Gosto de documentários, especialmente os políticos. De podcasts a séries em canais por assinatura, troco qualquer ficção por um bom relato jornalístico. Esse hábito nasceu quando comecei a escrever romances com pano de fundo histórico. Cada depoimento, cada imagem de arquivo me conduz a realidades que, embora, muitas vezes, tenha vivido, revelam-se hoje muito mais complexas do que eu era capaz de compreender à época.
Isso aconteceu no domingo à noite, quando comecei a assistir Caçador de Marajás, lançado recentemente na Globoplay. A série, dividida em sete episódios, aborda a rápida ascensão e a queda do primeiro presidente eleito por voto direto depois de quase trinta anos de ditadura militar. Mostra as estratégias utilizadas para transformar um político quase desconhecido nacionalmente no candidato preferido do povo e da elite brasileira.
Collor surgiu como um símbolo de modernidade e moralização, um rosto jovem que prometia romper com as velhas práticas políticas. Mas, à medida que os episódios avançam, a euforia se desfaz, revelando o mesmo jogo de poder, vaidades e interesses que insiste em atravessar a história do país. Qualquer semelhança com outro presidente que tivemos há pouco tempo não é mera coincidência, mas parte de uma estratégia política. Collor também se via como um messias capaz de salvar o Brasil. Cada gesto era calculado: a chegada de helicóptero em comícios, o terno branco, o discurso inflamado — tudo milimetricamente pensado para compor a imagem de um ser enviado dos céus para tirar o país da crise inflacionária deixada pelo governo Sarney.
Com as artimanhas de uma campanha suja, temperada com o que hoje é chamado de fake news, Collor venceu a eleição trazendo consigo a decepção para aqueles que depositaram sobre ele a sua confiança. Eu era criança naquela época, mas lembro da indignação popular com o confisco das poupanças, da incerteza sobre o que ainda poderia acontecer. Recordo também que a novela Rainha da Sucata, exibida em 1990, refletia aquele momento por meio da história de uma família milionária que faliu após o Plano Collor.
Na vida real, porém, a medida atingiu também os mais humildes. Pessoas que haviam economizado por anos para uma cirurgia, para comprar uma casa, para garantir um futuro menos incerto de repente se viram sem poder contar com o próprio dinheiro. Com isso, a popularidade do presidente despencou e não demorou para que ele passasse de herói a vilão. No entanto, o pedido de impeachment só veio anos mais tarde, depois de uma denúncia de corrupção feita por seu próprio irmão, Pedro Collor. A partir daí, a imagem do “caçador de marajás” começou a ruir em rede nacional. As manchetes se multiplicaram, os escândalos vieram à tona e o país, mais uma vez, mergulhou em um clima de instabilidade.
Eis que, nas mesmas ruas onde, poucos anos antes, a eleição de Fernando Collor havia sido celebrada com euforia, surgem agora jovens de rostos pintados de verde e amarelo, empunhando cartazes e exigindo mudanças. Eram os caras-pintadas, estudantes que marcaram uma geração, simbolizando o despertar político de um país recém-saído da ditadura.
Rever esses acontecimentos nos ajuda a compreender a fragilidade e a importância das instituições democráticas, assim como o papel da sociedade em fiscalizar e cobrar responsabilidade de seus governantes. Se tivéssemos o hábito de revisitar constantemente a história do nosso país, seja por documentários ou outras fontes de pesquisa, talvez os erros do passado não se repetissem. O uso de estratégias de manipulação, promessas messiânicas e espetáculo midiático que impulsionaram Collor não seriam reproduzidos com a mesma naturalidade em campanhas futuras e quem sabe, um Jair Bolsonaro nunca chegasse à Presidência da República. @andreiascheferescritora
