A política me fascina, não a política partidária, com suas manobras e interesses próprios, mas aquela definida por Aristóteles na Antiguidade: a que busca o bem comum, e não os interesses de uma parcela ínfima da população. Interesso-me pelas políticas públicas e pela política do cotidiano, presente nas escolas, nas comunidades e nas pequenas decisões do dia a dia. Valorizo a política participativa e a democracia que me permite, por meio do voto, escolher os meus governantes, e interferir, ainda que minimamente, nos rumos da vida em sociedade.
Há quem diga não gostar de política, e não vejo problema nisso. Nem todos se interessam pelos mesmos assuntos. O que incomoda é quando essa justificativa serve de pretexto para votar em qualquer um, como se o voto fosse apenas uma formalidade, e não uma escolha com consequências. Cada decisão, por menor que pareça, soma-se a outras e ajuda a definir os rumos de todos. Quem se diz neutro, ao contrário do que imagina, não se exime de responsabilidade. Há também aqueles que, por falta de interesse em verificar os fatos, tornam-se mais suscetíveis à manipulação. São os mesmos que replicam informações falsas em grupos de WhatsApp e reagem de forma agressiva a quem não compartilha de suas ideias.
Eu nasci em uma época em que nenhum brasileiro votava para presidente. Os cargos de governador, senador e, em alguns casos, até de prefeito eram ocupados por nomes indicados por um regime ditatorial e truculento.
Assisti pela televisão as campanhas para a primeira eleição direta para presidente, escolhi candidatos e acompanhei meus pais na votação. Não podendo votar aos nove anos, idade que eu tinha em 1989, fiz cédulas com os nomes dos concorrentes e exerci o meu direito de escolha. Celebrei a vitória do mais votado que também era o candidato dos meus pais e mais tarde gritei “Fora Collor”, ainda sem idade para ir às ruas.
Meu pai acreditava que os políticos de direita eram, simplesmente, aqueles que estavam no poder, enquanto todos os outros seriam de esquerda. Nesse contexto, pouco importava o partido, desde que não fosse um “anarquista baderneiro”. Só hoje entendo que, para ele que demorou a enxergar os problemas do Regime Militar, os candidatos que ele abominava seriam os da verdadeira esquerda.
Com o tempo passei a estudar a ideologia por trás de cada partido e a esmiuçar biografia política dos candidatos. Foi quando percebi que minhas ideias se inclinavam mais à esquerda, e não ao contrário, como eu imaginava. Desde então, assumo sem medo nem vergonha que já fui pobre de direita, não apenas pelo analfabetismo político, mas pela falta de compreensão sobre a chamada consciência de classe.
Essa trajetória se repete na história de muitos que cresceram sem acesso a uma formação política mais consistente. A falta de informação molda escolhas e sustenta visões de mundo que, muitas vezes, entram em conflito com a própria realidade de quem as defende. Rever posições exige reflexão e disposição para reconhecer equívocos, pois é nesse movimento que a consciência se constrói e que a participação deixa de ser automática para se tornar, de fato, consciente.
