Ao manifestar sua oposição ao Conselho da Paz inventado por Trump, Lula o fez com veemência e indignação. Para ele, o Conselho da Paz não é apenas um projeto para Gaza, mas uma tentativa de liquidar o multilateralismo em que o mundo vive desde o fim do império soviético e da Guerra Fria.
Para o tal Conselho da Paz, Trump convidou cerca de 60 lideranças, entre chefes de governo e personalidades como Tony Blair, do Reino Unido. Alguns desses países já recusaram o convite, caso da França e da Espanha. O próprio Reino Unido, aliado mais cordato e amigável dos Estados Unidos, está indignado, segundo o primeiro-ministro Keir Starmer, por Trump ter menosprezado e depreciado a participação britânica na Guerra do Afeganistão. “Foi insultuoso”, disse o primeiro-ministro.
Quanto à participação do Brasil, sabe-se que a autoridade palestina vê com bons olhos a possibilidade de Lula aceitar o convite de Trump e integrar o Conselho. Nenhum palestino foi convidado a participar do Conselho e Lula, como grande amigo dos palestinos, seria uma voz a defendê-los nos debates desse órgão. Para Lula, o Conselho da Paz acabaria liquidando a ONU. E segundo outras opiniões, acabaria liquidando também a OTAN e esta seria substituída pela vontade individual e soberana de Trump.
Nos Estados Unidos, Trump enfrenta problemas internos e está furioso com o New York Times por este ter publicado uma pesquisa segundo a qual mais de 50% dos americanos desaprovam seu governo, especialmente por causa da persistência da inflação.
Além disso, multiplicam-se os protestos contra o ICE, a polícia imigratória de Trump, que tem praticado violências não só contra imigrantes ilegais, mas também contra cidadãos americanos. No dia 7 de janeiro, em Minneapolis, principal cidade do estado de Minnesota, agentes do ICE mataram Renne Good, cidadã americana que suspeitaram que fosse imigrante ilegal; ela se assustou com a abordagem e tentou abrir a porta do carro, quando foi baleada e morreu. Há poucos dias, em 24 de janeiro, também em Minneapolis, o ICE matou outro cidadão americano, o enfermeiro Alex Pretti, que, segundo os agentes, os confrontou armado de uma pistola ou revólver; na verdade, como disseram testemunhas, levava na mão apenas um telefone celular.
Além das passeatas e manifestações públicas, o que está crescendo nos Estados Unidos é a sugestão para que todos registrem em video, por meio do celular, qualquer abordagem do ICE, porque a filmagem comprova a autoria do crime e a responsabilização de seu autor. Trump, de sua parte, está apenas pedindo que os cidadãos americanos não atrapalhem o trabalho de sua polícia: “eles estão fazendo sua obrigação!”, disse Trump.
Nesse quadro, caberia uma pergunta nada hipotética. Trump tem agido com método em suas ações. Primeiro, foi a metralhadora giratória das tarifas sobre meio mundo. Em seguida, veio a Venezuela e a captura de Nicolás Maduro. Depois da Venezuela, o caso da Groenlândia. Agora, as acões violentas de sua polícia imigratória. Será que, uma vez passado algum tempo desses problemas, ele não vai voltar à ameaça que fez várias vezes, desde que assumiu o governo, de retomar o controle do canal de Panamá, que durante décadas esteve em posse do governo de Estados Unidos?
Segundo Trump, o canal de Panamá não está sendo controlado por panamanhos, mas por militares chineses. Na verdade, os chineses que estão lá não são militares, são civis, funcionários de uma empresa que presta um serviço terceirizado na operação do canal. É o caso de se esperar para ver.
E se Trump voltar ao tema do controle do canal de Panamá, será que não vai querer também, alegando a defesa da segurança dos Estados Unidos, o próprio canal de Suez, do outro lado do mundo?
(*) Por José Augusto Ribeiro – jornalista e escritor, é colunista do Jornal Brasil Popular com a coluna semanal “De olho no mundo”. Publicou a trilogia A Era Vargas (2001); De Tiradentes a Tancredo, uma história das Constituições do Brasil (1987); Nossos Direitos na Nova Constituição (1988); e Curitiba, a Revolução Ecológica (1993); A História da Petrobrás (2023). Em 1979, realizou, com Neila Tavares, o curta-metragem Agosto 24, sobre a morte do presidente Vargas.
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