O cooperativismo solidário nasceu como resposta à exclusão provocada pela Revolução Industrial entre os séculos XVIII e XIX, quando ferramentas manuais deram lugar às máquinas, a energia humana foi substituída pela motriz e o trabalho artesanal cedeu espaço às fábricas. Esse avanço tecnológico tornou a produção mais barata e acessível, mas provocou desemprego em massa e deixou muitas pessoas sem renda e sem acesso ao básico.
Sob esses desafios, trabalhadores marginalizados se organizaram em pequenos grupos produtivos, sem patrões ou empregados, em que todos eram donos do empreendimento e os resultados eram compartilhados igualmente. Esse modelo, reconhecido posteriormente como cooperativismo, priorizava o bem-estar coletivo em detrimento do lucro individual.
Raízes históricas no Brasil e no mundo
O marco internacional do cooperativismo moderno ocorreu em 1844, em Rochdale, Inglaterra, quando 28 moradores criaram um armazém cooperativo para realizar compras coletivas e distribuir os produtos de forma igualitária. No Brasil, formas de cooperação já existiam antes da colonização, nas práticas coletivas de comunidades indígenas, que uniam produção, partilha e cuidado com a natureza. Durante a colonização, experiências como as Reduções Jesuíticas e, mais tarde, os quilombos, também revelaram a cooperação como ferramenta de resistência e sobrevivência.
O elo com a economia solidária
O cooperativismo solidário se aproxima profundamente dos princípios da economia solidária, modelo que organiza atividades como produção, distribuição, consumo, poupança e crédito por meio da autogestão, com foco no ser humano. Essa abordagem promove trabalho e renda, reduz desigualdades e estimula a sustentabilidade ambiental, visível em cooperativas de reciclagem, agricultura familiar, crédito solidário e produção orgânica.
Indicadores do cooperativismo no Brasil
Em 2024, o Anuário do Cooperativismo Brasileiro reportou 4.384 cooperativas registradas junto ao Sistema OCB, presentes em 3.586 municípios. Esses empreendimentos representam 25,8 milhões de cooperados, cerca de 12,14% da população brasileira. O setor promoveu a geração de 578 mil empregos diretos e movimentou cerca de R$ 757,9 bilhões, além de distribuir R$ 51,4 bilhões em sobras e investir R$ 41,5 bilhões em salários e encargos.
Princípios que orientam o cooperativismo solidário
Os pilares dessa prática incluem a autogestão, em que todos decidem e são responsáveis; a cooperação, em oposição à competição; a solidariedade, na união de esforços; a valorização da diversidade cultural, étnica e territorial; a justiça social na produção, que protege os mais vulneráveis; e o cuidado com o meio ambiente, por meio do uso racional e de práticas de recuperação ambiental.
UNICOPAS
A União Nacional das Organizações Cooperativistas Solidárias (UNICOPAS) coordena e fortalece o cooperativismo solidário no Brasil. Ela reúne quatro centrais principais: Unisol Brasil, Unicafes, Concrab (Confederação das Cooperativas da Reforma Agrária do Brasil) e Unicatadores (central dos catadores de materiais recicláveis).
Atualmente, a UNICOPAS representa mais de 2,5 mil associações e cooperativas, com cerca de 800 mil trabalhadores em todo o país, presentes tanto no campo quanto na cidade e abrangendo populações tradicionais, agricultura familiar, assentamentos, catadores, artesãos, trabalhadores de empresas recuperadas, mulheres, jovens e pessoas com deficiência. Sua atuação reforça que cooperativismo e economia solidária, quando aliados, não são apenas alternativas econômicas, mas projetos de sociedade mais democráticos e inclusivos.
Desafios persistentes
Apesar dos avanços, diversos desafios persistem para fortalecer o cooperativismo no Brasil. Entre eles estão a falta de políticas públicas específicas, o que limita recursos e apoio institucional ao setor; a necessidade de promover formação e qualificação de dirigentes cooperativistas, essenciais para melhorar a gestão e autonomia das cooperativas; e a dificuldade em acessar financiamento, especialmente junto a bancos públicos, o que restringe a capacidade de expansão e consolidação do modelo.
4ª Conaes: um marco para a política pública
Entre 13 e 16 de agosto de 2025, em Luziânia (GO), ocorrerá a 4ª Conferência Nacional de Economia Popular e Solidária (Conaes), com o tema “Economia Popular e Solidária como Política Pública: Construindo territórios democráticos por meio do trabalho associativo e da cooperação”. O evento será promovido pelo Ministério do Trabalho e Emprego, por meio da Secretaria Nacional de Economia Solidária, e reunirá cerca de 1.200 participantes de todo o país para debater o 2º Plano Nacional de Economia Solidária.
