Enquanto Lula cuida tranquilamente de seu projeto de reeleição, os Bolsonaros estão se entredevorando numa luta mortal, para decidir qual candidatura vai prevalecer: a de Flávio, candidato a presidente, ou a de Michele, candidata a vice-presidente de Tarcísio de Freitas.
Lula pode ter essa tranquilidade porque os resultados de seu governo apresentaram-se muito bons já ao longo de 2025. A inflação fechou o ano abaixo do teto legal de 4,5%. Apesar disso, o desemprego não cresceu e continua caindo, ao contrário do que costuma acontecer quando um processo anti-inflacionário chega a resultados como aqueles que já alcançou no Brasil.
No início de fevereiro, os trabalhadores já vão receber o salário mínimo aumentado, bem acima da inflação, cerca de 7%. E os trabalhadores que ganham até 5 mil reais por mês já não terão o desconto do imposto de renda, que equivalerá, no fim do ano, a uma espécie de 14º salário. A eliminação do imposto de renda para quem ganha até 5 mil reais pode ser o maior avanço social do atual governo Lula, equivalente oo que foi o Bolsa Família dos dois primeiros governos. Apesar dos juros altos, a economia continuou crescendo, não tanto quanto poderia se os juros baixassem. De qualquer maneira, esse é um resultado talvez inesperado, mas muito promissor.
Outro programa de muito futuro não poderá avançar tanto quanto se gostaria: o programa Pé de Meia, que paga a estudantes pobres apenas para estudarem, o que permite reduzir consideravelmente a evasão escolar destes estudantes, que deixam a escola para trabalhar e ajudar suas famílias. Na votação do orçamento deste ano, o Congresso reduziu as verbas para o programa e Lula não teria o poder de aumentar esses recursos. Mas em geral, todos os programas sociais do governo avançaram.
Há poucos dias, Lula realizou uma longa reunião com os comandantes militares, o General Tomás Paiva, do Exército, o Almirante Marcos Olsen, da Marinha, e o Brigadeiro Marcelo Damasceno, da Aeronáutica. Participou também, naturalmente, o Ministro da Defesa, José Múcio. O objetivo da reunião, a primeira do ano, foi discutir as necessidades financeiras das Forças Armadas diante do quadro de instabilidade internacional e de tensões graves que comprometem todas as perspectivas até aqui mantidas. A prioridade, claro, é a fronteira norte do país, com a atual situação da Venezuela. Mesmo não havendo preocupação com a hipótese de ações militares norte-americanas no norte do Brasil, essa é uma região que há muito tempo vem sendo colocada em primeiro plano pela importância da floresta amazônica e agora pelo petróleo da margem equatorial.
Uma questão que pode ter ganhado prioridade ao longo da reunião é o projeto do submarino nuclear. Esse projeto, que vem dos governos anteriores de Lula e Dilma, pouco progrediu no governo Bolsonaro, mas agora volta a avançar. Não se trata de um submarino dotado de armamento nuclear, até porque o Brasil não tem armamento nuclear. Trata-se de um submarino movido a energia nuclear, que pode permanecer muito tempo debaixo d’água, sem ter que voltar à superfície, e que pode navegar também por muito tempo sem ser reabastecido.
O submarino nuclear com tecnologia francesa patrulhará facilmente, com poucos dias de diferença, tanto os campos de petróleo das bacias de Campos e de Santos, como os novos postos que forem instalados na fronteira norte na margem equatorial. Ficará também sob seu encargo o patrulhamento da enorme extensão oceânica conhecida como Amazônia Azul, a zona de exploração, exclusiva do Brasil, do Oceano Atlântico que rodeia o seu território.
A Amazônia Azul tem extensão comparável à Amazônia e só isso basta para mostrar a importância que terá para o futuro, a longo prazo, o projeto do submarino nuclear e o reaparelhamento das Forças Armadas à medida que se complicam as gerações internacionais e que uma nova guerra fria, quase quente, já está se formando ao redor do globo.
Como dizia Winston Churchill, o político se preocupa com a próxima eleição e o estadista se preocupa com a próxima geração. É claro que para ter poderes capazes de levá-lo a pensar na próxima geração, o político precisa ter um mínimo de êxito quanto a próxima eleição. Lula está conduzindo muito bem o projeto da reeleição e como se vê, melhor ainda, os projetos essenciais para o Brasil das próximas gerações.
(*) Por José Augusto Ribeiro – jornalista e escritor, é colunista do Jornal Brasil Popular com a coluna semanal “De olho no mundo”. Publicou a trilogia A Era Vargas (2001); De Tiradentes a Tancredo, uma história das Constituições do Brasil (1987); Nossos Direitos na Nova Constituição (1988); e Curitiba, a Revolução Ecológica (1993); A História da Petrobrás (2023). Em 1979, realizou, com Neila Tavares, o curta-metragem Agosto 24, sobre a morte do presidente Vargas.
*As opiniões dos autores de artigos não refletem, necessariamente, o pensamento do Jornal Brasil Popular, sendo de total responsabilidade do próprio autor as informações, os juízos de valor e os conceitos descritos no texto.
