“Das mãos de Guarany/ surdiram monstros / que colocados na proa dos barcos/ protegiam os viajantes contra os terrores do rio” [Centenário, Carlos Drummond de Andrade]
Era noite já, 5 de maio de 1985, quando recebi a notícia de que Francisco Biquiba dy Lafuente Guarany, o maior dos carranqueiros, tinha externado o último suspiro, indo ao encontro da sua Benvinda que poucos anos antes lhe tinha deixado viúvo.
Ao amanhecer me mandei pra casa do filho dele, Ubaldino [Maninho], onde estava sendo velado o corpo do Mestre.
Enquanto perambulava pelas ruas ia imaginando que a casa iria estar superlotada e a rua cheia de admiradores para a última despedida ao escultor internacionalmente renomado.
Santa puta ingenuidade.
Rua vazia, casa com meia dúzia de amigos e parentes.
Decepcionante pro autor destas mal traçadas linhas.
Cantado em prosa e verso, inclusive por grandes jornalistas, tais como Emiliano José e Audálio Dantas, e pelo poeta maior Carlos Drummond de Andrade [com crônicas e o poema Centenário], solenemente ignorado na sua aldeia, onde nasceu a 2 de abril de 1882.
Emiliano, quando veio participar da 4ª Semana de Arte e Cultura a convite da Casa da Cultura ALM-Biblioteca Campesina, entrevistou Guarany, derivando na reportagem intitulada “O mago da alma do velho rio e de sua gente”, publicada no Jornal da Bahia em 9 de fevereiro de 1984.
Audálio Dantas, que há pouco tempo nos deixou, veio a Santa Maria especialmente pra se encontrar com ele, gerando a publicação do texto cujo início é “A vida de Francisco Biquiba dy Lafuente Guarany, vida longa de 83 anos…”, publicada na revista Realidade de março de 1972.
Ressalte-se que a capa daquela edição foi ilustrada com uma carranca de Guarany na beira do Rio Corrente tendo ao fundo vista parcial de São Félix. Com as centenas de fotos que Audálio coletou pelo Vale do São Francisco, ele elegeu justamente uma escultura do nosso Mestre. Homenagem de inestimável valor, motivo de grande orgulho pra nós santa-marienses.
Personagem do romance Porto Calendário, do também nosso conterrâneo Osório Alves de Castro, inclusive no trecho que retrata Cipriano Acendedor-de-lampião, pungente.
As carrancas de Guarany estão espalhadas pelo mundo, expostas nos mais importantes museus de inúmeros países em vários continentes.
No cemitério, duas minguadas dezenas de comparecentes. Antes do corpo baixar, um pastor proferiu uma série de baboseiras sem emitir sílaba sequer em referência à genialidade desse homem de grande e inquestionável importância para a arte popular brasileira-APB.
Não me contive, pedi a palavra e expressei minha indignação ante aquele último golpe que a elite santa-mariense assestava contra o gênio das carrancas.
Guarany passou por tremendas dificuldades, sobrevivendo muitas vezes quase miseravelmente. Ainda me lembro que minha mãe Dizinha com frequência levava bolo, biscoito e cuscuz pra Guarany e dona Benvinda, muitas vezes o casal desjejuando com café, farinha de mandioca e só.
Se foi fisicamente o Mestre mas sua arte permanecerá perenizada pra encantamento d@s amantes da esCultura.
Biblioteca Campesina, 5 maio 2026
(*) Joaquim Lisboa Neto, colunista do Jornal Brasil Popular, coordenador na Biblioteca Campesina, em Santa Maria da Vitória, Bahia; ativista político de esquerda, militante em prol da soberania nacional.
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