Num primeiro momento, achei graça. Parecia apenas mais um daqueles vídeos feitos para arrancar curtidas ou gerar engajamento nas redes sociais, já que, todos os dias, uma avalanche de publicações soterram a internet em uma sucessão de absurdos. Pouco depois, começaram a surgir outras gravações semelhantes, e a cena estúpida de um homem mamando em uma garrafa de detergente mostrou ser apenas a ponta do iceberg que começava a se revelar.
O caso em questão não se tratava de um episódio isolado de exibicionismo digital ou da necessidade contemporânea de viralizar a qualquer custo. Aquilo era uma espécie de protesto, uma reação à decisão da Anvisa de suspender a fabricação e determinar o recolhimento de lotes específicos dos produtos da marca Ypê. Chamando a orientação sanitária de perseguição política, os manifestantes das redes sociais incentivavam os seguidores a continuarem comprando e consumindo os produtos, desafiando as consequências de uma possível contaminação.
Diferente do período sombrio da ditadura militar, em que parte da população arriscava a vida lutando por causas legítimas, hoje assistimos ao surgimento de uma militância esvaziada de sentido, voltada à defesa de teorias conspiratórias e revoltas fabricadas nas redes sociais. Antes, protestava-se contra a censura, a tortura, a ausência de democracia e o desaparecimento de pessoas. Agora, muita gente se mobiliza para defender políticos golpistas e empresários, atacando instituições científicas ou transformando medidas sanitárias em perseguição ideológica.
Em algum momento dos últimos anos, o achismo passou a funcionar como posicionamento político. O primeiro passo talvez tenha acontecido quando um presidente da República minimizou a gravidade de uma pandemia enquanto centenas de brasileiros morriam diariamente. Depois, esse mesmo governante, ao plantar desconfiança em relação às vacinas e divulgar medicamentos sem eficácia comprovada, estimulou ataques à ciência e fortaleceu teorias conspiratórias.
A partir dali, o absurdo passou a circular com naturalidade. Já não era necessário compreender um assunto para opinar sobre ele. Bastava duvidar de qualquer conhecimento técnico, gravar um vídeo contestando análises científicas e compartilhá-lo em grupos de WhatsApp. Quanto mais ridícula a desinformação, maiores pareciam ser as chances de viralização.
Redes como Instagram, Youtube e Facebook ampliaram ainda mais esse cenário, transformando pessoas leigas em especialistas. Pouco importa se alguém está colocando a própria saúde em risco diante de uma câmera. O essencial é demonstrar fidelidade a uma narrativa, desafiar órgãos públicos, desacreditar instituições e transformar a ciência em disputa ideológica.
Há tantos debates em torno da Inteligência Artificial e sobre como ela deve ou não ser utilizada., mas o que, realmente, tem me perturba é a dificuldade de conter a estupidez que, artificial ou não, conquista a cada dia mais seguidores. Mais assustador do que ver um homem mamando detergente diante de uma câmera é acreditar que ele via a si mesmo como alguém defensor de uma causa.
