A SUMAÚMA investiga planos para um projeto de mineração de ouro que escavaria 620 milhões de toneladas de terra no Volta Grande do Xingu, uma das áreas de maior biodiversidade da Floresta.
Imagine uma pilha de rejeitos de mineração com traços de substâncias tóxicas, três vezes maior que a barragem da Vale em Brumadinho – aquela que se rompeu em 2019, matando 272 pessoas. Coloque essa pilha no meio da Amazônia, às margens do Rio Xingu , em uma região que já sofreu graves impactos da Usina Hidrelétrica de Belo Monte . Isso é o que pode acontecer em dois anos no Pará, caso a mineradora canadense Belo Sun consiga dar continuidade ao seu gigantesco projeto de mineração de ouro. Embora a licença concedida pelo governo estadual estivesse suspensa desde 2017, essa suspensão foi revogada pela justiça em fevereiro de 2026. Agora, tudo o que o projeto precisa é de uma nova aprovação da Secretaria de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade do Pará.
Esta área – lar de povos Xikrin, Juruna, Xipai, Arara, Kuruaya e Parakanã, jovens e idosos, de tartarugas como a Gumercinda e de peixes como o pacu-seringa – poderia ser devastada para que uma multinacional estrangeira pudesse faturar mais de 80 bilhões de reais extraindo ouro do solo.
O projeto da mineradora canadense visa levar a maior mina de ouro a céu aberto do Brasil para Volta Grande do Xingu, região que recebeu esse nome devido à grande curva do rio Xingu, uma das mais biodiversas da Amazônia brasileira . Comunidades inteiras precisarão ser realocadas – algumas pela segunda vez, após já terem sido obrigadas a deixar suas casas para dar lugar à Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Os que permanecerem terão que conviver com o ruído constante das explosões, a possibilidade de contaminação dos rios e a lembrança assombrosa da inundação de lama tóxica que devastou as cidades de Mariana e Brumadinho após o rompimento das barragens de rejeitos.
A Belo Sun está em festa após receber a aprovação judicial para instalar sua mina e já informou seus investidores sobre os planos para as próximas etapas do projeto . Os povos indígenas do Xingu, no entanto, resistem a esse avanço em seus territórios. Nos últimos dias, ocuparam a sede local da Funai, a agência nacional para assuntos indígenas, bloquearam o aeroporto e exigem uma reunião com a Secretaria de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade. O governo estadual tem o poder de bloquear a instalação da usina.
A seguir, a SUMAÚMA explica o que é esse projeto e como ele ameaça a vida humana e não humana na Amazônia, bem como o futuro do planeta.
A sede da Funai em Altamira está sob ocupação indígena há mais de um mês, em protesto contra a aprovação judicial da licença da Belo Sun. Foto: Pablito Aguiar/SUMAÚMA
1. O que é o projeto Belo Sun?
O projeto Volta Grande, da mineradora canadense Belo Sun, planeja instalar a maior mina de ouro a céu aberto do Brasil na região do Rio Xingu, no estado do Pará, uma das mais biodiversas da Amazônia. O projeto inclui duas enormes cavas de mineração (as áreas de mineração a céu aberto), uma barragem de rejeitos para armazenar os materiais da mineração, pilhas de minério e uma planta de processamento industrial. A empresa planeja explodir rochas com explosivos e extrair o ouro do meio da Amazônia. Com a licença de instalação em mãos, a Belo Sun estima que poderá construir a infraestrutura da megamina em até dois anos.
O projeto, iniciado em 2012 com levantamentos e um estudo de viabilidade de mineração, está localizado no município de Senador José Porfírio, próximo a Altamira , região já profundamente afetada pelo projeto da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, que alterou o curso do rio e expulsou comunidades ribeirinhas de suas casas e ilhas . Centenas de árvores foram submersas pela barragem e milhares de peixes morreram ou foram contaminados, numa tragédia que se arrasta há anos e causa impactos cumulativos. Especialistas consideram a mina como geradora de uma nova pressão sobre um território que ainda lida com as consequências recentes e devastadoras de outro projeto gigantesco – e sem qualquer comprovação de que a instalação de uma mina de ouro com uso de explosivos próxima a uma barragem seja uma empreitada viável.

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2. Qual é o tamanho da mina de ouro da Belo Sun no Pará?
Para entender a dimensão do projeto, podemos pensar nele como um “Belo Monte de ouro”: um megaempreendimento em escala industrial instalado ao lado de uma das maiores usinas hidrelétricas do mundo, com capacidade para transformar profundamente toda a região circundante.
Enquanto Belo Monte alterou o curso do rio, a Belo Sun pretende escavar o território ao redor do rio, removendo 620 milhões de toneladas de terra – mais do que o peso do Pão de Açúcar do Rio de Janeiro – para obter cerca de 80 bilhões de reais em receita com o ouro que agora se encontra em uma área de floresta e comunidades indígenas. A empresa pretende realizar essa exploração ao longo de 18 anos.
INFOGRÁFICO: Ariel Tonglet/SUMAÚMA
Os superlativos não param por aí. De acordo com os documentos de licenciamento que a mineradora apresentou para o projeto, a barragem terá capacidade para reter 35 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração – aproximadamente três vezes o volume da barragem utilizada pela Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, Minas Gerais, cujo rompimento causou a morte de 272 pessoas em janeiro de 2019.
Essa mina pertencia à Vale, uma empresa que já causou diversos desastres desse tipo. Em novembro de 2015, a Samarco, mineradora na qual a Vale e a britânico-australiana BHP são acionistas, foi responsável pelo rompimento de uma barragem em Mariana, Minas Gerais, que matou 19 pessoas após o despejo de 45 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração. A quantidade de lama misturada com rejeitos foi tão grande que se espalhou por mais de 600 quilômetros, atingindo o litoral leste do estado do Espírito Santo. Estudos independentes indicam que o material da barragem de Belo Sol deve conter rejeitos do processamento de minério, água do processo de mineração e solução tratada com cianeto – um composto químico tóxico usado na mineração para dissolver o ouro.
INFOGRÁFICO: Ariel Tonglet/SUMAÚMA
3. Por que a Volta Grande do Xingu é considerada ambientalmente vulnerável?
A região do Volta Grande do Xingu já não possui o dinamismo de outrora. Desde que suas águas foram desviadas para a Usina Hidrelétrica de Belo Monte , os ribeirinhos e os povos indígenas da região sofrem com uma seca permanente – causada não apenas pelo clima, mas também por decisões humanas . Belo Monte capta cerca de 80% da água do rio para alimentar suas turbinas. O pulsar do Rio Xingu enfraqueceu e as cheias que antes inundavam as florestas, garantindo a reprodução dos peixes, deixaram de ser frequentes.
Sem essas cheias, os locais de desova utilizados pelos peixes secam , seus ovos não sobrevivem e o ciclo da vida se rompe. Há um número crescente de peixes deformados. Além disso, há momentos em que a água retorna abruptamente após ser liberada pela usina, criando um ambiente instável onde o ritmo natural do fluxo e refluxo do rio é substituído por oscilações determinadas por Belo Monte.
Com menos água, houve mais assoreamento e erosão . Em trechos isolados, o escoamento lento da água e o calor criam armadilhas onde os peixes ficam presos em poças quentes e morrem.
É nesse cenário frágil que os povos da região se enfrentam, em uma luta desigual, contra o projeto Belo Sun.
Infográfico: Ariel Tonglet/SUMAÚMA
4. Que impactos a mina poderá ter sobre as pessoas na área do Volta Grande e ao longo do rio Xingu?
Belo Sun representa uma ameaça direta para os povos da região do Volta Grande do Xingu. Comunidades inteiras podem ser deslocadas ou ter seus modos de vida profundamente afetados.
Há riscos de contaminação da água por substâncias tóxicas, como arsênio e cianeto (usado no processamento do ouro), que podem infiltrar-se no rio Xingu através de vazamentos ou infiltrações na barragem que retém os rejeitos da mina. O uso contínuo de explosivos também pode acarretar problemas físicos e psicológicos para as comunidades.
Além das questões ambientais, a chegada de grandes projetos geralmente causa transformações sociais. A mineradora promete 10.000 empregos para a instalação, o que pode gerar um fluxo descontrolado de novas pessoas para a região e um aumento da violência, como ocorreu após a chegada de Belo Monte. Em 2015, ano em que a usina hidrelétrica recebeu a licença para operar, o município registrava a maior taxa de homicídios do país, com 105,2 mortes por 100.000 habitantes. Como a SUMAÚMA demonstrou em suas reportagens , a presença da mineradora na região tem sido associada a disputas de terras, aumento da especulação imobiliária e conflitos nessas mesmas comunidades sobre a aprovação ou rejeição do projeto.
A região do Volta Grande do Xingu, onde a Belo Sun pretende abrir uma mina, já sofre os impactos da redução da vazão do rio devido ao projeto Belo Monte. Foto: Sara Lima
5. Quais são os problemas com a licença da Belo Sun?
O licenciamento do projeto foi marcado por problemas legais e técnicos. A Secretaria de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade do Pará concedeu licenças de pré-aprovação e instalação em 2014 e 2017, respectivamente, mas ambas foram suspensas por decisão judicial que, na época, considerou insuficientes os estudos sobre os impactos sobre os povos indígenas. Desde então, o Ministério Público Federal tem tentado federalizar o licenciamento, porém, durante o governo Lula (Partido dos Trabalhadores), o Ibama, órgão federal de fiscalização ambiental, solicitou à justiça que deixasse de ser o órgão responsável pelo licenciamento, pedido que foi atendido em janeiro de 2025. Isso transferiu a responsabilidade pelo licenciamento de volta para o governador do Pará, Hélder Barbalho (Movimento Democrático Brasileiro), que participou, com um sorriso, de eventos locais financiados pela Belo Sun , como os Jogos Indígenas realizados em Altamira em 2025.
O Ministério Público Federal também destaca que a licença foi concedida pela Secretaria do Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade, embora condições essenciais não tenham sido cumpridas, particularmente em relação à proteção das comunidades afetadas.
Há queixas sobre a falta de uma consulta prévia, livre e informada aos povos indígenas, conforme exigido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho. O Ministério Público Federal também criticou a natureza fragmentada dos estudos, que não consideram os impactos da Belo Sun na região em conjunto com os da Belo Monte.
Em 2025, o governador Helder Barbalho sorriu ao participar de evento financiado pela Belo Sun em Altamira. Foto: Maurício Ellyo Souza de Oliveira
6. Qual é o status atual da licença ambiental da Belo Sun?
Em 13 de fevereiro, o ministro Flávio Jardim, do Tribunal de Apelações Federal da 1ª Região, proferiu uma decisão arbitrária – ou seja, decidiu sozinho, sem votação coletiva de um painel do tribunal ou do plenário – de que a licença concedida pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade era válida, visto que a empresa havia elaborado um Estudo de Componente Indígena e realizado uma consulta pública livre, prévia e informada às comunidades indígenas que poderiam ser afetadas. Menos de uma semana depois , o Ministério Público Federal interpôs recurso solicitando a suspensão da licença ambiental. Entre seus principais argumentos estão:
- O incumprimento das condições impostas pelo tribunal , especialmente no que diz respeito à proteção das comunidades afetadas;
- Não houve consulta prévia, livre e informada, conforme exigido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, o que gerou críticas à “privatização” do processo – que está sendo conduzido por uma empresa contratada de mineração, em violação aos requisitos estabelecidos pela Corte Interamericana de Direitos Humanos;
- Os povos indígenas deslocados estão sendo excluídos da consulta;
- Existem estudos incompletos e insuficientes sobre os povos indígenas, bem como uma avaliação adequada dos impactos e do reassentamento;
- É impossível mensurar os impactos cumulativos da usina de Belo Monte, devido à atual falta de definição sobre a quantidade de água que a usina hidrelétrica irá retirar do rio, o que é um ponto de controvérsia;
- Existe o risco de danos sociais e ambientais irreversíveis antes que uma decisão final seja tomada.
A Funai, agência para assuntos indígenas, afirma que são necessários estudos adicionais para incluir todos os grupos indígenas que possam ser afetados pelo projeto.
Atualmente, apesar de ter aprovação judicial, a licença da Belo Sun não está ativa, segundo a Secretaria de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade do Pará. Em um evento realizado no sábado, 28 de março, em Altamira, o então governador, Hélder Barbalho, afirmou que a secretaria solicitará à mineradora Belo Sun a atualização dos estudos sobre o projeto. Em um e-mail, a secretaria informou que “solicitará à empresa a atualização do projeto de utilização do minério, bem como do projeto de engenharia de extração e processamento mineral, além de notificá-la para que forneça informações sobre quaisquer alterações no projeto de instalação do empreendimento”.
Adriano Espeschit (de frente), atual presidente da Belo Sun, esteve envolvido na compra de apoio indígena para autorizar uma mina de potássio no Amazonas. Foto: captura de tela do Instagram
7. Quem são os investidores da Belo Sun e qual é o histórico deles na Amazônia?
A Belo Sun foi criada por meio de um investimento do grupo canadense Forbes & Manhattan – um fundo bilionário que capta recursos em bolsas de valores e investe em projetos com potencial de lucro. Seus investidores atuam globalmente em projetos de mineração, com foco em mercados considerados de alto potencial – e também de alto risco socioambiental, como um projeto de mineração da Brazil Potash em Autazes , que impacta a população Mura no estado do Amazonas.
Desde maio de 2022, a Belo Sun não faz parte do portfólio de empresas do fundo ; no entanto, relatórios da Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC) mostram que os executivos do fundo bilionário ocuparam cargos em ambas as mineradoras. Por exemplo, o atual presidente da Belo Sun, Adriano Espeschit, ocupou o mesmo cargo na Brazil Potash até junho do ano passado, quando deixou a empresa para assumir o comando da mineradora de ouro .
Estudos citados pelo Ministério Público Federal mostram que os investimentos desses grupos financeiros geralmente minimizam os riscos ambientais e sociais para captar recursos de investidores. Na prática, esse já é um modelo bastante comum para grandes empreendimentos de mineração na Amazônia: capital internacional para financiar grandes projetos de mineração em áreas ambientalmente sensíveis e socialmente vulneráveis.
8. Por que os povos do Xingu estão protestando em Altamira?
Povos indígenas de diversos grupos étnicos da bacia do rio Xingu ocupam a sede da Funai em Altamira desde 23 de fevereiro em protesto contra a mineradora Belo Sun, principalmente por considerarem o avanço do projeto ilegal e uma ameaça. O movimento, que começou com mulheres e posteriormente contou com a participação de homens, denuncia a ausência de uma consulta prévia, livre e informada às comunidades afetadas e exige a suspensão da licença ambiental.
Líderes também acusam a empresa de pressionar povos indígenas e de não respeitar decisões coletivas de rejeição ao projeto, agravando conflitos na região e tornando-a menos segura. Os protestos estão sendo liderados por comunidades indígenas, como os Xikrin, Xipai, Juruna/Yudjá, Arara, Parakanã e Kuruaya, e organizados pelo Movimento de Mulheres Indígenas do Médio Xingu.
O QUE DIZ O BELO SUN
Em comunicado, a Belo Sun Mineração afirmou que “respeita o direito do Movimento de Mulheres Indígenas do Médio Xingu de se manifestar”. Quanto ao recurso interposto pelo Ministério Público Federal, que pede a suspensão da licença ambiental, a empresa argumenta que “cumpre todas as normas legais aplicáveis no âmbito do processo de licenciamento ambiental e sob a supervisão de órgãos públicos competentes”.
A Belo Sun afirmou que cumpre todos os requisitos da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho. Em relação aos impactos do Projeto Volta Grande na região, a mineradora canadense reiterou que o projeto está “em fase de instalação” e que “as atividades de implementação planejadas serão executadas dentro dos limites e condições estabelecidos na licença ambiental”.
Indígenas protestam em reunião do Conselho Municipal de Altamira contra a autorização judicial para a instalação da mina de ouro da Belo Sun. Foto: Pablito Aguiar/SUMAÚMA
Reportagem e texto: Hyury Potter
Edição: Talita Bedinelli e Fernanda da Escóssia
Editor de arte: Cacao Sousa
Editor de fotos: Lela Beltrão
Verificador de fatos: Plínio Lopes
Revisor (português): Valquíria Della Pozza
Tradução em castelhano: Julieta Sueldo Boedo
Tradução em inglês: Sarah J. Johnson
Infografia: Ariel Tonglet
Edição e finalização: Flávia Coimbra
Fluxo editorial: Viviane Zandonadi
Editora-chefe: Talita Bedinelli
Diretora editorial: Eliane Brum
Fonte: Sumaúma








