O termo empreendedorismo passou a ocupar lugar central no discurso econômico, político e cultural da sociedade contemporânea. Apresentado como sinônimo de iniciativa, autonomia e superação pessoal, deixou de ser apenas uma prática econômica para se transformar em uma verdadeira concepção de mundo. Assim, ultrapassa o campo da economia e passa a atuar como categoria cultural produtora de consenso social.
Na perspectiva de Gramsci, esse processo não é neutro nem espontâneo. Para ele, nenhuma palavra que se consolida no senso comum está fora das disputas de poder. Os conceitos que ganham legitimidade social expressam projetos históricos em conflito e cumprem papel decisivo na construção da hegemonia. Ele compreende hegemonia como a capacidade de uma classe social dirigir moral e intelectualmente a sociedade, fazendo com que seus interesses particulares sejam vistos como interesses de todos. Essa direção não se sustenta apenas pela força do Estado, mas principalmente pela cultura, pela linguagem e pelos valores incorporados no cotidiano. Nesse sentido, o empreendedorismo tornou-se um instrumento privilegiado da hegemonia contemporânea do capitalismo.
O discurso empreendedor redefine a relação entre indivíduo e sociedade. Problemas estruturais como desemprego, precarização do trabalho e desigualdade passam a ser explicados como falhas pessoais — falta de iniciativa, esforço ou criatividade. Assim, o conflito entre capital e trabalho é deslocado, e o indivíduo passa a ser responsabilizado por sua própria condição social. Esse movimento produz uma profunda reorganização moral. O “bom cidadão” passa a ser aquele que empreende, assume riscos sozinho e transforma a própria sobrevivência em negócio. O trabalho deixa de ser entendido como relação social e passa a ser tratado como escolha individual. Direitos conquistados coletivamente são convertidos em oportunidades condicionadas ao mérito pessoal.
Na linguagem gramsciana, trata-se de uma verdadeira reforma moral e intelectual. Não se impõe apenas um modelo econômico, mas uma ética e uma forma de interpretar o mundo. O empreendedorismo não nega a desigualdade, mas a naturaliza, retirando dela seu caráter histórico e político. Ao transformar trabalhadores em “empreendedores de si mesmos”, esse discurso também enfraquece a consciência de classe. Os riscos produzidos pelo sistema econômico capitalista passam a ser vividos como dramas individuais. O que antes era conflito social se converte em culpa pessoal.
Porém, o senso comum é contraditório. Nele também existem elementos de bom senso, nascidos da experiência concreta da vida. A instabilidade, a informalidade e a ausência de proteção social produzem fissuras no discurso dominante e abrem espaço para a disputa cultural. Assim enfrentar a hegemonia do empreendedorismo não significa negar a iniciativa econômica, mas disputar seu papel. A economia de base familiar, popular e solidária aponta esse caminho ao valorizar cooperação, território e partilha dos riscos, subordinando o dinheiro às necessidades da vida.
Disputar o sentido das palavras é disputar o modelo de desenvolvimento. Como ensinou Gramsci, toda luta política profunda é também uma luta cultural — e dela depende o tipo de sociedade que queremos construir.
Delso Oliveira Andrade
Janeiro de 2026 segunda quinzena
