GUAPORÉ
Adeli Sell

Nome de origem indígena. Guaporé seria um rio campestre. Dos indígenas pouco se sabe, e os “gringos” vieram subindo, seja de Caxias ou vindo de Muçum acima.
Terra de produção multifacetada na colônia, como uma pujante indústria de lingeries e joias/semijoias.
Tem o seu Cristo que ficou pequeno diante do Protetor de Encantado. Mas sua fé continua inabalável.
Lugar de conservadorismo ainda hoje guardando os resquícios do Padre Ângelo Corso que propugnava as diais de Dom João Becker e Wolfram Metzler nas missas lá pelos anos de 1930.
A Cultura parece se apequenar hoje em dia em vários locais do Estado, como se cultura fosse apenas CTGs e algum festejo a mais.
Cultura é muito mais. Já houve tempos que a cena cultural e educacional foi mais forte, na condução da Veridiana Tonini como Secretária de Educação.
As atividades independentes do poder público parecem se impor em muitos locais.
Por isso, vamos escutar o que nos dirá EDNEI GENARI, criador e animador do Guaporock.

P – Como surgiu a ideia de criação do GuapoROCK? Começou como um evento e se tornou um movimento?
R – O GuapoROCK surgiu com a intenção de gravar CDs de rock com bandas autorais de Guaporé, no ano de 2012. Na ocasião, foram lançadas duas coletâneas intituladas GuapoROCK – O Rock da Nossa Terra.
Com o passar do tempo e influenciados por outros festivais multiculturais, ousamos pensar na organização de um Festival Multicultural. Assim, passamos a promover, durante um fim de semana inteiro, uma verdadeira imersão cultural. O evento foi realizado no Autódromo Internacional de Guaporé e reuniu música de diversos estilos, dança, teatro, mostra de cinema, gastronomia, palestras e oficinas educativas. Essa proposta foi concretizada nos anos de 2016, 2018, 2019 e 2020.
Com a chegada da pandemia e a impossibilidade de realizar eventos presenciais, o projeto passou a investir na edição de livros. Neste ano, estamos nos preparando para lançar o sexto livro do projeto.
P – Quais foram as dificuldades na origem, quais persistem e o que complica fazer cultura no interior atualmente?
R – Sempre enfrentamos dificuldades para firmar parcerias e encontrar patrocinadores que compreendessem tanto a importância quanto os desafios de divulgar a cultura local. A questão financeira é um dos principais obstáculos, já que os custos de um projeto desse porte são elevados e constantes.
Acredito que, assim como nos grandes centros, quando se propõe fazer projetos verdadeiramente culturais — ou seja, movimentos que não estão vinculados à grande mídia ou ao sucesso momentâneo — a divulgação se torna mais difícil, o que impacta na formação de um público fiel ao movimento de raiz.
Acompanhamos o avanço de uma cultura pasteurizada pelas mídias de massa, que, em vez de gerar conhecimento, acabam promovendo desinformação e alienação.
P – Vocês têm tido algum apoio governamental para as atividades de vocês?
R – Já tivemos apoio por meio de leis de incentivo, mas no momento o projeto conta com o apoio de profissionais liberais e empresas da região.
P – Neste ano, há perspectiva de sobrar algo da Lei Aldir Blanc para o GuapoROCK?
R – O projeto, neste momento, não tem interesse em participar. Já fomos beneficiados anteriormente, mas atualmente não dispomos de equipe suficiente para lidar com a burocracia envolvida.
P – Fale um pouco sobre a edição dos livros. Como começou e qual é o estado atual?
R – Iniciamos em 2020 com o lançamento de livros, já que não era possível realizar eventos presenciais. Começamos com as antologias poéticas Miscelânea – Volume 1 e Volume 2 em 2021.
Na sequência, veio Inquietude Impressa, em 2022, um livro de crônicas.
Em 2023, homenageamos a professora guaporense Helena Vicari com o lançamento de um livro completo com seus poemas, intitulado Apenas Eu.
Em 2024, lançamos Verdes Campos de Veludo Neutro e, para 2025, já está previsto o lançamento de Linhas Tortas: Crônicas, Poesia e Resistência, reunindo mais de 70 autores. (previsão de lançamento para setembro de 2026)
P – Quando haverá um novo evento na cidade?
R – O projeto Multicultural GuapoROCK tem lançado um livro por ano. Graças aos autores selecionados, patrocinadores, amigos e voluntários, conseguimos promover o evento de lançamento desses livros, reunindo amantes da poesia, da cultura em geral e da escrita.
Por enquanto, essa tem sido a principal atividade do projeto ao longo do ano: promover o lançamento de livros de poesia e crônicas de autores independentes.
P – Há alguma perspectiva de se formar um movimento na Encosta Superior do Nordeste?
R – Essa é uma das dificuldades do setor cultural: a falta de cooperação entre projetos independentes. O setor carece de incentivos que estimulem a união entre os diversos agentes culturais. Para se ter uma ideia, já participei de festivais onde os organizadores não viam com bons olhos a divulgação do GuapoROCK dentro de seus próprios eventos.
P – Existe um campus da UCS na cidade. Há alguma ligação com a universidade?
R – Não.
P – O que mais gostaria de nos dizer?
R – Trabalhar com cultura é se deparar com muitos obstáculos. Às vezes, essas barreiras vêm justamente das pessoas e produtores que deveriam estar lutando ao nosso lado.
Trabalhar com cultura independente é não saber se teremos dinheiro para pagar as contas no fim do mês. Ainda hoje, somos vistos por muitos como “vagabundos”. Nos últimos anos, vimos ataques à educação, à ciência e à cultura, o que torna a nossa batalha cada vez mais árdua.
Mas seguimos nessa luta porque é disso que gostamos, é com isso que queremos conviver e trabalhar. Podemos nos cansar, mas não desistimos.
ADELI SELL é professor, escritor, jornalista e bacharel em Direito.
