora. E bebem uma Patrícia.
Vejo três jovens devorando um PF lotado de batata frita. Duas jovens e um jovem recebem também seus PF e olham. Acho que ficaram meio assustados pelo tamanho do prato. Mas se atracam a comer com muito sal adicional. Me arrepio, pois comi um prato “fit” com salmão.
Entra mais um senhor idoso, de cabeça prateada, toma um café com um jovem. Não têm celulares. Ufa.
Eu cá fico pensando no livro que estou lendo: “A ilha dos anciãos”. Fala dos centenários da Sardenha, na Itália.
Cá com minha calma, aprendendo que felicidade não se compra e que não devo me estressar quando as pessoas não querem mudar – refrigerantes, batatinhas com muito sal, baurus com muita maionese – quero caminhar ao encontro destes centenários italianos ou daqueles da Ilha de Okinawa. Sem batata frita e sem sal a rodo. Muito menos as coca-colas que vejo na maioria das mesas. E isso que o cardápio é rico em sucos e outras comidas bem saudáveis.
O que me incomoda num ambiente onde estou são as pessoas que não falam; gritam. Porto Alegre é pior. Pensei no povo do Camboja que come em silêncio.
Os orientais, tirando os chineses, são mais leves.
Achei os atendentes bem capacitados e com um atendimento bom.
Estando em Pelotas impossível não ir ao Café Aquários.
Adeli Sell é professor, escritor e bacharel em Direito.
