Bruna Camilo explica que algoritmos, influenciadores masculinistas e extrema direita alimentam violência contra mulheres
A explosão recente de feminicídios no país não pode ser entendida sem olhar para a internet. É o que defende a socióloga e cientista política Bruna Camilo, pesquisadora em gênero e misoginia, convidada do BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato. Para ela, a radicalização masculina nas redes está diretamente ligada ao crescimento da violência contra mulheres no Brasil.
Segundo o Mapa Nacional da Violência de Gênero, 3,7 milhões de mulheres sofreram algum tipo de agressão doméstica no último ano. Além disso, 1.459 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2024 e já são mais de 1.180 casos em 2025. Para Camilo, as manifestações recentes que tomaram as ruas expressam um limite social diante dessa escalada. “As manifestações foram muito importantes porque dão voz às mulheres, mostram que queremos autonomia e liberdade. A violência que nossas avós sofreram não pode ser mais normalizada”, afirmou.
A pesquisadora explicou que o aumento da violência não é apenas resultado de mais denúncias, mas de um crescimento real, alimentado pela ação de grupos masculinistas e discursos de ódio online. “Existe uma disputa de narrativas dentro da internet. Quando temos discursos misóginos propagados sem sanção, isso dá exemplo aos homens misóginos. Eles se sentem autorizados a bater e violentar mulheres quando elas dizem não, quando ocupam cargos de liderança”, observou.
Camilo destacou que influenciadores da “machosfera” – como Thiago Schutz, conhecido como “Calvo do Campari”, preso por agredir a namorada – tornam-se referência para jovens e adultos, reforçando a lógica de que mulheres devem ser subordinadas. Esse discurso, diz ela, “está chegando no mundo físico; as mulheres estão morrendo por isso”.
Ela indicou que a combinação entre o ressentimento masculino, a pressão por padrões irreais de masculinidade e conteúdos misóginos que circulam em jogos, memes e algoritmos cria um ambiente fértil para a radicalização de meninos e homens. “Os jogos, os chans, o humor: tudo isso vira porta de entrada. Mesmo perfis que não buscam esses conteúdos recebem material misógino em poucos minutos. O algoritmo está sendo moldado para isso”, alertou.
A pesquisadora também apontou que a misoginia é hoje um negócio lucrativo, diretamente conectado à extrema direita. “Para quem interessa o lucro da misoginia? Interessa ao movimento Red Pill, às plataformas de vídeo e aos donos das big techs. Há uma engrenagem que liga conteúdo misógino, dinheiro e política”, pontuou. Segundo ela, responsabilizar as plataformas e investir em políticas públicas de desradicalização são ações urgentes.
Ao projetar o cenário eleitoral de 2026, Camilo se mostrou preocupada. “Não acredito que teremos um Congresso menos conservador. Precisamos eleger mulheres feministas, negras, indígenas e trans e homens que reconheçam seus privilégios e abracem o progressismo”, defendeu. Para ela, enfrentar a violência exige combater a desinformação, fortalecer movimentos sociais e assegurar que leis como a Maria da Penha sejam aplicadas de forma efetiva. “Somos nós que materializamos as políticas públicas. É necessário quebrar essa lógica patriarcal, misógina e racista”, concluiu.
